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Tudo Que Não Mereço

Summary:

Mesmo sabendo que a realidade da vida de um príncipe podia ser a mais sórdida de todas, Sanji nunca deixou de acreditar em contos de fadas.
Ele nunca deixou de idealizar romances mágicos, histórias onde o amor poderia resolver tudo.
Sanji amava o amor, afinal, ele é sempre um furacão.
Contudo, por mais que tentasse, por mais que mentisse a si mesmo, Sanji não conseguia acreditar ser merecedor de um amor assim.
Um ômega quebrado e fabricado em laboratório como ele não tinha o direito de ser amado.
Então era claro que um alfa imponente, leal e determinado como Zoro nunca iria retribuir seus sentimentos, mesmo que ele parecesse gostar de transar com Sanji, o fodendo como se fizesse parte de seu treinamento para se tornar o Maior Espadachim do Mundo.
Não, Zoro nunca amaria Sanji de volta, mesmo que ele tivesse voltado a Sabaody com seu bebê de cabelo verde nos braços.
Pelo menos era isso o que Sanji pensava por não acreditar ser merecedor de Zoro.

Ou: o tão pedido spin-off de "Não Há Nada Entre Nós" pelo POV de Sanji (sim, você PRECISA ler "NHNEN" primeiro!)

Notes:

olá, amores🥹
como está mencionado na sinopse, isso vai ser uma espécie de fic companheira (bem—com sorte—menor) de Não Há Nada Entre Nós, mas mostrando momentos cruciais do ponto de vista do Sanji, principalmente aqueles que Zoro não pôde fazer parte, como durante a gestação da Kora e o parto e tudo o mais, porque sim, vocês REALMENTE queriam algo assim, tipo, realmente queriam isso e eu pensei "por que diabos não?". eu AMO escrever do ponto de vista do sanji e acho que isso vai ser divertido!
mas sim, se você não leu NHNEN, então eu recomendo MUITO que vá fazer isso antes de ler essa aqui porque eu NÃO vou reescrever TODA cena ou momento do ponto de vista do sanji, só referenciar, então você PRECISA ler aquela primeiro pra entender tudo aqui, além de que só esse prólogo já tem GRANDES spoilers de NHNEN, então, leiam na ordem da série "koraverso", ok? primeiro a parte um, depois você pode voltar aqui!

enfim, essa fic vai ter alguns temas delicados e até desconfortáveis por causa de um VINSMOKE JUDGE, então prestem atenção nas tags e avisos, e tudo isso já começa com esse prólogo. eu juro que amo o sanji pra caralho, é loucura, mas ele foi ainda mais traumatizado nessa versão quando criança, então yey 😀

ah, sim, curiosidade rápida: esse prólogo na verdade era pra fazer parte de uma fic canon omegaverse luzosan que eu nunca cheguei a escrever, então decidi tornar ele canon pro sanji de NHNEN e usar porque isso foi literalmente a PRIMEIRA coisa de one piece que eu escrevi em janeiro do ano passado, eu escrevi tudo em só dois dias e ainda queria compartilhar mesmo sabendo que não ia continuar aquela fic, então aqui estamos!

e eu realmente espero que vocês gostem! <3

avisos de gatilho

menções de abuso infantil e modificações corporais não consensuais e descrição de tentativa de estupro de menor de idade.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: prólogo.

Chapter Text

— Você é um homem alfa como seus irmãos, mas é humano demais para ser útil como eles, para servir a Germa e devolvê-la à sua glória como eles farão, — Vinsmoke Judge, o “Garuda”, dizia em tom seco, os lábios torcidos em desgosto mesmo que se recusasse a olhar para o pequeno garoto parado em pé, perceptivelmente tremendo, em frente ao seu imponente trono. — Contudo, alguns dos cientistas tiveram uma ideia interessante, algo que podem fazer para que, no futuro, você possa vir a ter algum valor para a grande Germa.

O garoto à sua frente, sua quarta prole, tão pequeno e visivelmente frágil que parecia ser mais novo do que os sete anos que tinha—ao contrário de seus três irmãos gêmeos, desde o nascimento sempre maiores e mais fortes do que ele—, mordiscava sem parar os lábios enquanto abria e fechava as mãozinhas na barra de sua camisa amarela com um grande “3” preto no centro.

Ao perceber que agora Judge o encarava duramente como se esperando uma resposta, Sanji engoliu em seco e apertou sua camisa com força.

— O que… qu-que ideia?

— Isso não importa para você. O que eu quero saber é: você irá colaborar e fazer o necessário para que o experimento que farão em você seja um sucesso? — Apesar da pergunta, o olhar e tom do rei deixavam claro que havia apenas uma resposta certa.

O coração de Sanji disparava e suas mãos ficavam ainda mais suadas só de imaginar quais seriam as consequências caso respondesse errado.

Era quase certo de que Ichiji, Niji e Yonji seriam convocados ali e ele passaria à noite na ala hospitalar de novo.

— Si-sim, papai.

— Fale mais alto! Não tem força nem pra isso, fracasso?

— Sim! Eu-eu vou fazer tud-tudo direitinho, papai. — Ao terminar de falar, quase gritando para não ser repreendido novamente, Sanji prendeu os lábios com tanta força entre os dentes em uma tentativa de segurar as lágrimas que um forte gosto de metal começou a invadir sua boca.

O rosto de Judge estava tão erguido que seu fino bigode preto quase parecia ser suas sobrancelhas e seu olhar imóvel sobre o garoto era tão duro quanto o exoesqueleto sob a pele de seus outros filhos.

E o silêncio que perdurou pelo o que pareceram minutos, tão pesado quanto o punho de Yonji forçando os dentes de leite de Sanji a cairem antes do tempo.

— Vá para o laboratório, não temos tempo a perder, — ordenou e levantou-se do trono, retirando-se do cômodo como se fosse doloroso ficar na presença do filho, ou como se qualquer outra coisa fosse mais digna de sua atenção.

Assim que os longos cabelos loiros escuros de Judge sumiram de vista, as pernas de Sanji—que não haviam parado de tremer nem por um instante—falharam, levando-o de encontro ao chão enquanto o ar voltava a entrar mais tranquilamente em seus pulmões, mesmo que sua garganta continuasse travada e as lágrimas escorressem tão livremente de seus olhos quanto o sangue pingando de sua boca.

Tudo o que ele queria era correr para os braços de sua mãe, era deixar que ela o apertasse contra si, ouvir e sentir seu coração batendo firme sob sua pele quente enquanto ela acariciava seu cabelo e o falava na mais doce das vozes o quanto o amava, o quanto tinha amado a comida que ele fizera para ela.

Mas os braços de Sora nunca mais poderiam ser o seu refúgio—ela havia para sempre o deixado sozinho ali há pouco mais de um mês.

Mesmo que estivesse doente desde que Sanji se lembrava, aquela ainda era uma verdade que entalava, impossível de engolir; tanto que ainda era difícil pisar na cozinha.

Até porque, para quem cozinharia se não para a sua mãe?

O último ratinho que cuidara com todo o carinho fora atirado da janela de seu quarto junto com o prato de comida, descartado por Judge como se não fosse nada, como se Sanji não tivesse aprendido a amá-lo.

E ele não tinha sido o único animalzinho assassinado em sua frente, pelo crime de terem feito Sanji sorrir e recebido seu amor em troca.

Agora sem Sora, as coisas iriam apenas piorar, Sanji sabia disso, mesmo tão novo, sabia que precisava fazer algo antes que sofresse o mesmo destino deles.

Então engoliu as lágrimas com o sangue de seus lábios machucados, ignorando a queimação em suas palmas por quanto havia as apertado e forçou suas pernas ainda enfraquecidas e trêmulas a levarem-o até o laboratório de Germa, tão grande que ocupava um castelo inteiro e, pelos nove meses seguintes, deixou que fizessem o que quisessem dele sem reclamar, protestar e, com muito esforço, nunca pediu para pararem.

Apenas não conseguiu não chorar, gritar e, até mesmo, vomitar quando a dor ficava forte demais ou as pílulas que o forçavam garganta abaixo pareciam estar derretendo todos os seus órgãos ou trocando-os de lugar.

Sanji não tinha ideia do que estavam fazendo com ele porque não importava quantas vezes perguntasse, era ignorado e silenciado com mais uma agulha perfurando sua pele, com líquidos de cores questionáveis e grossos demais queimando suas veias.

Nove meses de sofrimento que, de acordo com os olhares decepcionados de Judge e seus cientistas, tinham sido em vão.

Então um capacete foi colocado em sua cabeça e Sanji foi trancafiado em uma cela em uma das masmorras, recebendo apenas a visita de um servo o trazendo comida duas vezes ao dia e de pequenos ratos, suas únicas verdadeiras companhias.

Isso, é claro, até seus irmãos o encontrarem e voltarem a tratá-lo como saco de pancada, sem se importarem em onde e quão forte acertariam, nem mesmo se ele teria tratamento para todas as feridas abertas.

Por um mês inteiro, ele chorou e implorou perdão a Judge, sem entender o que tinha feito de errado, sem entender porque tinha nascido diferente.

— Me desculpa, pai, por ter nascido tão fraco!— Ele gritou até seus pulmões queimarem, mesmo que ninguém o estivesse ouvindo.

Sem saber que Vinsmoke Judge tinha anunciado para todo o Reino Germa, e para o mundo, que seu quarto filho, Vinsmoke Sanji, estava morto.

E se não fosse por Reiju—sua irmã mais velha, com seus cabelos cor-de-pitaia e olhos azuis que, às vezes, pareciam quase tão gentis quanto os de Sora haviam sido—tratando de seus ferimentos e, após sete meses de encarceramento, quebrando as grades para ajudá-lo a fugir, sua morte poderia ter se tornado verdadeira.

O experimento foi um fracasso, você agora é infértil e nunca vai ser útil para mim para nada, por isso sob nenhuma circunstância é para você se identificar como meu filho. Você é a única mancha na minha vida, a única coisa da qual tenho vergonha.

Foram as últimas palavras que seu paVismonke Judge o dissera antes de permiti-lo fugir para o East Blue, mas foram as palavras de Reiju que o deram forças para não desistir de tudo e agarrar-se à liberdade que lhe havia sido apresentada. Agarrar-se à esperança de que sua vida no mar, com estranhos e em lugares desconhecidos, poderia ser melhor do que qualquer momento que passara em Germa:

O mar é grande… você vai conhecer pessoas gentis um dia!”

Depois de receber gentileza apenas de sua mãe e irmã, sendo tratado como nada menos do que lixo por todos os homens ao seu redor, Sanji não conseguia imaginar que homens fossem capazes de tal sentimento.

Não, era natural para homens serem desprezíveis.

Então é claro que não ficou surpreso quando os cozinheiros do navio onde conseguiu cama e comida em troca de ajudar na cozinha, caçoaram de seu sonho, acusando-o de ser infantil e patético por acreditar que um mar mágico poderia existir.

Além de não serem capazes de gentileza e bondade… talvez homens também não fossem capazes de sonhar e, para compensar tudo isso, deleitavam-se em fazerem os demais sentirem-se inferiores.

Até que um capitão pirata sujo e terrível, conhecido como “Perna Vermelha” por sempre manchar seus sapatos com o sangue dos inimigos, comeu a própria perna para salvar a vida de Sanji.

Porque eles compartilhavam o mesmo sonho.

“Perna Vermelha” Zeff passara sua vida inteira procurando pelo All Blue, mas ao sacrificar sua perna, renunciara sua vida como pirata, então cairia sobre os ombros de Sanji a missão de encontrar o misterioso mar onde todos os outros se encontravam.

Porém, antes disso, ele precisava ajudar Zeff a realizar seu novo e surpreendentemente generoso sonho: criar um restaurante no meio do mar para que ninguém sofresse a fome que quase os havia arrastado para a cova.

E, antes que Sanji se desse conta, o Baratie era sua nova casa e, com a ajuda de Zeff—mesmo que o velho fosse insuportável e sempre dificultasse tudo para ele—, estava tornando-se um cozinheiro do quem Sora se orgulharia.

Com cada novo prato feito, Sanji não conseguia não imaginar o sorriso que sua mãe daria ao prová-lo.

E essa era a única coisa de Germa que ele se permitia pensar.

Isso é, até seus doze anos, quando a resposta do que os cientistas haviam lhe feito a mando de Judge finalmente bateu de súbito à sua porta, virando seu mundo, mais uma vez, de ponta cabeça.

Era uma manhã comum no Baratie, o restaurante abriria dali a poucas horas, mas parte dos funcionários já estavam começando a preparar o local, inclusive os cozinheiros responsáveis pelo café da manhã e brunch já estavam a postos e, naquele dia, Sanji iria auxiliar Zeff com uma reserva especial da marinha, então após colocar seu uniforme e higienizar devidamente suas mãos e braços, ele foi pegar alguns ingredientes na despensa. Ficou aliviado por não ter ninguém lá, já que quase todos os outros cozinheiros gostavam de tratá-lo como criança e caçoá-lo quando precisava de um banquinho ou escada para pegar certas coisas. E de fato ele estava em cima de uma escada procurando uma farinha de mandioca que tinha certeza de que ainda tinha aberta—porque não podiam deixar nada vencer ou estragar—quando um brusco calor o atingiu em cheio.

Sanji já acordara sentindo-se um pouco estranho, com um desconforto em seu abdômen, mas não era nada insuportável ou que o atrapalhasse, tanto que conseguiu ignorar a ponto de esquecer, até esse calor surgir, originando-se da parte de baixo de sua barriga, descendo para as pernas e subindo para seu peito, pescoço, até chegar ao rosto como uma febre causando-lhe vertigem e quase o fazendo cair da escada. Mas ele nunca tinha ficado doente antes e não tinha porque ficar agora, ainda mais não quando isso poderia fazê-lo atrasar o brunch e levar bronca de Zeff.

E ele não podia dar ainda mais trabalho para Zeff, muito menos incomodá-lo com inconveniências do tipo…

Então aquilo com certeza iria passar, tinha que passar. Sanji só precisava respirar fundo algumas vezes, inspirar pelo nariz e soltar lentamente pela boca assim como sua mãe o havia ensinado todas às vezes que tivera algum ataque em seu colo.

Se ele ficasse ali quietinho, agarrando-se à escada e respirando dessa forma por um minuto, a dor e todo o desconforto passariam e Zeff nunca saberia desse seu momento de fraqueza.

Mas a dor em sua barriga só ficou mais aguda, como se algo cheio de espinhos o apertasse por dentro a cada poucos segundos, e logo o desconforto estava subindo por suas costas e causando-lhe arrepios de comprimir os dedos e seu uniforme feito sob medida—que tanto amava e que vestia com tanto cuidado e carinho—parecia pequeno demais e começando a grudar em sua pele.

E quando a despensa começou a ficar quase tão sufocante quanto uma cela em uma masmorra, Sanji desistiu de respirar e desceu as escadas o mais rapidamente que suas pernas enfraquecidas e trêmulas o permitiram, querendo mais do que tudo que Zeff o pegasse nos braços e o abraçasse como Sora fazia, garantindo-lhe em uma voz gentil que tudo ficaria bem e que aquilo logo passaria.

Sanji ficaria bem, ele só precisava encontrar Zeff.

Zeff saberia o que fazer.

Só que, antes que ele pudesse sair da despensa, um dos cozinheiros novatos—que Sanji ainda não tinha se dado o trabalho de aprender o nome porque a maioria nunca ficava por muito tempo—entrou, parecendo com pressa o suficiente para não notar o garoto da metade do seu tamanho. Até que algo o fez parar de olhos arregalados e ele ergueu o nariz cheirando ao redor e, o que quer que tenha sentido, o levou a perceber Sanji a poucos passos, parado com os olhos saltando das órbitas, o cabelo grudando de suor e curvando-se para abraçar com força sua própria barriga.

Por algum motivo, a presença do homem—um alfa, se os sentidos confusos e assustados de Sanji não tivessem o enganando—fez o corpo inteiro de Sanji congelar em pânico, tanto que algo quente que só poderia ser xixi começou a escorrer por suas pernas, umedecendo ainda mais seus olhos ao ponto de ele não mais conseguir conter as lágrimas.

Por algum motivo, os lábios do homem se esticaram em um sorriso ferroz que eriçou todos os pelos do corpo de Sanji e forçou um ganido baixo de sua garganta.

— Mas olha só o que temos aqui… o chefe Zeff tava guardando você só pra ele, hein, pequeno? — disse fechando a porta da despensa sem tirar os olhos de Sanji, que retraiu-se ainda mais quando percebeu tais olhos percorrendo-o de cima a baixo, seus feromônios de alfa invadindo seu nariz sem permissão. — Não precisa ter medo, posso fazer sua dor passar.

Sanji deu um passo para trás quando o homem começou a avançar e quase caiu com o coração disparado subindo por sua garganta quando as mãos dele foram para o zíper, abrindo-o e baixando a calça o suficiente para colocar o pau já endurecendo para fora.

— O qu-o que você pen-pensa que ‘tá fazendo? Aqui é a dis-despensa! Isso é-é anti-higiênico! — Sanji tentou esbravejar como sempre, odiando todo seu gaguejar e o quanto não estava conseguindo ir para trás rápido o suficiente porque sua barriga doía. E ele já treinava com Zeff desde antes de o Baratie abrir, mas como poderia se defender quando todo seu corpo estava estranho e suas pernas, suas maiores armas, vacilantes?

O homem soltou um riso em escárnio.

— Mas isso é sua culpa, garoto. Acha que vai andar por aí cheirando tão gostoso assim e não vai ter consequêncas? — rosnou e agarrou o braço de Sanji com força o suficiente para deixar marca, puxando-o para si, mas encontrando uma resistência que levou Sanji a cair no chão.

— Não toque em mim, seu lixo! — Sanji acertou alguns chutes—que poderiam ter sido mais fortes—na canela de seu agressor, quase sorrindo em vitória quando ele também caiu, até ele agarrar seu tornozelo e puxá-lo para baixo, cobrindo todo o corpo menor com o dele. — Me solta! Me solta! Não! Me so-.

O homem cobriu sua boca com a mão, grande o suficiente para cobrir o nariz, travando sua respiração e aumentando o pânico do garoto.

— Se você não colaborar, seu omegazinho de merda, eu vou fazer isso ser ainda mais doloroso pra você, entendeu?

Ambos os grandes olhos azuis de Sanji estavam expostos, arregalados e com lágrimas quentes escorrendo sem pausa enquanto encaravam o homem em cima de si, dominando-o e usando a mão livre para tentar abaixar suas calças sempre bem presas com um cinto.

Se Sanji não fosse um fracasso, uma falha, se fosse mais como seus irmãos, aquele cara já teria perdido a mão por sequer tocar nele.

Contudo ele não era e a dor em sua barriga irradiava para suas costas e suas pernas estavam sendo prensadas pelo peso do homem e seus batimentos estavam o deixando tonto de tão rápidos, acentuando ainda mais sua respiração ainda presa e—.

A visão de Sanji começou a escurecer nos cantos e o ar gélido entrou em contato com suas pernas quentes e tudo o que pôde fazer foi soluçar quando o homem colocou a mão onde não deveria.

Um forte baque ecoou em algum canto do cômodo que Sanji não conseguia mais enxergar, mas assim que a mão deixou seu rosto, o ar voltou para seus pulmões de uma vez, fazendo-o tossir e…

Ele conseguiu sentar-se porque o homem não estava mais em cima de si.

— O que você pensa que ‘tá fazendo, seu animal? Ele é só uma criança! Qual é a porra do seu problema?! — Sanji não lembrava de ouvir Zeff usando aquele tom furioso desde quando o havia conhecido saqueando o navio onde trabalhava. Agora o homem estava parado no meio da despensa, com o rosto vermelho, veias saltadas na testa e pescoço, seu longo bigode loiro em traças tremendo junto a sua respiração pesada e… tinha sangue em sua perna de pau. — Ninguém merece ser tratado dessa forma, mas ele só tem 12 anos! Você entende isso, ou seus instintos primitivos destruiram todos os seus neurônios? — Dessa vez ele vociferou enquanto se aproximava do agressor que, aparentemente, tinha sido chutado contra uma das prateleiras e agora tentava sentar-se enquanto segurava uma das pernas que parecia torcida de uma forma errada, com sangue manchando a calça branca.

— Cadelas não deviam ficar no cio perto de alfas se não q—.

Zeff chutou a cabeça dele tão forte com a perna de pau que um alto barulho de estalo ecoou por todo o cômodo antes do homem cair duro no chão, o sutil erguer e baixar de seu peito o único indício de que não estava morto. Percebendo isso, Zeff posicionou-se para pisar na cabeça com a provável intensão de quebrar o crânio.

— Chef Zeff! — A súbita voz de Patty assustou Sanji que encolheu-se ao olhar para o confeiteiro parado na porta da despensa, deixando-a encostada para afastar olhares curiosos enquanto Carne parecia estar mandando os demais cozinheiros voltarem ao trabalho. Patty apenas indicou Sanji com o olhar quando Zeff virou-se fumegando para ele e, quando seus olhos sempre tão rígidos caíram sobre a forma do garoto tremendo no chão, toda a raiva dissipou-se, mas Sanji não conseguiu olhá-lo por muito tempo, não quando a raiva poderia dar lugar a decepção ou desgosto, então fitou o chão à sua frente ao invés, abraçando com ainda mais força suas pernas agora desnudas contra si.

Ele tinha causado toda aquela confusão, precisou ser salvo por Zeff de novo, com certeza o velho o mandaria embora.

— Berinjelinha, ei, posso te tocar? — Sanji sobressaltou-se com quão próximo Zeff estava, agaixado ao seu lado, mas longe o suficiente para não encostar sem querer, encarando-o com as sobrancelhas franzidas para baixo e com um brilho nos seus olhos que pareciam lágrimas. Mas não podia ser, homens como Zeff não choravam. — Preciso… preciso te vestir e te tirar daqui, berinjelinha. — Seus olhos focaram nas pernas desnudas de Sanji por um instante antes de subirem para o teto, seu nariz se torcendo ao fechar os olhos e engolir em seco. Sanji queria se cobrir e sair dali, mas sua língua parecia grande demais para a sua boca, apenas soluços altos escapavam, então continuou a apenas encarar o homem à sua frente que, apesar de também ser um alfa, não o causava medo algum e não parecia estar sendo afetado pelo o que quer que seja que estivesse acontecendo com ele. — ‘Cê sabe o que está acontecendo com você, berinjelinha? — Perguntou quase como se lesse sua mente, voltando a encarar o rosto inocente e assustado com uma ternura reservada aos momentos em que estavam à sós e conversavam sobre o All Blue. Sanji balançou a cabeça e Zeff suspirou. — Tudo bem, eu vou… eu vou te explicar tudo, mas primeiro precisamos sair daqui. Vou te levar ao seu quarto, o que acha disso? Posso te tocar?

Dessa vez, com todo o lábio inferior entre os dentes e lentamente soltando as pernas e afastando-as de seu corpo, Sanji consentiu com a cabeça e com um suave, quase imperceptível “Sim”.

— Certo. Eu não vou te machucar, confia em mim?

Sanji assentiu com mais veêmencia.

Com cautela, e fazendo de tudo para encostar mais no tecido da roupa do que na pele, Zeff ajudou Sanji a subir a calça até estar ajeitada em seu corpo, o que fez Sanji respirar com ainda mais leveza, mesmo que algo grudendo estivesse o incomodando em toda a sua parte íntima e nas coxas.

— Agora eu vou te pegar no colo, tudo bem, filho?

Os olhos de Sanji arregalaram-se ainda mais, com seu coração voltando a bater mais rápido de uma forma que aquecia seu peito por dentro ao invés de doer. Incerto de que palavras usar, ele apenas assentiu de novo, sem conseguir deixar de observar com uma fascinação incrédula o rosto do homem que o assumira como sua responsabilidade sem precisar, antes de sequer conhecê-lo de fato e sem nunca importar-se em saber de onde tinha vindo, enquanto Zeff colocava um de seus braços embaixo de seus joelhos e o outro sustentando-o pelas costas, certificando-se de que estava seguro antes de voltar a ficar em pé. Sanji acomodou-se em seu peito com um braço ao redor de seu pescoço e a outra mão cravada no tecido rígido e áspero de seu dolmã, apertando-o com mais firmeza em resposta a mais uma pontada em sua barriga.

— Dê aquele animal pros peixes comerem, — ordenou Zeff a Patty, sem qualquer indício de estar exagerando, quando o alcançaram na porta. Sanji escondeu o rosto no peito de seu cuidador, encolhendo-se mais em seus braços. Não que ele não confiasse no confeiteiro, porque confiava, tanto nele quanto em Carne, os dois funcionários mais leais que haviam encontrado até então, mas Sanji não queria ser visto no momento. Mesmo que seu corpo estivesse quente, só queria que Zeff o aconchegasse em sua cama embaixo de muitos cobertores.

— Pode deixar, chef. E os demais cozinheiros já vol-.

— Não, pode mandar todos pararem. Guarde o que já começaram para terminar amanhã, se eu ver qualquer coisa sendo desperdiçada, haverá sérias consequências.

— Mas e os cli-.

— O Baratie não irá abrir hoje.

— E as reserv-.

— Confio em você e em Carne para cuidarem disso. Agora chega de perguntas que eu tenho que cuidar do garoto. — Com sua palavra final dada, Zeff saiu da despensa em direção aos dormitórios no andar superior e, por todo o caminho, Sanji manteve seus olhos fechados com firmeza, inspirando fundo o cheiro familiar de peixe fresco e loção de barba do chefe e evitando todo e qualquer olhar que poderia lhe ser direcionado. — Tudo bem, berinjelinha, chegamos, — anunciou em um baixo, quase delicado, tom, colocando Sanji com cuidado sobre uma superfície firme que só poderia ser uma cama.

Ao abrir os olhos, Sanji confirmou estar de fato em seu quarto e, com calma, soltou o dolmã de Zeff, deixando-se cair no colchão que poderia ser duro demais para seu gosto, mas nenhum outro lugar poderia ser mais perfeito naquele momento. E, mesmo sem entender ao certo o que queria fazer, ele começou a ajeitar seu lençol e coberta como que para fazer uma espécie de ninho no canto da cama contra a parede.

Zeff soltou um riso abafado pelo nariz que fez Sanji hesitar e olhá-lo confuso por sob a franja ao invés de xingá-lo como normalmente faria. Perceber isso fez Zeff se mexer.

— Posso te ajudar com seu ninho, berinjelinha? Não sou nenhum especialista, mas…

Sanji mordeu o lábio, entendendo que então estava sim montando alguma espécie de ninho por algum motivo, e assentiu seu consentimento.

De fato, Zeff não tinha experiência com aquilo, se ele só ter colocado mais um lençol embolado e algumas peças de roupa de Sanji que achou era alguma indicação, porém o corpo do garoto perdeu toda a tensão acumulada quando aconchegou-se dentro do nicho. Um pequeno sorriso até despontando em seus lábios, com seu coração batendo em contentamento quando Zeff retirou o dolmã que usava e cobriu-o com ele.

O cheiro de Zeff não parecia apenas assentuado para Sanji, como também o acalmava quase tanto quanto uma sopa carregada em legumes faria.

Sanji poderia facilmente só fechar os olhos e dormir ali—estava seguro.

Contudo, Zeff sentou-se na beirada da cama e limpou a garganta da forma que sempre fazia antes de falar algo sério, anunciando que seu sono teria que ficar para depois. Mesmo contra sua vontade, Sanji abriu os olhos e focou-os no chef, mas não mexeu qualquer outro músculo sequer.

— Temos que conversar sobre o que aconteceu, berinjelinha.

— Eu não fiz nada de errado! Ele que… ele-.

— Você não fez coisa alguma, nada do que aconteceu foi sua culpa, apenas… — Zeff suspirou fundo esfregando uma mão no rosto com força, fazendo seu bigode balançar de uma forma que Sanji acharia engraçado se não estivesse com a garganta ameaçando fechar de novo e o lábio inferior de volta entre os dentes. — Você tinha me dito que era um alfa, berinjelinha.

Sanji soltou o lábio e franziu suas sobrancelhas encaracoladas.

— Mas eu sou um alfa!

— Você está no cio, berinjelinha, não em um rut e… de todos os gêneros secundários que existem, o único que passa por cio é o ômega. — Enquanto dizia, Zeff soava estranhamente baixo e relutante, o que deixou Sanji mais apreensivo e confuso do que as próprias palavras.

— Ômega? — A palavra parecia carregar um peso desconhecido em sua língua. — Não, eu sou um alfa!

Zeff suspirou cansado, mas não havia qualquer acusação ou repreensão em seu olhar, e nem em sua voz ao perguntar.

— O que ‘cê sabe sobre os gêneros secundários?

Sanji sentou-se de súbito em uma momentânea empolgação por saber de algo.

— Eu sei tudo sobre eles! Li muitos livros e os homens alfas são os melhores porque eles são mais fortes, com um instinto mais afiado, além de viris e, com o treino certo, podem ser armas mortais durante seus ruts! — O sorriso de Sanji contraiu-se ao notar a expressão de Zeff ficando mais conturbada a cada palavra dita. — O-o que foi?

— O que sabe sobre o cio dos ômegas, berinjelinha?

As sobrancelhas de Sanji franziram junto com seus lábios comprimindo-se em uma linha reta e, mesmo não gostando do que o velho parecia insinuar, esforçou-se a lembrar de tudo o que havia aprendido sobre o assunto, o que não fora muito em comparação ao que aprendera sobre os alfas—incluindo como homens ômegas eram uma falha, mas não tinha porque comentar dessa parte.

— Bem, eu… sei que acontecem a cada 3 meses e é o período mais física e emocionalmente vulnerável do ômega e que pode ou não ser algo, ahn, mais… é… porque é o momento em que o corpo do ômega está mais preparado para engravidar, independente do gênero primário, e por isso eles, hm… eles liberam mais hôrmonios específicos que podem ativar o rut de um parceiro alfa pra ficar mais fácil de, hm, para…

Felizmente, Zeff pareceu ter piedade do garoto que ficava cada vez mais parecido com um tomate do que com uma berinjela só com a ideia do que teria que falar para o homem que considerava um pai.

— Para procriarem, isso. Mas você… — Zeff limpou a garganta, desviando o olhar para um pouco mais ao lado quando suas bochechas também ganharam um tom mais vermelho. — Você sabe quais são os sintomas de um cio?

Sanji engoliu em seco, encolhendo-se ainda mais em seu ninho. O dolmã em seus braços servindo como uma espécie de escudo emocional enquanto pensava em sua resposta, proferindo-a com a voz mais trêmula:

— Eu… não lembro muito, acho que tinha algo sobre dor na barriga e febre e ficar mais sensível a todos os estímulos, principalmente de ferômonios e tinha algo sobre… sobre ser quando eles mais precisam se… sentir seguros em um… em um ninho. — Terminou de falar encolhendo-se ainda mais em seu ninho improvisado, enfiando o rosto no dolmã ao fechar os olhos. Um soluço abafado escapou sua garganta quando inspirou fundo o cheiro fortíssimo de Zeff na roupa.

Sanji também estava muito ciente da onda de ferômonios calmantes que o homem estava jogando nele, quase como se quisesse circunda-lo nessa bolha protetora e isso arrancou-lhe outro soluço.

— Berinjelinha… — Zeff encostou em seu cabelo com surpreendente delicadeza e, antes que se desse conta, Sanji estava pressionando sua cabeça contra a mão, silenciosamente pedindo por carinho. Um forte ronronar começou a emanar do seu peito quando os dedos calejados do ex-pirata começaram a passar por entre os fios loiros e a esfregar o couro cabeludo. — E… quanto a anatomia? Porque já dá pra ter uma ideia de qual é o gênero secundário desde pequeno e se você aprendeu tudo isso…

Sanji apertou os olhos com força e chacoalhou a cabeça, mordendo os lábios para conter outro soluço. Suas unhas poderiam muito bem fazer buracos no dolmã de tanto que o apertavam.

— Eu só apren-aprendi sobre alfas, as outras coisas e-eu li em livros que achei, mas era pra-pra eu aprender só sobre homens alfas porque eu nasci alfa. — Ele apertou o dolmã contra o rosto, quase espremendo os olhos fechados e umedecendo todo o tecido com as lágrimas que nem percebera que caiam. — Eu nasci um alfa e me-meu corpo lá… lá embaixo era de um jei-jeito, mas eles… eles mudaram e eu pen-eu pensei que era normal, eu nã-eu não sabia, eu juro que eu não sabia, Zeff!

— Ei, berinjelinha, calma. — Parecia que o chefe tinha se aproximado mais, colocando sua outra mão no braço do garoto que tremia descontroladamente, o lábio preso entre os dentes e lágrimas incessantes escorrendo enquanto encolhia-se. — Sanji, ‘tá tudo bem, ok? Eu não ‘tô bravo, respira, por favor. ‘Tá tudo bem, ‘tá tudo bem, garoto. — O carinho em sua cabeça e braço tornaram-se mais firmes e tal fricção aumentou seu ronronar e sua vontade por contato físico.

Outro soluço escapou de sua boca quando ele soltou o lábio, erguendo a cabeça para olhar para o homem ao abrir os olhos melados.

— Não… n-não ‘tá bravo?

Zeff soltou um suspiro meio riso fraco, puxando a franja do garoto para trás até ter exposto ambos grandes olhos azuis emoldurados por cílios longos e claros e sobrancelhas estranhas.

— Claro que não! Você não tem culpa e… não tem problema algum ser um ômega, berinjelinha.

— Então, nã-não vai me mandar embora?

Um barulho indignado escapou da boca de Zeff que balançou a cabeça ao esfregar quatro de seus dedos no couro do garoto com mais força. Um delicioso arrepio atravessou todo o corpo de Sanji, que instintivamente fechou os olhos para apreciar o carinho e inclinou-se em busca de mais.

— Não vou, berinjelinha. Mas eu preciso entender isso, o que quis dizer com eles mudaram? Mudaram seu corpo? Quem fez isso?

Os dentes de Sanji voltaram a mordiscar seu lábio e ele queria encolher-se de novo, esconder a cabeça entre os braços e desaparecer para o mundo, mas o cafuné de Zeff impediu-o e o forte ronronar de seu peito—cujo ele não sabia como parar—de fato estava ajudando para amolecer seu corpo e abafar sua ansiedade e nervosismo.

— Eu… eu não posso falar quem, mas… foi onde eu nasci e eu perguntei muito o que eles ‘tavam fazendo, mas nunca… nunca me responderam, só fizeram tudo aquilo.

— Mas o que exatamente fizeram, você lembra?

Sanji apertou os olhos quando um gemido descontente escapou de sua garganta. Até então ele tinha conseguido bloquear Germa de sua mente, permitindo apenas o sorriso doce e abraços amorosos de sua mãe de fazer-lhe companhia quando mais precisava, como naqueles quase três meses definhando lentamente em cima de uma pedra, ou quando tinha um pesadelo ou era atingido pelo súbito medo de estar de volta na masmorra, sozinho.

Preferia acreditar que os meses que passara no extremo cortante das facas e agulhas dos cientistas de Judge tivessem sido imaginação sua, contudo, mais do que nunca, ele tinha a confirmação do oposto.

E, ao contrário do que haviam achado na época, aparentemente, o experimento tinha sido um sucesso.

— Eles… cortaram minha barriga, acho qu-que mexeram em coisas lá dentro e também cortaram lá-lá embaixo e me furaram, colocando muitos lí-líquidos diferentes em mim e-e pílulas também e mexeram nas minhas glândulas. Eu… passei mais de um mês se-sem conseguir ir no banheiro, tiveram que colocar um fio no me-meu, sabe? E, ahn, mais outro mês com muita febre, — contou sem sequer abrir os olhos, não podia encarar Zeff e encontrar desapontamento ou asco em seu semblante, mas como em nenhum momento o carinho parou, falou até o fim.

Zeff soltou um ar trêmulo pela boca.

— E seus pais permitiram isso?

— Não posso falar.

— Pelos mares e todos os seus monstros, berinjelinha! Por que fariam uma coisa dessas com uma criança? — Ao ter apenas um baixo choramingar como resposta, Zeff suspirou. — Certo, não precisa me falar mais nada, mas… Garoto, vou precisar chamar alguém pra dar uma olhada em você.

Os olhos de Sanji abriram arregalados, fitando o homem em terror, sua boca secando e um ligeiro tremor passando por todo seu corpo.

— O que quer diz-

— Calma, berinjelinha, calma. Eu quis dizer um médico, pra ver se ‘tá tudo certo com você aí dentro e também pra… te instruir melhor sobre como ser um ômega porque nem eu, nem Patty ou Carne podemos te ajudar com isso e, bem, eu também preciso saber melhor dessas coisas, certo? Preciso saber como melhor cuidar de você e que merda de pai eu seria se no mínimo não confirmasse de que está tudo bem com o seu corpo? Eu… eu não posso desfazer o que fizeram, mas tenho que garantir de que ‘cê ficará bem agora que apresentou, certo? Tenho que garantir que ‘cê ‘tá saudável e que não ‘tá correndo nenhum risc-… — Foi interrompido por Sanji se atirando em seu colo, agarrando-o pelo pescoço e escondendo o rosto em seu peito enquanto encolhia-se todo para caber ali. Seus ombros chacoalhavam violentamente enquanto ele enxarcava toda a camisa do chef com seu choro, que não pareceu importar-se já que envolveu o corpo pequeno—e que parecia quase frágil no momento—do garoto com seus braços, apertando-o contra si. Uma de suas mãos voltou à cabeça loira, esfregando o couro cabeludo com a mesma firmeza de antes. — ‘Tá tudo bem, berinjelinha, ‘tá tudo bem.

Por longos minutos, Sanji foi permitido chorar tudo o que precisava chorar nos braços do homem que lhe salvara a vida e dera-lhe um teto para morar e que não parecia ter problema algum em chamá-lo de filho. Um ex-capitão pirata alfa que fizera sua fama através da brutalidade de suas pernas e que aparentemente nunca havia tido uma família. Sanji ainda não sabia o que pensar sobre isso, mas, no momento, estava grato por não estar passando por aquilo sozinho, perdido em algum canto no mar.

Ou pior: à mercê da crueldade do homem que o colocara no mundo e modificara todo seu gênero secundário sem sua permissão.

Por que Judge quisera transformá-lo em um ômega, de qualquer forma? Mesmo acreditando que homens ômegas e mulheres alfas não deveriam existir?

Sanji esperava nunca ter a confirmação da resposta.

— Tudo bem se eu chamar um médico pra te ver? Vou exigir que seja um ômega também, — perguntou baixo quase contra o ouvido do garoto assim que o choro parou por completo, restando apenas soluços fracos, sem deixar de acariciar a cabeça.

Sanji assentiu, esfregando o nariz contra o peito de Zeff e os pulsos contra as glandês em seu pescoço, inconsciente de suas próprias ações instintivas ao sussurrar:

— E mulher.

Um curto riso escapou o nariz de Zeff que desceu a mão da cabeça apenas para esfregar com delicadeza seu pulso no pescoço do garoto.

— Como quiser, berinjelinha. Mas agora volte para o seu ninho pra eu poder fazer isso.

Sanji chacoalhou a cabeça, lábio entre dentes.

— Não me deixa sozinho!

— Ei, vai ser só por alguns minutos, só o tempo de eu chamar a médica e mandar Carne fazer uma sopa de legumes pra você…

— Mas eu não quero ficar sozinho assim! — O corpo de Sanji vibrou em um tremor enojado ao ser atingido por flashes da despensa. O peso do corpo daquele alfa sobre o seu, preensando-o contra o chão e paralisando-o ainda mais com a força dos ferômonios que forçava contra ele, uma mão que não era a sua começando a tocá-lo onde não tinha permissão.

Infelizmente, por causa de certas conversas pervertidas que os cozinheiros tinham ao se esqueceram de que tinha uma criança na cozinha com eles, Sanji tinha uma boa ideia do que teria lhe acontecido se Zeff não tivesse chego a tempo e o choro travava em sua garganta só de imaginar.

— Ninguém vai entrar aqui além de mim, eu te prometo isso, ‘tá bem? E se Patty não jogou aquele animal no fundo do oceano ainda, eu mesmo vou fazer isso porque ninguém vai encostar em você, então vou usar ele de exemplo pra deixar bem claro o que acontece se sequer tentarem. Diabos, vou chutar fora os dentes e as bolas de todos que sequer te olharem diferente, entendeu, berinjelinha? — Firmeza e certa rudez tinham retornado ao tom do chef, o que facilitou para o garoto acreditar em suas palavras, assentindo poucos instantes depois apesar de não fazer qualquer menção de soltar-se do homem.

Zeff suspirou, então levantou-se com Sanji em seus braços, vacilando por um segundo em sua perna de pau antes de recuperar o equilíbrio para esticar-se sobre a cama até conseguir colocar o garoto no ninho. Relutante, Sanji largou-se do chefe e encolheu-se contra todas aquelas roupas e lençóis, agarrando novamente o dolmã e tentando cobrir-se pelo menos em parte com ele, sem deixar de abraçá-lo e apertá-lo contra seu nariz.

Zeff voltou a ficar em pé, os braços cruzados enquanto encarava a criança com ternura, então soltou outro suspiro, passando a mão em seu grande bigode trançado.

— Qualquer coisa você usa esses seus pulmões fortes e saudáveis para berrar com tudo o que ‘cê tem, ok? Vou deixar a porta trancada e a chave comigo, mas saiba que virei correndo se berrar, independente do motivo, entendido?

Sanji encarava-o por sob os cílios e o dolmã cobrindo quase todo o seu rosto e assentiu antes de fechar os olhos para não ver Zeff saindo. E, quando ouviu a porta sendo trancada, apertou os olhos e torceu para que sua saída fosse de fato rápida.

Ele não queria depender de Zeff assim, normalmente não dependia, estava até treinando para lutar e defender-se sozinho e tinha acostumado-se a não ter ninguém por perto para abraçá-lo e confortá-lo desde que sua mãe morrera e, depois de passar sete meses em uma masmorra e quase três em uma pedra no meio do nada, ele já deveria estar acostumado a ficar sozinho. E estava.

Exceto quando estava no cio, aparentemente, com seu corpo febril e sensível e sua barriga doendo e aquela necessidade de ser apertado por todos os lados, como se sua pele estivesse desgrudando, deixando-o exposto e vulnerável e a pressão de outro corpo —ou das roupas em seu ninho— era a única coisa capaz de deixá-lo inteiro.

Tudo era uma sensação estranha, deixando-o inquieto como se todos os seus nervos estivessem sendo esticados até ficarem no precipício de estourarem. Pensar demais no fato de que, na verdade, ele era um ômega, que havia sido transformado em um sem perguntarem se queria, sem nem mesmo contarem para ele, bastaria para causar tal estouro, então Sanji estava evitando pensar. Evitava pensar sobre qualquer coisa a não ser sua torcida para que Zeff voltasse logo e a contagem de sua respiração, porque precisava mantê-la calma, controlada.

Inspirava fundo pelo nariz, expirava longo pela boca, inspirava pelo nariz, expirava pela boca, inspirava, expirava.

Só percebeu que caira no sono quando ouviu o barulho da porta sendo aberta, forçando seus olhos a abrirem o necessário para confirmar que era de fato Zeff entrando. E sim, era ele, com um prato fundo cheio até o topo de sopa de legumes, uma sopa que convenceu um Sanji sonolento a tomar até a última gota antes de ajudá-lo a se ajeitar novamente no ninho.

— Pode voltar a dormir, berinjelinha, estarei aqui. Te acordo quando a médica chegar.

Sanji assentiu minimamente antes do confortável sono tomá-lo por inteiro.

 

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— Certo, Sanji, querido, agora vou precisar te examinar, tudo bem? — A doutora Marlene era uma ômega que claramente já passava da casa dos sessenta anos, um tanto robusta com sua pele branca, cabelos curtíssimos e acizentados, olhos castanhos observadores e gentis e uma língua esperta que não deixara o garoto omitir informação alguma referente ao que estava sentindo, ao que lhe acontecera há algumas horas—por sorte, parecia que ela não estava interessada em relatar às autoridades que Zeff havia de fato jogado o corpo de um homem ao mar, não parecia ter sequer abalado-se com a notícia implícita—e ao que lhe acontecera há cinco anos.

Saber que alguém—esses detalhes Sanji recusara-se com todas as forças a revelar—havia mexido e violado o corpo do garoto para modificar seu gênero secundário, isso sim havia trazido claro choque e ceticismo à mulher, afinal aquilo não deveria ser possível, e por que alguém sequer tentaria?

Sanji ainda estava deitado no ninho em sua cama e, apesar de não ter medo da mulher—muito pelo contrário já que ela entrara no ambiente lançando ferômonios calmantes típicos de ômega que funcionaram como uma luva e não parara desde então—, não se sentia muito confortável em expôr-se daquela forma, ainda mais na situação que estava, então olhou para Zeff em busca de algum conforto ou direcionamento ao invés de responder à médica.

— Você vai se sentir mais à vontade se seu pai sair?

Sanji chacoalhou a cabeça veementemente, apertando a mão de Zeff que tinha pego em instinto desde que começera a receber todas aquelas perguntas e não sabia quando conseguiria largar.

— Deixa ela ver, berinjelinha. É importante, lembra? Precisamos ter certeza de que está tudo bem com seu corpo.

— E não tem nada com que se preocupar ou se envergonhar, pequeno, estou acostumada a ver ômegas sem roupa e cuidar deles. Tem minha palavra de que não vou te machucar e, depois disso, vou te dar um cházinho especial que vai fazer maravilhas pra amenizar a dor e a febre, o que acha? — A voz da médica parecia quase tão doce e tranquilizante quanto os feromônios que exalava, seus olhos pequenos tão gentis ao encararem Sanji como se ele fosse algo precioso a ser cuidado. E, bem, Sanji já estava aprendendo o quanto não podia falar não a uma mulher.

Mordendo o lábio, ele assentiu uma vez e desceu a mão que não segurava a de Zeff para sua calça, encaixando o dedão na barra para começar a puxar para baixo e imediatamente sendo lembrado do cinto preso.

— Eu posso fazer isso por você, o que acha? Ou então seu pai…

— Você… você pode, — murmurou, a voz por pouco não saindo e os olhos fixos em um canto aleatório da cama.

— Tudo bem, Sanji, obrigada por confiar em mim. — Dava para ouvir a sinceridade e o sorriso em sua voz, o que fez o garoto assentir e aliviar um pouco o aperto dos dentes em seu lábio. — Só mais uma coisa. Vou precisar te puxar mais aqui para a beirada para ver melhor, tudo bem? — Apertando com mais firmeza a mão de Zeff, Sanji assentiu de novo, seus olhos umedecidos timidamente voltando-se para a médica que de fato sorria genuína para ele. — Muito bem, obrigada, querido. Qualquer coisa que sentir, qualquer coisa mesmo, até se só quiser que eu pare, pode falar, combinado?

Sanji só assentiu de novo e a doutora Marlene começou a puxá-lo com delicadeza, trazendo-o mais para perto junto com seu ninho e, para o alívio do garoto, Zeff não deixou que a distância tirasse sua mão da dele, então continuou a apertá-la. Apesar de confiar em ambos os adultos presentes, Sanji não conseguiu evitar de estremecer quando ela soltou seu cinto, os flashes invadindo sua mente o fazendo fechar os olhos com força enquanto seus dentes voltavam a mastigar seu lábio inferior.

— Agora vou descer e tirar sua calça e cueca. — Era um aviso e uma chance de Sanji mudar de ideia, mas ele apenas assentiu enquanto seu coração acelerado levava um forte rubor ao seu pescoço e rosto.

Um rubor que só esquentou quando percebeu que a calça estava um tanto grudada em suas pernas, a cueca, de alguma forma, presa entre suas nádegas. Doutora Marlene foi muito delicada e paciente em tirar ambos os tecidos, mas Sanji queria poder colocar todo seu cabelo no rosto ou, até mesmo, chutar os próprios dentes por ter se esquecido de que, aparentemente, tinha sido covarde o suficiente para urinar em sua própria calça lá na despensa sem nem perceber.

Nu da cintura para baixo, Sanji permaneceu com os olhos fechados, sua palma suando e nós dos dedos reclamando por quão forte apertava a de Zeff, mas deixou que a médica abrisse suas pernas o máximo que lhe era confortável.

— Meu Deus… — O suspiro espantado quase o fez fechar as pernas, mas conteve-se, seu foco desviando-se para o gosto metálico que começara a invadir sua boca.

— O que foi? — Zeff parecia aflito, apertando de volta a mão do garoto sem sequer notar.

Se o que estava de errado com Sanji fosse muito insuportável, ele podia dar para trás em sua promessa e mandá-lo embora para não ter que lidar com mais esse problema…

— Bem, é que… Na verdade, ainda não sei com certeza, teremos que fazer uns exames mais profundos, incluindo internos para verificar a questão do útero e ovários, mas se ele de fato nasceu um alfa, o procedimento que fizeram para torná-lo um ômega… — Doutora Marlene inspirou fundo, parecendo espantada e admirada ao mesmo tempo, buscando as palavras. — Olhando assim, sem muita inspeção, está perfeito, só o pênis já está obviamente maior do que de um ômega de fato, mas nenhum sinal do saco escrotal e a lábia parece ótima apesar de pequena, só que ele está com muito muco cervical, a calça e a cueca estavam grudentas com isso e, claro, é normal um ômega, independente do gênero primário, ter muito mais secreção durante o cio do que uma mulher, beta ou alfa, durante a ovulação, mas… — Sanji travou a respiração quando as mãos gélidas cobertas com uma luva de plástico começaram a mexer em suas partes íntimas, ainda com muito cuidado e atenção, o que só parecia aumentar o calor pelo seu corpo, causando tremores que pareciam iniciar em sua barriga. Mas foi quando algo escorreu de seu bumbum que ele congelou tanto quanto sentiu a médica congelar. — A secreção… não está vindo só…? Como isso é possível?

— O quê? O que é possível? — Sanji agradecia a preocupação de Zeff, mas ele não queria que ele ficasse sabendo daquele detalhe. Ele mesmo não entendia ao certo o que era, seu coração apertava só de imaginar o acernal de hipóteses, mas se o tom de voz de Marlene indicava algo, era que, o que quer que fosse, estava errado.

Era uma falha.

— Preciso examinar ele por dentro urgentemente, senhor Perna Vermelha.

E examinar ele por dentro ela fez.

 

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O chá amarelado fez Sanji torcer o nariz em hesitação por assemelhar-se demais a urina, mas, porque nunca desperdiçaria alimento algum, tomou sem reclamar, ignorando o gosto um tanto quanto amargo demais para seu paladar e em menos de dez minutos estava feliz por tê-lo o feito. O calor dissipou-se a ponto de parar com o suor, deixando seu corpo apenas sutilmente febril, amenizando também os tremores e o desconforto em seu ventre.

Sua cabeça ainda latejava a ponto de ser difícil manter os olhos abertos por muito tempo, mas isso também tinha a ver com todo o estresse e o choro. Pelo menos todo aquele líquido tinha parado de escorrer do meio de suas pernas, algo que só ocorreu minutos após a médica parar de expôr e mexer em sua intimidade—e por isso que o cio podia ou não ser sexual, dependia dos estímulos que recebesse.

Então é claro que Zeff anotou com cautela a receita do chá para fazer sempre que aquele bendito cio acontecesse de novo, o que, de acordo com a doutora Marlene, deveria ser de aproximadamente três em três meses.

Após horas de exame, de ser virado como um frango no espeto, ter aparelhos gelados contra sua barriga e cotonetes e outras coisas enfiadas onde não queria nem pensar, Marlene passou mais algumas horas explicando para os dois os resultados de tudo aquilo, parecendo abalada e um tanto quanto enfurecida durante todo o processo, e, cada palavra que dizia, só deixava Zeff mais abalado e enfurecido, mas no fim, tudo o que importava, era que Sanji ficaria bem. Além disso, por pelo menos um ano ela prometeu ir visitá-lo em todos os seus cios para acompanhar de perto, o que deixou ambos o cozinheiro e seu aprendiz aliviados.

Agora, sozinho em seu ninho com sua quarta xícara de chá em mãos—Zeff tinha ido discutir com seus subordinados sobre como seria o funcionamento do restaurante no dia seguinte—, Sanji só conseguia pensar em tudo o que acontecera naquele dia.

Ele não era mais um alfa como achava, como tinha nascido, mas, por algum milagre da ciência doentia de Germa, era um ômega em todos os aspectos que importava. Teria medidas maiores do que um ômega macho mediano, mas no mundo vasto e diverso que viviam, aquilo não era anormal, então nada com que se preocupar ali.

Assim como não tinha nada com que se preocupar com seus hormônios e sistema reprodutor já que, aparentemente, seu corpo parecia ter se adaptado as mudaças sofridas e adequado-se perfeitamente ao seu novo gênero secundário.

Seu ronronar estava mais forte que de um beta, seu cheiro natural mais suave e muito mais marcante, tendo sempre aquela pitada mais adocicada marcando-o como um ômega para quem tivesse nariz. E, ao que tudo indicava, seus feromônios seguiam a mesma linha, sendo agora capaz de acalmar qualquer criança ou até mesmo adulto em aflição, ficar ainda mais sintonizado com as emoções alheias e as próprias e, é claro, também estava mais sensível a feromônios de alfas, assim como alfas estavam dos seus.

Ao que tudo indicava, ele tinha útero e ovários que pareciam ser saudáveis, mas não tinha como ter certeza se eram funcionais a ponto de serem capaz de gestar um bebê, e seu saco escrotal não tinha sido arrancado, mas bem guardado por dentro, assim como era em um ômega macho nascido, então pelo menos ainda devia capaz de engravidar outros. Sanji nem se deixou pensar nas últimas palavras de Judge, declarando o quanto ele era infértil, mesmo com o dobro de órgãos reprodutores.

De fato, as únicas coisas que denunciavam que Sanji ser um ômega não era natural, além das finas e claras cicatrizes que doutora Marlene encontrou ao inspecionar tudo mais de perto, era o fato de que os cientistas haviam cometido um erro na hora de criar seu canal vaginal—ou tinham feito de propósito, Sanji não duvidava disso—já que, de acordo com as imagens coletadas, ele não apenas se conectava do útero à vagina, como também do útero ao reto, o que explicava porque lubrificante natural também estava saindo por seu ânus, o que não deveria acontecer.

De acordo com a doutora, aquilo significava que, se ele fosse fértil, talvez pudesse engravidar por trás também, mas as chances seriam menores e Sanji não pensaria sobre isso, nem tinha o porquê, então não o faria.

Na verdade, ele não queria pensar em mais nada e também desejava que nada daquilo estivesse acontecendo.

Por que Judge tinha feito aquilo? Para puni-lo? Para ele ser uma aberração além de uma falha?

Sanji tinha sorte de Zeff não ter o rejeitado e da doutora Marlene ser tão compreensiva, mas sabia que nem sempre seria assim.

Que bom que ele já estava especializando-se em esconder fatos sobre si em baús trancados a sete chaves atrás de muros em construção.

— Está com fome, berinjelinha? — Sanji sobressaltou-se com a presença do homem no quarto, tão preso em seus próprios pensamentos que nem o ouviu ou sentiu chegar.

Zeff parecia tão esgotado quanto ele se sentia.

— Não, obrigado, — murmurou, entregando a xícara vazia para o chefe que a colocou na pequena escrivaninha apertada contra o armário e a parede.

— Tem certeza?

Sanji assentiu, sentindo os machucados em seu lábio com a língua.

— Só ‘tô cansado.

— Então por que ainda não foi dormir?

Sanji encolheu os ombros, abraçando os joelhos enquanto seu cabelo cobria mais do seu rosto do que apenas um de seus olhos.

Zeff suspirou e a cama quase afundou para o lado quando ele sentou na beirada, esticando as pernas e cruzando os braços.

— Não vou te abraçar, nem nada disso, garoto, mas também não vou sair daqui, ok? Então vai dormir, anda. Quero que esse dia acabe logo.

Por não conseguir conter um fraco soluço de escapar, Sanji não olhou para o homem, apenas assentiu e deitou apressado em seu ninho, embolando-se em um lençol velho e no dolmã de Zeff, quase sorrindo quando o conforto e o cheiro acalmou o último de seus nervos.

Quando Zeff por fim apagou a luz segundos depois, Sanji já estava sendo arrastado para um sono profundo e sem sonhos que duraria quatorze horas ininterruptas.

 

⋆˚꩜。𓏲ּ𝄢°‧ 𓆝 𓆟 𓆞 ·。

 

Como prometido, nenhum cozinheiro no Baratie jamais tentou qualquer gracinha com Sanji outra vez, todos os novos contratados recebiam uma longa e horrendamente descritiva ameaça de Zeff, então até evitavam o garoto no geral. E durante os cios, Sanji ficava trancado em seu quarto, protegido em seu ninho, e os únicos permitidos a entrar eram Zeff e a doutora Marlene, que de fato cumpriu sua promessa ao paticipar de todos os cios do garoto por um ano e meio, até ter certeza de que não havia mais nada além do comum e de que a saúde dele não estava em risco.

Zeff fez companhia para Sanji em todos os seus cios até dois meses antes dele completar dezesseis e nunca falavam sobre isso. Na verdade, ninguém no Baratie podia falar sobre isso.

Patty só aprendeu a lição depois que os chutes de Zeff finalmente o custaram uma dúzia de dentes.

No mais, Sanji continuou trabalhando na cozinha e treinando com Zeff normalmente e logo era capaz de chutar sozinho para fora do navio qualquer cliente alfa que tentasse alguma gracinha.

Mais fácil do que pensara que seria, Sanji voltou a bloquear Germa por inteiro de sua mente, pensando apenas em sua mãe quando a saudade batia ou quando aprendia um novo prato, e seguiu sua vida confortável no Baratie como deveria ser.

Ele ainda sonhava com o All Blue—não tinha como não pensar em um mar tão mágico—mas cada dia que passava, ficava mais fácil aceitar de que para sempre ele seria apenas isso: um sonho.

O All Blue era seu sonho, mas sua dívida com Zeff era infinita então o mar que unia todos os mares ficaria para outra pessoa encontrar.

Notes:

me digam o que vocês acharam nos comentários! não só isso me deixa feliz como realmente me motiva a continuar escrevendo essas fics pra compartilhar com vocês e, nesse caso, eu vou saber se realmente devo continuar escrevendo essa fic do ponto de vista do sanji!

então, devo continuar escrevendo isso?

de qualquer forma, as atualizações aqui vão ser LENTAS porque ainda não tem mais capítulos prontos, eu estou focando em terminar NHNEN primeiro e depois vou dar mais atenção pra Tudo Que Não Mereço e provavelmente vou atualizar sempre que um capítulo ficar pronto, ok?

essa também não é a única ideia/projeto de "spin-off" de NHNEN que eu tenho, também tem uma lulaw do ponto de vista do luffy, aquela one-shot luzolawsan e provavelmente talvez algumas one-shots com momentos futuros com a kora e tudo mais? se vocês quiserem ver algo assim já me avisem também! ou se algum desses que eu mencionei interessa vocês...

mas ok, é isso! eu já falei demais! muito OBRIGADA por lerem, por qualquer kudos, comentários, favoritos, inscrições, qualquer coisa que vocês achem que essa fic merece e vejo todos vocês no cap 17 de NHNEN (15, na verdade) e aqui eu vejo vocês quando eu ver vocês!

se cuidem 🩷

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