Chapter Text
O som distorcido do baixo ecoava para fora dos meus fones de ouvidos pela manhã, pendurados em meu pescoço como se fosse uma espécie de colar, estava vazando o áudio instrumental que eu mesmo havia composto na noite passada, era mais uma daquelas noites em que o sono decidiu não me alcançar e fez meu cérebro trabalhar dobrado em compensação. Era um mix com teclado e guitarra, uma batida pesada e meio punk, combinava comigo.
Meu cabelo verde naturalmente rebelde e espetado pela manhã, na parte de baixo uma calça jeans preta que já estava se desbotando e rasgando pela frequência obsessiva em que uso ela frequentemente, estava usando dois cintos sobrepostos para dar um constraste bacana em minha cintura, sendo um deles um branco e outro de "balas" que eu mesmo customizei, a minha blusa era a de sempre, preta com a estampa de um esqueleto torácico que eu mesmo pintei a mão depois de ver uma referência no pinterest e achar estilosa pra caralho, além do arsenal de pulseiras de borracha e couro em meu pulso direito que já estava mais para uma segunda pele. No esquerdo, a luva sem dedos que ficava em meu pulso, além de que agora comprei piercings novos para usar nas orelhas, em meus snakes bites e em meu furo na sombrancelha, todos espetados claro.
Meus coturnos batiam no piso frio do corredor quase vazio dando uma significância demais para o barulho deles. Acho irônico que o número do meu armário seja 505. Sempre me lembra aquela música dos Arctic Monkeys, im going back to 505... Se o meu pai estivesse por aqui, talvez ele gostasse disso. Eu nunca cheguei a conhecê-lo. É só eu e a mamãe em casa. Ela diz que eu tenho os olhos dele mesmo eu sendo a xerox exata dela, mas isso é tudo que eu tenho além do colar de cruz de prata com meu nome e data de nascimento cravados nele, o usava junto com minha gargantilha, foi o único presente que meu pai havia me dado. O resto veio de mim mesmo: a vontade de desenhar, de compor, de criar algo que fosse só meu em um mundo que insiste em me dizer como devo ser.
Meu pai tinha uma banda quando mais novo, foi assim que conheceu minha mãe, ela era uma fã muito empolgada na plateia e ele era um cara muito gentil pra ignorar. Tem algumas fotos minha quando era bebê sentado no colo dele enquanto ele tocava bateria com um sorriso de orelha a orelha, penso se ele ficaria feliz do filho ter seguido seus passos, minha mãe concerteza fica, ela nunca reclama se eu estou tocando alto demais ou cantarolando um ritmo com palavras esquisitas, talvez eu realmente tenha herdado isso dele, afinal ele me deixou um monte de instrumentos que eu aprendi a tocar um por vez, mas infelizmente é assim que me lembro dele, apenas por fotos e lembranças da minha mãe sobre.
Estava com a minha bolsa carteira cheia de bottons e customizações passada pelo meu ombro, suspirei apertando minha alça com um pouco mais de força me lembrando de um passado já distante mas com carinho, alcancei meu armário e girei a combinação da minha senha. Abri a porta de metal rangente e encarei a bagunça organizada de dentro. Cadernos rabiscados com letras e cifras de músicas, esboços de capas de álbuns, livros didáticos quase intocados e posters da minha banda preferida, é claro, uma palheta, eu sempre deixo uma palheta em qualquer lugar para que nunca me falte, um péssimo hábito talvez, mas nunca se sabe quando vou precisar tocar algum instrumento de corda. Precisava ver qual era a próxima aula de hoje, empurrei com a mão procurando o papel impresso das aulas em que haviam me entregado e, achei. Química. Ótimo. Mais uma hora para desenhar nas margens do caderno.
Escutei um clique suave do armário ao meu lado, o 506. Não precisei olhar para saber quem era, já que éramos vizinhos de armário a um longo tempo desde entrei no ensino médio, aquele som sempre vinha acompanhado de um perfume caro e de uma presença que mudava a pressão do ar.
—Till. - a voz era suave, um contraste gritante com o caos da minha música que me fez sutilmente abaixar o próprio volume do som para o escutar melhor. — Chegou cedo hoje.
Fechei meu armário com um pouco mais de força que o necessário e virei minha cabeça para o observar.
Ivan.
Dois ano mais velho. Segundo ano. Líder do Anakt, o time de beisebol da escola os caras que andam em bandos pelos corredores como se donos do lugar. O Garoto de Ouro.
Seus olhos eram profundamente escuros, não castanhos, mas completamente pretos dois poços sem fundo que quase nunca refletiam luz, nunca combinavam com a simpatia barata que sua boca vendia. Quando ele sorria para as pessoas, seus olhos permaneciam parados, calculistas, observando… sempre observando. Era como olhar para um boneco perfeitamente lindo e assustadoramente vazio.
E os caninos. Quando ele sorria de certo jeito, principalmente quando achava algo genuinamente engraçado (o que geralmente era à minha custa), seus caninos ficavam um pouco mais aparentes. Mais pontiagudos. Era a única falha naquela fachada impecável, um detalhe que só alguém que o observava de verdade (ou que era obrigado a encará-lo diariamente)
Seu cabelo era preto e liso e sua franja caia levemente acima dos olhos mas não o bastante para ofuscar a sua visão, e quase sempre estava perfeitamente alinhado algo completamente diferente do meu, e a sua camisa. Ele quase sempre estava com a jaqueta do time ou a camiseta oficial da Anarkt, vestido um moletom por baixo e camisa por cima. Um vermelho vivo ou em sua outra versão, azul marinho, ambas tinham uma listras branca, e a estampado no peito, a letra I de Ivan. Era sempre limpa, sempre perfeita, como se ele nunca suasse, nunca se sujasse, nunca se esforçasse de verdade. Só aparecia e conquistava.
—Só pegando minhas coisas - retruquei meio baixo enfiando minhas mãos no bolso. Minha música ainda vazava dos fones mas bem menos do que antes.
Ele abriu o armário dele, impecavelmente organizado, tudo no lugar certo, como sempre. — Química agora, né? Não vai dormir de novo. A professora Kim quase te matou na última vez. - Respondeu com um sorriso sarcástico, era irritante o fato dele saber meus horários enquanto eu mesmo ainda tinha que me certificar para checar se era isso mesmo.
Eu encolhi os ombros, evitando seu olhar. Ivan não era só bonito e popular. Ele também era o melhor amigo da Mizi, a garota em que eu tenho uma quedinha a anos. Conhecia o som da risada dela, os segredos que ela contava. Coisas que eu só observava de longe, com um nó no estômago, mas houve um tempo em que isso era diferente. Um tempo em que éramos grudados, eu, ele, Mizi e Sua.
Ainda me lembro quando brincávamos todos de esconde esconde e acabávamos nós escondendo no mesmo lugar, a gente se esforçava ao máximo para não cair na risada e acabar entregando nosso esconderijo, pelo menos isso era o que ela tentava. Eu ficava igual um pimentão completamente imóvel e envergonhado com a aproximação tentando ao máximo não surtar, naquela época a Mizi ainda utilizava seus óculos de grau que sinceramente só a deixava mais bonita, mas hoje em dia acho que ela apenas opta usar lentes para não "estragar" a sua aparênci
Ivan sempre foi um encrenqueiro quando o assunto se tratava de mim, enquanto ele cuidava das meninas e água sempre como um irmão mais velho quando alguma se machuca ele vivia me provocando, puxando meu cabelo, chamando minha atenção de qualquer jeito idiota que conseguia pensar, e nisso que nessa época eu era até mais alto do que ele, algo impensável nos dias de hoje, a gente brigava bem feio certas vezes de rolar no chão e se estapear de verdade e mesmo assim ele era mais forte do que eu, E, por mais que eu reclamasse... de alguma forma, eu sinto falta daquilo. Era mais simples.
Tudo começou a desmoronar com o acidente.
O carro que meu pai dirigia. O carro em que eu estava com ele, estava chovendo no dia e ele estava com o rádio ligado cantando tentando me acalmar, a gente tinha só ido ao parque para que eu pudesse brincar, mas uma tempestade estragou tudo tendo que acabar com os planos de um sábado de tarde. O asfalto molhado, os faróis cegos do caminhão vindo na contramão, o som de metal rasgando metal que ecoou até dentro dos meus ossos. E então... o silêncio. Um silêncio diferente de tudo. O tipo de silêncio que vem depois de um ruído que é grande demais para o mundo suportar. A morte dele foi instantânea, disseram. Para mim, não foi. Para mim foi lenta. Foi cada segundo daquela noite se repetindo em loop nos meus pesadelos, foi o cheiro de gasolina e sangue que não saía das minhas narinas por semanas.
E veio o silêncio de verdade. O físico. Um zumbido agudo e permanente tomando o lugar do meu ouvido direito, como se uma parte do acidente tivesse ficado presa dentro da minha cabeça.
Minha mãe mergulhou em uma depressão daquelas que apagam a luz de uma casa. Ela mal conseguia sair da cama, muito menos manter amizades. O mundo dela desmoronou naquele asfalto também, e ela ficou soterrada sob os escombros. As visitas pararam. As ligações, também. O grupo de amigas se desfez, porque ninguém sabe o que dizer para uma viúva e um filho que perdeu o pai.
A mãe da Sua... bem, ela se foi pouco tempo depois. Por conta do cérebro, disseram. A tristeza foi grande demais para ela também. Foi o golpe final. O último prego no caixão daquela vida que a gente tinha.
O quartetinho infantil que a gente era foi soterrado junto com tudo o mais. O Ivan parou de puxar meu cabelo. A Mizi parou de me chamar para jogar. A Sua se trancou no mundo dela. E eu fiquei para trás, com um ouvido que não escuta mais, por isso eu não tenho muita noção de quão alto estou ouvindo do lado direito.
E agora, quando Ivan não está mais por perto, os outros babacas do time dele acham divertido dar um encontrão no meu ombro no corredor, me chamar de "magricelo" ou "esquisito perturbado". Coisas de quem tem o cérebro do tamanho de uma ervilha. Mas doem. E a ausência dele nesses momentos é como uma permissão silenciosa.
Ivan fechou seu armário e se apoiou nele, olhando para mim com aquele olhar analítico que sempre me fez sentir como um inseto preso em alfinetes.
—Que música é essa? - o mais alto perguntou, a cabeça inclinada na direção dos meus fones.
—Nada. Só um instrumental.
—Seu? - os cantos de sua boca se curvaram para cima dando a entender um pequeno sorriso. — Parece... barulhento. - completou.
—É a ideia - retruquei revirando os olhos, falei mais defensivo do que deveria.
Ele riu, um som baixo e genuíno que parecia escapar sem permissão. — Relaxa, Till. Eu gosto do barulho que você faz.
Antes que eu pudesse processar o que aquilo significava se era outra provocação ou algo mais, o sinal para o início das aulas tocou me salvando. Ivan se empurrou do próprio armário, mas antes que pudesse dar um passo, uma voz suave ilumjnou o corredor como um raio de sol.
—Bom dia, Ivan! - a voz era melódica, doce, e fez cada fio de cabelo no meu braço se arrepiar.
Era ela. Mizi.
Meu corpo travou instantaneamente. Eu me virei de volta para o meu armário, fingindo uma busca desesperada por algo que eu definitivamente não precisava, minhas mãos trêmulas revirando pilhas de papéis aleatórios. Meu coração batia mais rápido do que um contador poderia contar contra as minhas costelas como se fosse saltar para fora.
Por cima do ombro, eu a vi. Meu Deus, ela era a coisa mais linda que já existiu na história desse colégio podre. Seu cabelo rosa com as pontas em um azul vibrante estava preso em um rabo de cavalo alto que balançava quando ela andava. Ela usava uma blusa de manga longa rosa choque com um decote em V que revelava... bem, revelava um pouco do sutiã listrado de cor clara por baixo. Ela utilizava óculos escuros rosas que estavam empurrados para a testa, segurando o cabelo dela para trás e shorts jeans azul desbotado e justo era preso por um cinto largo com fivela chamativa.
—Tudo bem? - ela perguntou para o Ivan, ajustando a alça da bolsa no ombro. — Você lembrou de trazer aquele livro que te pedi?
—Claro que lembrei, Mimi. Tá aqui na minha mochila - a voz do Ivan era suave, quase um purê quando falava com ela. Um tratamento que ele não dava a mais ninguém. — Te entrego na hora do almoço, tudo bem?
—Perfeito! Obrigada, você vai me salvar, eu preciso desse livro pra aula de história e não conseguia achar em lugar nenhum! - ela disse, e eu pude ouvir o sorriso na voz dela. Cada palavra era uma facada doce no meu peito.
Eu me afundei ainda mais no meu armário, meu rosto queimando como se estivesse sob um sol de quarenta graus. Eu provavelmente estava vermelho como um pimentão. Por que eu tinha que ser tão... isso perto dela? Um desastre ambulante de nervosismo e couro preto.
Ouvi os passos leves dela se afastando. Não aguentei. Me virei rapidamente, só para capturar a visão dela sumindo na curva do corredor, o rabo de cavalo balançando com uma energia que eu invejava.
Quando me virei de volta, meus olhos colidiram com os de Ivan que estava me encarando com um olhar meio irritado. Ele não tinha se mexido. Estava parado, encostado no armário dele, com um sorriso pequeno e indecifrável nos lábios. Seus olhos escuros me perfuravam, parecendo ver cada pensamento constrangedor que tinha passado pela minha cabeça.
—Esqueceu alguma coisa, Till? - ele perguntou, a voz carregada de uma diversão silenciosa. — Ou só tá verificando se o corredor tá livre de... distrações?
Eu fechei a porta do meu armário com um baque seco, o barulho ecoando no corredor que agora estava quase vazio pelos alunos estarem todos indo para as suas respectivas aulas.
—Cala a boca, Ivan - resmunguei agarrando meu livro didático com tanta força que meus dedos ficaram brancos.
Ele riu de novo, aquele som baixo e genuíno, e começou a andar na direção oposta à que a Mizi tinha ido já que ele era do terceiro e ela do primeiro.
—Vamos, encrenqueiro. Vai se atrasar. - O mais velho disse enfiando suas mãos no bolso, ele não olhou para trás.
Eu fiquei parado por um segundo, a imagem da Mizi e o sorriso provocador do Ivan queimando na minha retina. Com um suspio profundo, enfiei os fones no ouvido, liguei o som no máximo e enfiei as mãos nos bolsos, seguindo para a sala de aula. Era um dia longo.
Química. A única coisa pior seria ter que fazer isso com um parceiro. Especificamente, aquele parceiro.
Entrei na sala cheia de mesas altas com pias e queimadores de bico de bunsen. O cheiro ácido de produtos químicos já impregnava o ar. Eu tinha faltado às duas primeiras aulas práticas no começo do semestre, um atestado médico depois de uma febre idiota que minha mãe insistiu que era grave e fui colocado no grupo de reposição. O único outro aluno que precisava repor essas aulas era Luka.
Luka. Dois anos mais velho que eu, do terceiro ano. Todo mundo sabia quem ele era. Ele tinha ficado afastado da escola por um tempão por problemas no cardíacos e respiratórios, mas isso não impediu que ele voltasse e se tornasse... bem, Luka. O queridinho dos professores, o príncipe que todas as garotas suspiravam. E, o pior de tudo, genuinamente inteligente. Não era justo.
Ele já estava lá, de pé diante de uma das bancadas, lendo tranquilamente o manual do experimento vestido em seu jaleco branco com seu nome amarelo bordado acima do bolso. Meus passos pareceram absurdamente altos no silêncio quase clínico da sala.
Ele levantou os olhos quando me aproximei. Seus cílios eram tão claros, quase brancos, que combinavam com seus olhos dourados claros. Ele usava seu óculos de grau com armação transparente, que pareciam mais um acessório de moda do que uma necessidade médica, e uma blusa verde quadriculada bem passada sobre uma camisa social por baixo do jaleco Parecia saído de um catálogo de uma escola preparatória britânica, não de um laboratório de química de repescagem.
—Till - disse ele, com uma voz suave e plana, sem calor nem hostilidade. Era apenas um fato. Eu tinha chegado. — Pensei que você ia faltar de novo.
—Tive que vir. Se não vou acabar repetindo de ano. - respondi, deixando minha mochila cair no chão com um baque que fez o frasco de reagente na bancada tremer e vesti o meu jaleco rapidamente, mas que obviamente estava meio amassado por estar meio jogado.
—Seria uma pena - ele comentou, voltando ao manual com um movimento que deveria ser fluido, mas que carregava um cansaço estranho. — A professora deixou as instruções. Precisamos titular esta solução com ácido até atingir o ponto de viragem. Você mexe enquanto eu adiciono o indicador?
Minha mão já se estendia para pegar o bastão de vidro quando meu olhar foi puxado para os dedos dele. Enquanto ele ajustava a bureta com uma precisão quase irritante, notei algo que me fez parar por uma fração de segundo. As pontas dos seus dedos, principalmente os mindinhos e os anelares, tinham um tom arroxeado baço, um contraste doentio contra a palidez quase translúcida do resto de sua mão.
Não era sujeira. Era algo... interno. Uma marca silenciosa daqueles dois anos que ele ficou sumido, daqueles problemas cardíacos que todo mundo sussurrava, mas que ninguém nunca comentava de verdade. Eu desviei o olhar rapidamente, era melhor fingir que não tinha visto nada. Com o Luka, era sempre mais seguro não notar muito.
Ele falava com uma eficiência fria. Não era uma pergunta, era uma instrução. Não éramos amigos, nem inimigos. Éramos duas peças quebradas de quebra cabeças diferentes, forçadas a se encaixar por duas horas porque o sistema decidiu assim. O único motivo de ele estar aqui era que, apesar de todo seu intelecto e popularidade, ele tinha perdido mais aulas do que eu por causa daqueles problemas cardíacos. Às vezes eu me perguntava se aquilo tinha deixado marcas nele por dentro, já que por fora ele era perfeito.
—Tanto faz - murmurei, pegando o bastão de vidro. Meus braceletes de couro preto pareciam absurdamente fora do lugar contra o vidro limpo e brilhante do equipamento.
Trabalhamos em silêncio por alguns minutos, o único som era o tilintar do vidro e a torneira pingando em outra pia. Eu mexia a solução rosa pálida com movimentos circulares monótonos, enquanto Luka, com uma precisão cirúrgica, adicionava o ácido gota a gota de uma bureta. Sua concentração era assustadora. Ele nem parecia respirar.
Foi então que a porta do laboratório se abriu com um estrondo, quebrando a quietude. Hyuna, a presidente do conselho estudantil, apareceu na moldura da porta, ofegante. Seus cabelos castanhos e compridos estavam presos em um coque com uma presilha de flor amarela enquanto algumas mexas caiam em seu rosto, e ela usava uma blusa de manga longa vermelha de tecido de treino justo e uma calça cargo.
—Luka! - ela chamou, ignorando completamente a professora de laboratório, que franziu a testa mas não disse nada. Todo mundo fazia vista grossa para a Hyuna. — Você esqueceu de novo sua bombinha no vestiário. Acha que é bom ficar sem ela?
Luka parou instantaneamente o que estava fazendo. Todo aquele ar de controle e frieza que ele emanava se dissolveu por uma fração de segundo. Seus olhos claros se fixaram nela, e algo profundamente diferente brilhou em seu olhar.
—Hyuna - ele disse, e sua voz perdeu a frieza plana. Tinha um tom de alívio junto com seu sorriso — Eu... esqueci. Obrigado.
Ele estendeu a mão para pegar o inalador que ela segurava. Seus dedos tremiam levemente.
—Não seja burro - ela repreendeu, mas sua voz era suave, quase carinhosa. — Cuida melhor disso. Te encontro depois do treino, a Hyuna além de líder do grêmio era representante do clube de natação.
Ela saiu tão rápido quanto tinha entrado, deixando para trás um silêncio carregado e o aroma do seu perfume que era bem forte e floral. Luka ficou parado por um longo momento, segurando o inalador como se fosse um salva-vidas (o que em alguns momentos de fato deveria ser), sua máscara de perfeição totalmente quebrada. Ele respirou fundo, pareceu se recompor, e então guardou o objeto no bolso de seu jaleco.
Ele voltou para a bancada, seus olhos claros agora evitando os meus, seu rosto estava levemente corado. A fachada estava de volta, mas mais frágil.
—Onde estávamos? - o mais velho perguntou, a voz dele novamente plana e controlada, mas um pouco mais baixa.
—No ponto de viragem - respondi, olhando para o béquer. A solução tinha virado de um rosa pálido para um vermelho intenso e vibrante. — Acho que passamos dele. - disse com um sorriso meio irônico.
Luka olhou para a solução, e então para a bureta. — Droga - ele murmurou, quase para si mesmo. — Teremos que começar de novo.
Eu só suspirei, ajustando os fones no pescoço. A aula mal tinha começado e já estava uma bagunça. Típico.
Eu observei Luka por um segundo, sua máscara de frieza cuidadosamente recolocada, mas seus dedos ainda tamborilando levemente no béquer onde a solução tinha virado um vermelho alarmante. A cena com a Hyuna tinha sido tão... Tão fora do script perfeito dele. A pergunta queimou na minha língua antes que eu pudesse pensar melhor.
—Vocês... você e a Hyuna... namoram ou algo assim? - a frase saiu mais áspera do que eu pretendia, quase um desafio.
Luka congelou por uma fração de segundo. Seus olhos claros, que evitavam os meus, se voltaram para mim com uma rapidez assustadora. Havia um flash de algo perigoso neles – irritação, possessividade, um aviso.
—Por que pergunta? - a voz dele estava gelada, cortante como vidro. Era uma pergunta retórica, uma muralha sendo erguida.
Eu encolhi os ombros, me sentindo um idiota por ter aberto a boca. Meus dedos brincaram com uma das pulseiras de borracha em meu pulso. Nada. É que ela parece... se importar. Só isso.
Ficou um silêncio tenso. Luka olhou para a solução estragada, e então, para minha surpresa, um suspiro quase imperceptível escapou dele. A postura rígida dele cedeu um pouco.
—A Hyuna... - ele começou, a voz perdendo um pouco daquele gelo. — Ela se importa com todo mundo. É o jeito dela. Ela é a representante de turma, afinal. - O loiro pegou um novo béquer, começando a preparar outra solução com movimentos precisos, mas menos robóticos. — Não, não namoramos. Somos... próximos.
Eu entendi o que ele não estava dizendo. A Hyuna era um furacão de bondade e energia que tinha, por algum motivo, decidido adotar o Luka. E ele, por sua vez, a via como seu porto seguro. Lembrei de uma vez, no começo do ano, quando uns caras os mesmos babacas do time de beisebol do Ivan, na verdade me encurralaram perto dos vestiários. Eles estavam de saco cheio das minhas músicas "barulhentas" e por eu sempre os ignorar quando falam alguma coisa, claro, grande parte eu ignorava por que eu odiava aqueles caras, mas certas vezes eu realmente só não ouvia.
Foi a Hyuna que apareceu do nada, colocando o braço dela no meu ombro como se fôssemos melhores amigos há anos.
—E aí, Till, tá esperando o que? A gente vai se atrasar, você tá me devendo aquele pão de mel das meninas do segundo ano! - ela tinha dito, seu sorriso era largo e descontraído, mas seus olhos estavam fixos nos caras. — Vocês perderam algo? Vão ficar aí encarando ou o que?
Os caras haviam recuado na hora. Ninguém mexia com a Hyuna, e muito menos com alguém sob a proteção não oficial dela. Ela me levou embora dali, sem fazer perguntas, sem julgamento. Só me deixou na porta da minha sala com um tapinha no braço e um "se cuida tampinha"
—Ela é... legal - eu disse, meio envergonhado, pegando o bastão de vidro de novo para mexer a nova solução. — Ela me ajudou uma vez.
Luka parou de medir o ácido. Seus olhos claros se encontraram com os meus, e desta vez não havia gelo, apenas uma curiosidade aguçada. — Foi com os jogadores de beisebol? Os amigos do Ivan?
Eu fiquei surpreso. —...É. Como você sabia?
Um sorriso pequeno e torto apareceu nos lábios dele. — A Hyuna me conta coisas. E eu observo. - O mais baixo voltou a sua atenção para a bureta. — O Ivan deveria manter seus cachorros na coleção. É vergonhoso.
A afirmação foi dita com tanta naturalidade, como se ele estivesse comentando sobre o clima. Era estranho ouvi-lo falar assim, com um desdém tão claro por um dos caras mais populares da escola. Mas também era... reconfortante, de uma forma distorcida.
—Eles não fazem nada quando ele tá por perto - murmurei, confessando algo que eu nem mesmo tinha dito em voz alta para mim mesmo.
—Claro que não - Luka respondeu, sua voz agora carregada de um entendimento cansado. — O Ivan precisa manter a fachada de príncipe gentil. É mais fácil deixar os outros fazerem o trabalho sujo. - O loiro olhou para mim. — Você deveria contar para ele.
Eu soltei uma risada curta e amarga. — E dar o prazer de ver eu pedindo ajuda? Não, obrigado.
Luka estudou meu rosto por um momento, seus olhos claros parecendo ver cada pedaço de orgulho ferido e frustração. Ele simplesmente acenou com a cabeça, uma vez, como se tivesse decifrado um código complicado.
—Justo. - foi tudo que ele disse. — Agora, preste atenção. O ponto de viragem é rosa pálido, Till. Não vermelho sangue. Vamos tentar de novo.
E a aula foi assim por um longo tempo depois de conseguimos acertar na mistura, a campainha que anunciou o fim das aulas soou como um hino de libertação. Guardei meus cadernos rabiscados com mais letras de música do que anotações úteis e enfiei tudo na mochila com um suspiro de alívio. A aula de química com o Luka tinha sido... menos insuportável do que o habitual. Ele era, inegavelmente, inteligente, e quando não estava tentando monopolizar todo o crédito do trabalho, até que era uma dupla decente. Conversar com ele era como decifrar um código complexo raro, mas intrigante quando acontecia.
Mas agora, eu precisava de ar. Precisava de silêncio.
Ignorei a onda de estudantes inundando os corredores, cada um gritando, rindo, fazendo planos. Eu me dirigi para a escada de serviço no fundo do prédio, a que levava ao telhado de acesso restrito. A fechadura estava quebrada há anos. Era meu refúgio, só eu subia até lá em cima, ficava sozinho, completamente peso com os meus próprios pensamentos, tem momentos que isso é bom, outros que me apavora, pensar demais sempre trás alguma consequência.
Empurrei a porta de metal e a luz do final da tarde, dourada e quente, me cumprimentou. Aqui em cima, o barulho da escola era um murmúrio distante. A primavera estava começando a pintar o mundo com cores mais vivas. O ar cheirava a grama cortada e terra molhada. Minha mãe sempre dizia que a primavera era a época perfeita para colher flores, e para novos começos. Meu coração deu um salto desconfortável no peito.
Caminhei com minha mochila até um pouco mais adiante e me sentei com as costas contra a parede baixas do telhado, mas antes aproveite um pouco a vista, a cidade se espalhando abaixo de mim e o ar fresco. Da mochila, tirei um salgadinho e um refri de lata para comer, agitei antes de abrir uma mania que muitos acham loucura e abrir a latinha engolindo todo gás e espuma que havia se juntando em cima, eu gostava dessa sensação sufocante na boca depois de dar um golasso no refrigerante, respirei fundo deixando a latinha em outro canto e puxei um caderno espiralado surrado com um lápis, as capas cobertas por adesivos de bandas que ninguém nunca tinha ouvido falar. Abri em uma página quase cheia. Não eram riffs de guitarra ou esboços sombrios. Eram poemas.
Ou, pelo menos, a tentativa desesperadas de criar um, abrir meu salgadinho e comi uma das batatinhas tentando me concentrar.
A ponta do meu lápis tamborilou nervosamente no papel em branco que restava. Como se coloca em palavras o que você sente por alguém que é basicamente um arco íris ambulante? Como descrever o modo como o coração para quando ela ri, ou como o mundo parece um lugar menos cinza quando ela está por perto? Todas as minhas palavras soavam falsas, clichês baratos de uma música brega.
"Seus olhos são como... " Peguei a borracha e apaguei com força, quase rasgando o papel. Que porcaria.
"O seu sorriso ilumina... " Ugh. Não.
Fechei os olhos, tentando me lembrar dela no corredor hoje de manhã. O rabo de cavalo balançando, a bolsa de oncinha, a maneira confiante como ela andava, a pureza no jeito que ela falou com o Ivan... uma pontada de ciúme percorreu meu estômago, mas eu a ignorei.
"Você é a nota perfeita em uma música cheia de ruído..." Escrevi, a letra tremula. "A cor que falta em todos os meus dias em preto e branco..."
Parecia ridículo. Tão dramático. Tão... eu.
Mas era a verdade. Mizi era tudo que era brilhante e bom nesse mundo. E eu era apenas Till, o garoto esquisito que perdeu o pai e usava roupas pretas em um calor de quarenta graus e fazia músicas barulhentas no seu quarto.
Deixei minha cabeça cair para trás, batendo contra a parede de tijolos com um baque suave. Talvez eu devesse simplesmente desistir. Guardar o poema e nunca mostrá-lo para ninguém. A probabilidade de eu fazer papel de idiota era aproximadamente de cem por cento.
Mas então, a imagem do sorriso dela veio à minha mente novamente. E, por um segundo, senti uma pequena coragem. Era a primavera. A época das flores e de mudanças... Talvez... apenas talvez... fosse a época de arriscar tudo por uma chance mínima de felicidade.
Respirei fundo, o ar fresco da tarde enchendo meus pulmões, e peguei o lápis novamente. Eu tinha que pelo menos tentar.
O poema finalmente fluiu, como se uma barreira tivesse se rompido dentro de mim. As palavras se encaixaram, cruas mas honestas, sem os clichês ridículos de antes. Era o mais perto que eu conseguiria chegar de colocar meus sentimentos no papel. Para terminar, rabisquei alguns pequenos desenhos de gatinhos nas bordas, ela adorava gatos. Era um toque fofo e ingênuo.
Fiquei parado olhando para a carta, meu coração batendo forte contra as costelas. Assinar ou não? Milhares de garotos deviam se declarar para a Mizi todo dia. Ela provavelmente recebia cartas e presentes o tempo todo. Mas a Mizi... a Mizi não era como as outras. Ela era genuinamente boa. Ela se importava. Ela leria, mesmo que fosse para gentilmente recusar. A possibilidade dessa gentileza era tanto um conforto quanto uma tortura.
Enrolei a carta com cuidado, meu estômago em um nó. Era agora ou nunca. Terminei de beber meu refri e comer meu salgadinho e os levei comigo para jogar em alguma lixeira disponível, meu lanche era bem impróprio para alguém da minha idade mas perfeito para um adolescente sem tempo. Desci do telhado com passos determinados e meio correndo, o sino do intervalo já tinha tocado e a carta suada estava na minha mão que suavam sem parar. O corredor estava quase vazio, a hora do almoço tinha acabado e a maioria já estava indo para as aulas extras ou para casa. O armário dela era mais adiante no corredor, perto da saída principal. Cada passo ecoava como um tambor no silêncio.
Cheguei no armário 330, o número dela. Respirei fundo. Era só abrir a fenda e deixar cair. Simples. Fácil. Rápido, Respirei fundo e estiquei a mão até o alcançar, os dedos tremendo levemente exitantes se deveria mesmo fazer isso.
....
...
..
.
.
.
Eu deveria mesmo fazer isso?
.
.
..
...
....
—BOO!
A voz surgiu diretamente no meu ouvido esquerdo, um sopro quente e repentino. Eu dei um pulo para frente, um grito sufocado escapando dos meus lábios. Minha mão se abriu por reflexo e a carta da trilha do armário de Mizi para o chão, batendo com um baque mudo que soou como um trovão no corredor silencioso.
Meu coração parecia querer sair pela minha garganta. Eu me virei, e lá estava ele. Ivan. Sorrindo como um gato que pegou o canário, seus olhos negros brilhando de diversão maligna. Ele deve ter se aproximado como um fantasma, sem fazer um único ruído.
—Cara, você salta que nem um gatinho assustado - O mais alto riu como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo e passou sua mão na testa penteando seu cabelo para trás, a sua voz estava cheia de diversão.
—SEU IDIOT— eu comecei a xingar, mas algo me impediu de terminar meu pensamento. Minha visão periférica captou outro movimento. Um rabo de cavalo rosa vindo em nossa direção, uma bolsa de oncinha balançando no quadril e uma expressão curiosa no rosto ao me ver tão agitado.
Afinal, estávamos em frente ao armário de Mizi, a dona da porra do armário.
Pânico. Puro pânico me inundou. Não assim. Ela não podia me ver assim, assustado, desesperado, com um poema de amor no chão. Ela estava se aproximando e veria tudo. Era pior do que um sonho daqueles que você tá peladão no colégio na frente de todo mundo. Antes que eu pudesse me agachar para pegar o papel que estava abaixo dos all star vermelhos de Ivan o garoto pensou mais rápido e o fez. Rapidamente, ele o pegou do chão. Meu coração parou quando vi seus olhos escaneando as linhas da folha aberta, lendo tudo.
—Oi, tudo bem? - Mizi estava em frente a gente, a garota mais baixo perguntou, sua com um certo ar de dúvida.
—TUDO BEM! - gritei, acabou saindo mais alto do que eu queria minha voz estridente e muito alta, meu rosto queimando. Eu estava vendo Ivan lendo meu poema sem poder fazer nada. Tudo estava acontecendo rápido demais. Eu estava nervoso demais. Do jeito que Ivan é, e gosta de me irritar, ele iria gritar o que eu havia escrito para Mizi. Eu devia parecer um lunático suando frio e vermelho.
Mizi piscou, confusa, mas seu sorriso gentil não desapareceu. — O que vocês querem em frente ao meu armário?
Foi quando Ivan, num movimento suave e calculado, dobrou o papel e o enfiou no bolso do seu jeans, escondendo a evidência do meu crime. Ele então colocou o braço em volta do meu pescoço, me puxando para perto com uma força que não admitia discussão. Seu sorriso era descontraído, perfeitamente falso.
—Nada de mais, Mizi - disse Ivan, sua voz calmamente tranquilizadora. — O Till aqui estava me mostrando um... um novo riff que ele compôs. Aí ele se empolgou e o papel voou. Quase bateu no seu armário, por pouco não acabou entrando nele né. A gente tava só recuperando. Não é, Till? - Ele me deu um pequeno aperto com o braço, um aviso disfarçado de camaradagem.
Eu só fiquei paralisado, incapaz de fazer qualquer coisa além de balançar a cabeça positivamente e balbuciar um som que deveria significar "é isso mesmo", mas que saiu como um grunhido de porco agonizante.
Mizi olhou entre nós dois, ainda um pouco cética, mas acabou dando de ombros com um sorriso. — Bom, tomem mais cuidado. Quase derrubaram o papel de vocês no meu armário! - ela brincou, antes de abrir o armário, pegar o que precisava e seguir seu caminho, nos deixando sozinhos no corredor.
O braço de Ivan saiu do meu pescoço assim que ela sumiu na esquina. O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão séria com um sorriso malicioso. Ele bateu no bolso onde guardara o papel.
—Bem, Till - O mais alto disse, sua voz agora um sussurro baixo. — Acho que você me deve um favor agora. E que sorte a minha, eu finalmente tenho algo que você quer de volta.
—Porra de favor caralho. - retruquei, obviamente nervoso com a situação, meu punho cerrando ao lado da perna. O pânico dava lugar a uma raiva quente e impotente.
Ivan não pareceu nem um pouco abalado. Pelo contrário, seus olhos escuros brilharam com diversão perversa. Ele deu um passo mais perto, invadindo meu espaço pessoal.
—Bem, eu livrei seu pescoço de algo grande, certo? - ele disse, sua voz baixa e um tanto arrastada — Imagina se a Mizi lesse aquilo? "A nota perfeita em uma música cheia de ruído"? — ele citou uma linha do poema, e meu sangue gelou. Ele tinha lido. Tinha lido tudo. — Então te fiz um favor. O que acha de uma... troca de favores? Nada demais, não é?
—Cala a boca e me devolve o poema porra. - gritei, tentando não parecer desesperado, mas falhando miseravelmente. Estiquei a minha mão para ele com palma para cima. — Agora. - Meu pedido saiu mais como uma ordem.
Ivan ignorou minha mão completamente. Ele tirou o papel dobrado do bolso e o balanceou lentamente entre seus dedos, como um jogador com a bola antes do lance decisivo.
—Você escreve bem, sabia? - ele comentou, sua voz assumindo um tom estranhamente contemplativo que me pegou de surpresa. — É meloso pra caralho, mas... é sincero. Diferente de você.
Ele então empurrou o papel de volta para o fundo do bolso. — Se quiser isso de volta... - ele continuou, um sorriso largo. — Me manda uma mensagem quando chegar em casa, você ainda deve ter meu número né.
Antes que eu pudesse cuspir outra palavra de protesto, ele se virou e começou a andar para trás, me encarando. — É só um favor, um pequeno preço para pagar pelo seu segredinho, não acha?
E então, ele virou de vez e mergulhou no fluxo de estudantes saindo da escola, me deixando paralisado no corredor, com o coração batendo forte no peito e a horrível sensação de que eu tinha acabado de fazer um pacto com o próprio diabo.
Caralho, como eu odeio esse cara.
