Chapter Text
“Muitos falharam nessa tarefa difícil, mas você é a última esperança que restou nesse mundo. Se você também falhar, carregará o peso eterno de ser o responsável pelo fim da existência e alegria de todos. Por isso, Knight of Seven, é o seu dever majoritário matar o príncipe a qualquer custo. Fracassar em seu dever não é algo negociável. O futuro de muitos só depende de você.”
Essas foram as palavras que ecoaram na minha cabeça desde que eu despertei, como uma ordem vinda do além que parecia mais crível a esse ponto. Ainda sim, eu hesitava em segui-las.
Eu sequer sabia quem eu era ou onde eu estava. Por que eu deveria matar um príncipe?
“Porque ele representa o caos e irá destruir tudo. Você já presenciou isso antes. Vai compreender quando o encontrar”.
Outro eco. Parecia ser um coro de várias vozes, mas predominava um tom masculino e velho entre elas. Era familiar para mim, sim, mas…
Existiam muitas lacunas na memória de minha mente. Eu reconhecia um tom mas não conseguia reconhecer minha própria imagem refletida na poça d’água que era iluminada pela lua cheia. Afinal, onde exatamente era aquele lugar?
Uma floresta densa de árvores ressecadas. Parecia ter uma infinidade delas se eu olhasse para trás. Para frente, uma escadaria de um santuário de arquitetura típica de…
De eleven.
Eleven?
Era estranho saber alguns conceitos sem ter noção do resto. Eu não me sentia bem quando pensava nessa palavra, mesmo que não entendesse exatamente o peso dela. De qualquer forma, era uma escadaria que dava acesso a um portão oriental -como um Torii - bem desgastado em tons de vermelho vibrante. Estranhamente eu sentia uma nostalgia, como se parte de mim tivesse vivido ali embora outra parte reagisse como se fosse a primeira vez.
A falta de memória apenas me deixava com mais dúvidas. Talvez eu estivesse ficando louco e isso poderia ser fruto de um delírio? Uma amnésia passageira…? Talvez eu devesse procurar ajuda de alguém?
“Só há você e o príncipe nesse jardim.”
A voz ecoa novamente, começo a me perguntar se deveria ouvi-la de fato. A palavra jardim parecia ter sido dita em um modo figurado, já que esse lugar claramente não era um. O que poderia ser então?
Eu não arranjaria respostas me questionando e tentando compreender algo estando tão perdido. Algo me dizia que a voz desejava que eu subisse aquela escadaria para matar tal príncipe, então eu me virei e resolvi seguir um caminho diferente, adentrando na floresta.
A floresta não era familiar.
Existia um abismo entre as árvores. Uma escuridão além do normal, um mal estar tomava conta de mim a cada passo que eu dava.
“Você vagará pela eternidade até matar o príncipe, essa é a sua cruz.”
Eu não vou matar ninguém. Com certeza estou ficando louco com esses ecos irritantes em minha mente.
“Vai mesmo deixar o Zero viver depois de tudo que ele fez?”
Zero…
Eu tinha algum problema com números em meu passado? Eu senti um desconforto ainda maior ao ouvir esse, senti ódio, raiva… uma tristeza implacável que me fazia perder a respiração de tão abalado. O príncipe era Zero? Mas o que esse Zero havia feito para me deixar em um estado tão deplorável de sentimentos ruins a ponto de eu sequer conseguir me movimentar livremente?
Minhas mãos estavam tremendo de tanta raiva, dor. Eu não saberia explicar se meus olhos se encheram de lágrimas pelo desespero de não se lembrar ou pela angústia do meu subconsciente com a palavra - ou melhor, pessoa- Zero.
Se esses ecos poderiam ler meus pensamentos e me deixar tão mal apenas com algumas palavras chave, então eu deveria tentar compreender mais sobre o que essa voz desejava.
Ok… eu respirei fundo e me acalmei ali parado no início das infinitas árvores à minha frente. Soltei um suspiro cansado e então resolvi repetir a mesma pergunta:
Por que eu deveria matar o príncipe?
“Porque o seu dever é garantir um mundo onde as pessoas possam ser felizes.”
E esse príncipe impede isso por ser o caos?
“Porque sua perspectiva de felicidade é deturpada e vil.”
Conveniente demais. Não me convenceu.
E por que eu deveria me importar com o meu dever ou com a felicidade das pessoas se eu nem sei se isso que está acontecendo agora é a realidade?
“Porque a Euphemia desejaria isso.”
Mais uma palavra importante, mas dessa eu consegui lembrar no momento em que ouvi seu nome. Euphy…
Eu amava ela. Eu iria me casar com ela quando…
Por que eu não consigo me lembrar?
“Porque é isso que ele faz. Ele destrói você lentamente e te deixa preso neste limbo de pensamentos e incertezas. Não há nada que o príncipe deseje a não ser destruir e reconstruir tudo e todos de acordo com seus ideais maculados. Foi ele quem a tirou de você, e você testemunhou isso.”
Eu me recordo da dor da perda, dela se despedindo daquela maca e me deixando sozinho no mundo, mas eu não me recordo dele. Não me recordo do que aconteceu…
“O ódio é motivação o suficiente para cumprir essa tarefa. Knight of Seven, em sua cintura à direita está a espada de Damocles que você usará para perfurar o coração do príncipe. Você deve o atingir assim se realmente pretende o matar.”
A espada realmente estava na minha cintura esse tempo todo e eu sequer percebi. Meus trajes pomposos eram dignos de alguém que recebia o título de cavaleiro, mas… se eu não tinha sequer um nome porém apenas um título… então eu não deveria ser tão importante.
Por que eu?
“Porque você é o único que o príncipe não consegue destruir.”
Uma vingança baseada em fagulhas de memórias mascaradas de uma ordem superior. Esse seria o caminho que eu desejo trilhar?
E se eu não quiser matar o príncipe?
“Você não tem o direito de querer algo. Você perdeu sua individualidade quando resolveu servir à Britannia. Você é apenas uma ferramenta para impedir que os outros sofram como a Euphemia sofreu, faça algo digno ao menos uma única vez na vida”.
Apenas mais ordens dadas, dessa vez tentando me fazer sentir pior do que eu já estava. Como se não bastasse todas as coisas ruins que eu sentia agora…
Eu não desejo mais ouvir esses ecos.
“Esse mundo não é de seu domínio para você decidir as regras. Contudo, se deseja não ouvir mais as minhas ordens, se aproxime do santuário onde o príncipe está. A sua presença repele a minha essência e eu perco as forças que me permitem comunicar-me contigo.”
De qualquer forma, ele me forçaria a ir atrás desse príncipe. Querendo ou não.
“Não confie em suas palavras, ele mente. Não olhe em seus olhos, ele pode te seduzir de uma forma irresistível para o obrigar a cumprir as ordens mais absurdas que possa imaginar.”
Seduzir, que idiotice. Eu só iria ficar perto o suficiente para fazer essa voz parar de ecoar na minha cabeça e então eu poderia pensar de verdade.
Se é que havia algo que fosse verdade acontecendo agora.
Conforme eu dava passos em direção aos degraus do santuário, o eco ficava cada vez mais distante, mais implícito, sem ordens e sem tormentos. Me restou apenas mais uma metade de degraus para subir e cruzar com o portão Torii e esse trajeto foi completamente silencioso.
Finalmente eu e minhas ideias. Era bom saber que aquilo funcionou e que agora eu poderia pensar por conta própria. Então…
A lua ficou mais brilhante, a luz pálida me cobria como se fosse de uma lâmpada. Era tão bem iluminado que parecia… falso.
Eu olhei novamente para a espada embainhada em minha cintura - cheia de adornos pomposos - tive a curiosidade de empunhar em minhas mãos embora eu não desejasse matar ninguém sem um motivo plausível.
O príncipe… estava logo adiante? Eu olhei novamente para o santuário e notei que ele estava quase em ruínas, com uma das portas abertas. Não era convidativo, era apavorante, mas eu me sentia apático com o medo.
Parecia até mesmo que existia uma urgência dentro de mim mesmo para me expor à situações de risco. Estranho.
Eu continuei a empunhar a espada e dessa vez levei sua lâmina em direção ao brilho do luar. Ouro branco e dourado, cheia de adornos gravados em um tom mais escuro. Havia uma letra cursiva na extensão da espada, era…
“Knight of Zero.”
Meu coração gelou com a sensação horrível que senti ao ler aquilo. A espada parecia carregar um peso maior do que quando estava em minhas mãos antes de eu ler a gravura. Era culpa pesando, uma culpa imensa…
Meus olhos estavam tremendo e graças a luz da lua consegui ver meu reflexo pela lâmina, ver os olhos cheios de lágrimas pensantes mesmo sem compreender o que sentia. Esses vazios em minha mente pareciam ser tão dolorosos quanto os outros sentimentos, mas ao mesmo tempo eu começava a pensar…
Será que eu desejo mesmo me recordar das coisas que me fazem tão mal assim?
Ou isso era um pesadelo impressionante no qual eu não conseguia despertar? Não importava nem mesmo se eu segurasse e cortasse minha mão na lâmina afiada da Damocles, eu não acordava. Eu via o sangue descer, sentia a dor tão realista que evidenciava que não era um sonho, e mesmo assim eu não parava.
Era como um vício. Um vício em querer se autodestruir, um vício em querer se ferir, se arriscar…
Se matar…
“Viva!”
Esse novo eco me assustou, me deixou em um transe por um tempo e eu parei de me mutilar com a espada. Foi diferente a sensação, não parecia ser um eco consciente se comunicando comigo, mas sim uma memória muito distante. Uma ordem desesperada, uma voz jovem, algo que parecia que eu havia escutado mais de uma vez ao longo de minha vida.
Era uma ordem que eu odiava ter que seguir. Como se tivesse sido imposta à mim contra a minha vontade. Como se fosse uma possessão… então eu era tão infeliz à esse ponto? Existia uma outra pessoa que estava desesperada a ponto de exigir que eu vivesse?
E por que nada disso me trazia o mínimo de conforto a não ser a entonação da voz pela familiaridade inconsciente?
Talvez eu estivesse melhor assim. Talvez eu tenha apagado minhas memórias por trauma. Eu não sei se me importo em saber mais sobre mim mesmo agora, sequer o meu nome.
Afinal, eu só estou aqui por ser uma ferramenta designada para matar uma outra pessoa, não é?
O príncipe… se ele realmente estiver dentro do santuário, eu deveria vê-lo, tentar conversar e entender essa situação melhor. Um eco não pode me dominar. Eu jamais mataria uma pessoa à sangue frio que não merecesse.
…não é?
O sangue da minha mão acabou escorrendo e sujando minhas calças brancas. Meu sapato também. Havia ao menos estancado o ferimento e a dor era suportável, eu parecia lidar muito bem com a dor física.
Meus olhos voltaram para o santuário abandonado. Não era estranho sentir nostalgia daquilo dada a minha situação com problemas de memória, mas eu jamais imaginei que poderia sorrir de alegria como se aquele lugar fosse parte de um passado importante, feliz.
O sentimento que eu tinha era de como… como se eu tivesse encontrado o meu primeiro amor naquele santuário há muitos anos atrás. Será que foi assim que eu conheci a Euphy…?
Talvez eu devesse entrar e ficar por lá até a noite passar. Me enfiar no meio de um abismo infinito de árvores de madrugada não parecia ser uma ideia sensata, principalmente com uma voz maldita ecoando na minha cabeça e me perturbando com ordens sem sentido e provocações cruéis. Se fosse um sonho dentro de outro sonho, eu poderia despertar passando um tempo ali e procurar a realidade.
Se for a realidade, bem… então a manhã logo chegará. Não me importa se existe ou não um príncipe, eu só quero espairecer a mente e repousar por um momento, talvez lembrar de mais alguma coisa…
Isso significava que eu deveria avançar, seguir caminho ao santuário. E foi exatamente o que eu fiz, sem hesitar ou temer nem mesmo o aspecto desagradável do local ou o breu que se encontrava dentro dele.
Havia um cheiro de mofo muito forte exalando de dentro, como se estivesse abandonado há mais anos do que eu provavelmente tinha de vida - o que era estranho já que dentro do santuário havia algumas lamparinas acesas entre os cantos do chão das paredes, todas na esquerda. A iluminação ainda era precária, embora me surpreendesse que havia tal, qualquer tipo de móvel ou decoração havia sido retirado daquele santuário, não existindo nada além das paredes e lamparinas. Bom, eu esperava ao menos um lugar para poder descansar de verdade, mas…
Talvez fosse mais confortável do lado de fora. O cheiro de mofo estava começando a me dar náuseas. Dei alguns passos próximo à uma das paredes para pegar a lamparina mais próxima de mim e então… eu ouvi grunhidos.
No primeiro momento eu pensei que poderia ser minha mente tentando me sabotar, fiquei imóvel ajoelhado próximo da lamparina, a parede dava em um corredor com apenas uma direção à direita, os sons ecoavam de lá.
—Alguém…?
Meu Deus. O príncipe realmente existia…
E eu o conhecia. Eu reconhecia esse timbre, embora minha memória falhasse à quem pertencia. Eu sabia que conhecia bem, eu já havia escutado aquela voz jovial em algum momento…
“Viva!”
…
Não pode ser.
—Alguém… por favor… alguém me ajuda…
Eu não conseguia me mover. Eu entrei em estado de choque sem ao menos conseguir compreender o porquê. Esse príncipe ordenou que eu vivesse e agora eu seria o seu carrasco…?
Não, eu não poderia matar uma pessoa apenas porque vozes na minha cabeça estavam ordenando que eu a matasse. Ele parecia desesperado, fraco, mal tinha forças para gritar, eu só conseguia o escutar por não ter mais nenhum som sendo emitido no mesmo momento.
E mesmo assim… eu sentia um misto de preocupação e raiva. Raiva irracional, como uma mágoa, como se ele tivesse feito algo horrível comigo no passado, não era por conta das vozes que ecoavam dizendo que ele acabaria com tudo, era… puramente pessoal.
Eu não deveria me deixar levar por todas essas emoções sem sentido. Se houvesse uma pessoa precisando de ajuda, eu iria ajudar.
Não tive mais devaneios, apenas peguei a lamparina e segui caminho para dentro do santuário mofado. Tinha algumas teias de aranha bem grandes que cobriam quase metade da parede, mas nenhum ser vivo parecia estar ali dentro além do príncipe. O corredor deu em uma escadaria com corrimão desgastado, todo empoeirado. Não acho que seria uma boa ideia me apoiar nele com um corte na mão, então eu desci pelo meio, me apoiando à mim mesmo.
Eu podia ouvir mais grunhidos, dessa vez vindos com o som de correntes se arrastando no chão. Se podiam prender aquele príncipe ali, por que não o matar diretamente?
E se na verdade… fui eu quem o prendi em um surto e me esqueci? Afinal, há vozes falando comigo… talvez eu estivesse com um quadro grave de alguma psicose, não era normal nada disso que estava acontecendo…
Isso estava me matando de perturbação. Eu tinha mais medo de mim mesmo do que de descobrir em qual estado deplorável aquela pessoa implorando por ajuda estava. Eu deveria avançar? Eu deveria vê-lo? E se eu fosse a desgraça que o prendeu ali?
Ficar pensando nisso também não ajudaria em nada. Eu realmente deveria parar de pensar sobre coisas que não fariam eu resolver todos esses problemas.
Resolvi continuar avançado, terminando de descer toda a escadaria. Havia mais um corredor, dessa vez estreito a ponto de me fazer sentir claustrofobia, com paredes de madeira apodrecida. O cheiro ali embaixo era pior ainda, praticamente insalubre para alguém ficar por muito tempo… como um príncipe aguentaria um tratamento desumano desses?
Meus passos me levaram até o final do corredor e então a luz da lamparina iluminou um novo cômodo, uma nova imagem. Não havia nada além de correntes presas em ferros fortes nas paredes e no fundo daquele local, um jovem rapaz todo encolhido de costas, tremendo. As suas vestes pareciam mais de um uniforme estudantil do que de um príncipe de fato, em trapos, rasgada na parte onde as correntes prendiam seu corpo - calcanhares e pulsos.
Pela iluminação, ele percebeu que eu estava presente e se virou lentamente. Algo parecia ter mudado quando ele me viu, seus olhos brilharam de uma forma diferente. Irises violetas… não era tão comum mas mesmo assim, eu sentia como se estivesse acostumado com elas.
Aquele olhar desesperado me deixou sem palavras. Eu deveria ao menos perguntar se ele estava bem, mas… eu não conseguia abrir a boca. Eu não conseguia parar de olhar para ele, de tentar me recordar de seu rosto mesmo que aquela fosse a primeira vez que eu o vi.
Não. Não era a primeira vez. Apenas parecia ser. Eu me recordava da sua voz, mas não havia mais nada além disso.
—Su…—Ele silabou e se calou no mesmo instante, desviando o olhar. —Você veio me resgatar?
—Alguém… viria te resgatar? —Que pergunta foi essa? Claro que alguém viria. Era uma pessoa encarcerada ali, tinha laços que a envolviam, pessoas que sentiriam a sua falta… onde eu estava com a cabeça quando perguntei isso?
—Não. Eu acho que não. —Ele abaixou a cabeça. —Ninguém viria aqui por mim.
—O que você está dizendo? —Fiquei confuso, balançando a mão e me abaixando enquanto deixava a lamparina aos arredores. —Você… você está bem? Qual é o seu nome?
Os olhos dele tremeram de novo, me olhando com uma certa indignação.
—Como você não sabe o meu nome? —Ele devolveu a pergunta.
Realmente… ele era um príncipe, deveria ter fama e prestígio. Talvez eu o conhecesse de longe ou… talvez eu fosse o seu cavaleiro.
—Me perdoe por isso, Your Highness. —Me recordei da etiqueta de Britannia, um cavaleiro deveria respeitar a família real mesmo que as circunstâncias fossem de ameaça. Mesmo que eu estivesse designado a matá-lo. —Eu creio que estou com alguns lapsos de memória, apenas me foi informado que você era um príncipe.
—Foi informado? —O sarcasmo em seu timbre era familiar. —Quem te informou?
Eu não deveria dizer. Parecia coisa de doido.
Me reverenciei de joelhos para ele e abaixei a cabeça. —Você… você está bem? Está ferido?
Houve uma hesitação em sua resposta. Eu consegui ouvir sua respiração profunda e cansada, como se ele estivesse esgotado de algo. Talvez ele me conhecesse bem demais e estava decepcionado por eu não me recordar, seria crueldade se eu realmente estivesse ali para matá-lo.
—Lelouch vi Britannia lhe ordena que me tire daqui, Knight of Seven. —Ele fez sua exigência, mas parecia estranha demais para eu obedecer.
—Lelouch…? Esse é o seu nome? —Ergui minha cabeça para voltar a contemplar o rosto dele. Eu queria me lembrar de quem era Lelouch, parecia ser importante.
Eu sentia que era muito importante.
—Você não ouviu? Eu lhe dei uma ordem. Me livre dessas correntes e me tire daqui, rápido. —Ele estava hostil, como se estivesse com raiva. Não parecia ser diretamente à mim.
—Espere… eu não sei se posso. —Recuei, desviando o olhar para baixo. —Me deram ordens… para te matar.
—Me matar? Você? —Havia uma grande descrença dele nisso. —Quem te deu essas ordens?
Eu não respondi. Eu sequer conseguia pensar em algo para dizer naquele momento. O que eu estava pensando? Por que eu estava resistindo em o ajudar? Eu deveria me livrar logo das correntes dele e…
Espera. Tudo isso estava muito estranho.
—Há quanto tempo você está preso aqui? —Fiz outra pergunta, Lelouch parecia baixar a guarda e voltar a ficar mais… “frágil”.
—E-Eu não consigo me lembrar. Me desculpe, eu pensei que se eu usasse minha autoridade de fachada como príncipe eu poderia te persuadir… eu só quero ir embora. —A sua voz era carregada de desespero, medo, um pouco de indignação também. Mas seus olhos transmitiam uma certa desconfiança… ele estava mentindo.
Então havia algo de errado ali. Era melhor eu sondar ele melhor.
—Autoridade de fachada? Você não é um príncipe? —Dissimulei, embora estivesse querendo saber mais sobre ele.
Lelouch desviou o olhar mais uma vez, só que não parecia transmitir falsidade, só… mágoa.
—Eu era um príncipe. Fui expurgado quando eu era pequeno, passei a maior parte do tempo como “Lelouch Lamperouge” e poucas pessoas sabem da minha identidade… —Havia sinceridade ali, eu não poderia olhar fixamente em seus olhos mas conseguia perceber a confiança dele mudando.
—Se poucas pessoas sabiam, eu deveria saber…? Você me cobrou agora há pouco. —Me aproximei, a luz da lamparina iluminava melhor o rosto de Lelouch sem me ter na frente dela. Queria ver perfeitamente como ele era, me recordar de algo que me ajudasse a entender o porquê de nós dois estarmos ali. Ao menos isso.
Seus lábios tremeram, mas nada foi dito.
—Eu… o quão próximo você era de mim, Lelouch? —Deixei o momento de fraqueza falar mais alto do que a minha convicção. Eu queria saber a verdade. Queria saber exatamente onde estava me metendo. Eu queria tanto…
Não, eu quero e vou me lembrar dele.
—Não éramos nada além de conhecidos, mas você sabia que eu era um príncipe deserdado. Sua família me acolheu momentaneamente, só isso. —Ele foi firme, mas estava com o rosto virado para o lado oposto da luz, se escondendo do meu olhar…
Ele era esperto. Eu não saberia dizer se isso era verdade ou não, seu timbre realmente era…
Sedutor.
Não como a sedução carnal, mas convincente. Charmoso, ele tinha um ótimo carisma, como se pudesse mesmo me convencer a fazer qualquer coisa apenas com a sua lábia…
Então os ecos estavam certos? Era meu subconsciente me avisando do perigo? Mas o que um príncipe tão frágil poderia fazer comigo, ainda mais nessas condições? Ele não me mataria… ele sequer demonstrava ter forças para se mover direito. Ele estava tão magro que beirava à anorexia e eu era um soldado treinado…
Eu era?
—Sinto que perdi algo importante por não conseguir me recordar de você. —Divaguei de novo. Dessa vez eu demonstrei o meu desconforto em deixar os pensamentos intrusivos ganharem forma.
E fui recompensado com um sorriso. Um sorriso de Lelouch…
Eu conhecia esse sorriso muito bem. Por que me designaram para matar ele?
—Eu gostaria de poder passar mais tempo com você. —Ele tomou meus pensamentos falando isso, se arrastando lentamente até mim, encostando suas mãos encardidas em meu braço. —Talvez te ajudar a lembrar de algo, de mim. Você me ajudaria também? Me tiraria daqui?
Eu queria fazer isso, mas parecia errado. Quando eu olhei para Lelouch, eu vi algo estranho. Ele não estava interessado em me ajudar, só queria sair dali e eu entendo a sua atitude desesperada… eu faria o mesmo. Mas…
Existia algo no seu olhar que me perturbava, por mais inocente e puro que fosse. Como se ele pudesse me possuir à qualquer momento e tirar minha sanidade apenas com isso. Havia algo muito errado com ele.
—Preciso que você seja sincero comigo. —Eu me afastei mais uma vez, agora me levantando e dando passos para trás. —Existem motivos para quererem te matar?
Lelouch engoliu seco, ficando tenso.
—Pessoas fazem coisas horríveis sem sequer ter motivos, não acha? —Ele devolveu outra pergunta, desviando da minha.
—Disseram que você destruiria tudo, como se você pudesse acabar com o mundo se eu te soltasse, isso é um exagero ou você… pretende fazer algo terrível? —Eu não confiava nele, nem em mim, nem nos ecos, eu só queria despertar de vez. Aquilo era um sonho confuso, desconfortável, eu não queria estar mais naquela situação.
—O que você pensa que eu sou? Como um jovem adulto desnutrido como eu poderia fazer algo tão grandioso? —Ele riu, balançando a cabeça. —Quem te disse um absurdo desses?
—Não importa. É você quem está preso, não eu. Eu não preciso responder as suas perguntas. —Fui grosseiro, mas deu certo. Lelouch começou a ficar irritado, como se uma máscara caísse. Ele não era tão inocente e puro como desejava transparecer.
—Você veio aqui então para me torturar e me matar… —Ele concluiu, mais uma vez mudando a sua feição para puro ódio.
—Eu só quero que alguém me diga a verdade. Se você é inocente, por que não demonstra? Por que quer me esconder alguma coisa? —Mantive firmeza, ele por sua vez apenas ria.
Gargalhava.
—Que prepotente. Me mate logo, vai. Faça exatamente o que te mandaram fazer, você não tem um pingo de caráter ou valor mesmo…
Ele estava começando a me irritar. Mas eu não mataria alguém por irritação…
—Se você não quer me dar respostas, então fique sem ajuda. Eu não vou te matar até compreender o que realmente está acontecendo. Adeus, Lelouch. —Eu me aproximei para pegar a lamparina no chão, era melhor blefar e fingir que iria embora para causar alguma instabilidade nele. Talvez isso o fizesse falar.
Eu estava terrivelmente errado.
Lelouch apenas pegou a lamparina e a jogou no chão, quebrando e alastrando o fogo entre as teias de aranha e sujeiras remanescentes. As chamas se espalharam mais rápido do que eu poderia conceber em minha vista, me desesperando e sequer tendo tempo de reagir. Ele me puxou pelas pernas e me derrubou.
Ele definitivamente não era humano.
—Você acha que pode me deixar de novo e de novo? Acha que pode me abandonar e seguir com a sua vida como se nada tivesse acontecido?! Quem você pensa que é? —Ele gritava em histeria, enfiando uma das correntes contra o meu pescoço com força para tentar me enforcar. Eu tinha uma boa resistência física, mas eu não conseguia tirar os seus braços dali.
—Para… com isso…! —Eu me debati e ele apenas apertou mais as mãos, afundando a corrente. Estava começando a fazer barulho, como se algo dentro de mim estivesse rompendo.
—Você acha que pode me matar? Sou eu quem vou te matar! De novo e de novo… você vai morrer até eu me cansar… até você se lembrar de mim. —Lelouch estava com um tom sadista, o seu sorriso era medonho e eu não sabia se estava alucinando pela falta de ar ou…
Se o rosto dele estava começando a se deformar em algo monstruoso. Meu corpo ficava lentamente dormente enquanto eu não conseguia mais me mexer, mas estranhamente eu não morria. Eu apenas via Lelouch se deformar, o sorriso se expandir além do limite, dentes afiados aparecendo enquanto os olhos ficavam puramente vermelhos com um símbolo onde deveria estar a íris.
“Viva!”
Eu entrei em estado de transe e minhas traquéias ficaram mais fortes, me fazendo recuperar o ar. Meu corpo ainda estava imóvel, mas eu não estava próximo da morte, apenas do desespero.
Lelouch ria, puxava o meu pescoço para cima e enrolava as correntes nele aproveitando a minha fraqueza.
Eu estava sufocando, mas não morria. Eu sentia toda a dor, sentia meu pescoço rompendo e mesmo assim…
Eu não estava sequer perto da morte.
—Você não serve pra mim assim. Você não serve pra nada! Hahaha… você não serve nem pra ser um cachorrinho do meu pai… —Ele continuava a falar, soltando as correntes e se curvando para baixo do meu corpo. Suas mãos estavam deformadas - compridas e com unhas bem afiadas - e então ele começou a me rasgar na região da barriga.
Cortes e mais cortes. No começo eram apenas sangue e roupas pomposas que eu via pelos ares. Depois eu presenciei tripas e órgãos. Eu não conseguia gritar, mas conseguia sentir ele me partindo a meio enquanto o transe do vermelho de seus olhos apenas prendia minha atenção e o ouvia mais uma vez dizendo:
“Viva!”
Eu não consigo me lembrar do restante. Eu não consigo pensar em mais nada. Eu não consigo sentir nada além da dor. Eu não consigo…
Eu…
—Eu vou te reconstruir… não se preocupe… eu sempre estarei aqui para consertar tudo, para nos encontrarmos de novo.
[…]
Com desdém, Zero derruba seu rei naquele tabuleiro. Ele se entrega sabendo que aquela batalha já estava comprometida desde o seu começo.
Charles dá um sorriso, levando sua mão até o peitoral de Zero e enfia por dentro dele de forma translúcida, dedilhando até achar o que queria.
Um gemido de desconforto ecoa pela máscara da figura pitoresca. O imperador tirou dali mais um pequeno pedaço de algo, viscoso e quente.
Era o coração de Lelouch.
—Você não deveria acreditar tanto em Suzaku. Troque de rei comigo, ou perderá todas as outras partidas. —Charles dizia enquanto olhava para o pequeno pedaço de carne em seus dedos, o esmagando e fazendo virar pó.
O vazio onde os dois se encontravam agora estava sem um tom mais carmesim. O tempo de Zero estava acabando.
Mas ainda havia mais algumas partidas a serem jogadas.
—Suzaku é mais do que você pode pensar. Não adianta você usar partes de mim contra ele, ele é mais forte do que eu inteiro. —Ele voltou a organizar as peças negras de seu lado do tabuleiro, concentrando-se enquanto se desvencilhava daquele jardim.
“Daqui eu já consigo fazer alguma coisa. Obrigado, Suzaku.”
—Apostar todas as expectativas e esperanças em uma só coisa é uma tolice, atitude de criança. No final das contas, você não passa de uma criança assustada e mimada, não é? —O imperador continuava imponente como sempre, confiante de si.
—Eu jamais esperaria que alguém carente de conhecimento à minha pessoa pudesse entender meus métodos e planos. Vamos continuar a jogar, sim? —Zero sorriu por baixo da máscara. Seu dedo indicador foi até um de seus peões e encostou ali. —Só que agora… eu vou tomar as rédeas das coisas.
Sua mão livre apenas gesticulou por baixo da mesa de marfim impecável que os dois estavam utilizando. Outra parte de si se desvencilhou da mesma ferida em seu peito.
Era interessante como as coisas funcionavam de forma abstrata ali.
Agora era a sua vez de mostrar suas habilidades.
