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Whatever I've Done

Summary:

Após mais de dez anos de casamento e duas filhas, Eduarda e Lorena estão passando por um processo de separação. Tentando lidar com o desgaste dos últimos meses e com as mudanças em suas vidas, ambas tentam seguir em frente da melhor forma possível.

Mas será que o amor que construíram ao longo de tantos anos ainda é forte o bastante para uni-las novamente?

Notes:

Oiii gentee!! Essa é minha primeira história, decidi me aventurar na escrita; pensei que seria aesthetic ter a escrita como hobby e agora estou perdendo o meu juízo.
Então relevem algum erro ou coisa do tipo.

Qualquer coisa finjo demência e apago tudo.

Seria bom se me descem feedbacks, ajudaria bastante na minha evolução.

Boa leitura ;)

Chapter 1: Piloto

Chapter Text

Estava escuro e gélido; a chuva tamborilava na janela, rasgando o silêncio da noite.
Sentada em uma poltrona ao lado de sua cama vazia, Eduarda olhava para a janela do quarto. Um feixe de luar atingia seu rosto, revelando, em meio ao breu, sua expressão chorosa. Lágrimas espessas escorriam por suas bochechas. Os olhos e o nariz estavam vermelhos, e os lábios, semicerrados.

Segurava com força uma caneca de chá de camomila já frio. Havia preparado a bebida na tentativa de se acalmar, mas fora inútil: mal conseguira dar dois goles antes de voltar ao pranto.

Não conseguiria dormir tão cedo; seus pensamentos eram assombrados pelos acontecimentos recentes. Pensava na forma como tudo desmoronara e, acima de tudo, em sua família.

◇◇◇

O sol banhava o quarto com sua claridade quando o alarme do celular rompeu o silêncio. Eduarda, que não havia pregado os olhos nem por um segundo, arrastou-se pelo colchão para desligá-lo. Assim que o fez, olhou para o lado, contemplando o vazio da cama, que reforçava a certeza de sua solidão - uma compreensão silenciosa de que tudo havia mudado.

Sentia exaustão mental e física; uma dor latejante martelava em sua cabeça.
Levantou-se vagarosamente para se preparar para mais um dia de trabalho.

Após terminar de se arrumar, saiu do quarto e se dirigiu ao quarto das meninas. Entrou calmamente no cômodo. O ambiente tinha uma divisão de cores: do lado esquerdo - onde ficava a cama de sua filha mais velha - a parede era coberta por tinta roxa, decorada com desenhos de arco-íris, nuvens e estrelas. O lado direito, pertencente à caçula, era pintado de rosa, estampado com flores e borboletas. Havia alguns brinquedos espalhados pelo chão, que Eduarda prontamente começou a guardar no baú. Depois disso, aproximou-se da janela e abriu as cortinas de renda com bandô bordado de estrelinhas.

Sentou-se na beira da cama da filha mais velha e a chamou carinhosamente:

- Acorda, meu amor! Está na hora de ir para a escola.

Helena se remexeu e balbuciou algumas palavras desconexas por causa do sono.

Eduarda espalhou beijos pelo rosto da filha; a menina se espreguiçou lentamente, olhou para a mãe e abriu um sorriso sonolento. A cena aqueceu o coração da ruiva, apesar do momento difícil. Suas filhas eram o motivo que a mantinha de pé; faria de tudo para que seus bebês não sentissem tanto as mudanças em suas vidas.

- Vamos levantar, mocinha, tomar banho e depois descer para o café da manhã - disse, acariciando os cabelos da filha. - Vá escovar os dentes e se banhar; vou acordar sua irmã.

Levantou-se e caminhou até a cama da caçula.

A luz invadia a cozinha de uma forma acolhedora, enquanto as vozes tagarelas preenchiam o ambiente. Lara contava à irmã que sua amiga Manu, durante as brincadeiras, pegava todos os poderes existentes, deixando-a com apenas um. Helena, demonstrando empatia pela irmã, logo interveio:

- Da próxima vez que você brincar com ela, fala que não vai mais brincar porque ela é chata! - exclamou Helena.

- Não, mas ela é minha amiga - respondeu Lara, hesitante.

- Então fica com ela! - retrucou Helena, decidida. - Aí eu não vou mais te ajudar. Fica com ela e sem poder nenhum!

Eduarda soltou uma risada diante da discussão infantil, divertindo-se com a lógica das filhas.

- Meninas, não briguem - repreendeu, enquanto tomava um gole de café. - Comam logo; não podemos nos atrasar. Vou deixar vocês na escola e seguir direto para a delegacia.

Lara, que levava o cereal à boca, parou de mastigar, como se tivesse acabado de perceber algo. Franziu a sobrancelha e perguntou:

- Cadê a mamãe?

Eduarda já havia conversado com as crianças sobre o assunto, porém Lara ainda não compreendia como suas mães poderiam se separar. Para ela, as duas eram como o céu e as estrelas; em sua cabeça, essas coisas não existiam separadas.

Nunca imaginara que um dia conversaria sobre divórcio com as filhas. Porém, ali estava ela.

- Então... meus amores, lembram que eu e a mamãe já conversamos sobre isso? - disse pausadamente, como se escolhesse cada palavra com cuidado. - A mamãe Lorena está morando na casa nova agora, mas vocês vão vê-la sempre! Vai ter os dias de vocês ficarem lá com ela, e ela vai continuar amando muito vocês, para sempre.

As meninas, mesmo resignadas, assentiram às palavras da mãe.

 

Por volta das 9h30, Eduarda chegou à delegacia. Respirou profundamente ao atravessar as portas; o cheiro de café pairava no ar e podia ser sentido à distância. O local estava movimentado: conversas paralelas, telefones tocando e o zumbido incessante das impressoras preenchiam o ambiente.

Quando entrou em sua sala, jogou a bolsa aos pés da mesa e deixou-se cair na cadeira. Em seguida, apoiou a cabeça sobre o tampo do móvel, em um claro sinal de cansaço. Alguns instantes depois, ouviram-se batidas na porta; sem esperar autorização, alguém entrou gentilmente. Eduarda ergueu a cabeça para identificar o intruso e se deparou com seu parceiro e amigo, Paulinho.

- Oi, Juquinha - disse ele com carinho. Porém, a expressão antes gentil logo deu lugar a sobrancelhas franzidas de preocupação. - Você não dormiu de novo, né?

- Não. Está tão visível assim? - perguntou, ajeitando a postura na cadeira.

Paulinho entrou de vez, fechou a porta atrás de si, puxou uma cadeira de outra mesa e se sentou próximo da amiga.

- Olha, não quero te assustar, mas... você está parecendo um guaxinim! - constatou em tom brincalhão. - Eu sei que está sendo difícil - acrescentou com cautela. - Mas você não pode continuar assim. Precisa se alimentar e dormir, Eduarda!

A ruiva sentiu os olhos arderem. Passou a mão pelo rosto e respirou fundo.

- Eu tô tentando, tá? - respondeu com a voz embargada.

- Você sabe que pode contar comigo, com a Gerluce... Quando precisar, a gente vai te ajudar, seja com as crianças ou com qualquer outra coisa.

- Eu sei, e sou grata por isso.

Paulinho puxou Eduarda para um abraço apertado, e ela se permitiu relaxar nos braços do amigo.

- Certo! Agora vamos trabalhar - disse ela, afastando-se do abraço.

Ao longo dos anos, fazendo um excelente trabalho na delegacia, Eduarda conquistou promoções até alcançar o cargo de investigadora de 1ª classe. Sempre fora dedicada ao trabalho; amava o que fazia e ainda alimentava ambições profissionais. Sonhava em prestar concurso para delegada.

Resolvera muitos casos ao lado do parceiro, grandes e pequenos. Um dos mais marcantes foi o da falsificação dos remédios da Fundação Ferette. Na época, o escândalo tomou grandes proporções. Eduarda acompanhou de perto toda a situação, tanto profissional quanto pessoalmente, já que sua esposa... ou melhor, sua futura ex-esposa, era uma Ferette.

 

- Juquinha, você está com o inquérito do empresário que caiu em um golpe de estelionato?

- Sim. Aliás, andei estudando o caso - respondeu ela, interrompendo a digitação no computador para pegar um envelope em meio à pilha de documentos e entregá-lo a Paulinho. - No depoimento, a vítima alega que pagou pelo lote de produtos, recebeu a nota fiscal e acreditou que tudo era legítimo. Porém, o fornecedor desapareceu.

- Já puxou o CNPJ?

- Sim. O nome da empresa é Alpha Marketing & Consultoria Digital Ltda.; a situação cadastral está ativa.

- Ué, mas eles não vendem cosméticos?

- Exato. O nome fantasia é Cosmetics Express, "sua distribuidora de saúde e beleza" - afinou a voz ao repetir o slogan, debochando. - Pô, como uma empresa registrada para fazer post no Instagram está entregando - fez aspas com os dedos - caminhão de protetor labial e remédio para farmácia de esquina?

- E qual é o endereço? - perguntou Paulinho, soltando uma risada anasalada ao se divertir com a indignação da investigadora.

- Fica na Rua Domingos de Morais, nº 2487, Bloco B, Conjunto 42, Vila Mariana.

- Certo. Você disse que a situação cadastral está ativa, mas isso não quer dizer muita coisa.

- Pois é. Vamos ter que oficializar isso.

- Vou expedir um ofício; quero a confirmação dessa nota fiscal pela prefeitura. Sem isso, o inquérito não se sustenta.

- Certo, vou fazer uma diligência formal e ver se consigo produzir alguma prova - disse ela, levantando-se. - Mas isso vai ficar para depois; já está tarde. Minha mãe está com as garotas, então vou para casa liberá-la.

Ela retirou o distintivo, pegou a bolsa e se dirigiu à porta.

- Vai lá! Descansa, tá? E vê se janta alguma coisa.

- Pode deixar.

 

◇◇◇◇

Era tarde da noite quando Eduarda chegou em casa; os grilos do jardim produziam uma sinfonia harmoniosa. Entrou na sala e se jogou no sofá de forma desleixada; parecia carregar o mundo nas costas.

- Minha filha, você chegou! - disse Violeta, surgindo nas escadas e caminhando até o sofá. - Fiz uma janta deliciosa e coloquei as meninas para dormir - acrescentou, acomodando delicadamente a cabeça de Eduarda em seu colo.

A ruiva percebeu o tom carinhoso, quase maternal em excesso, da mãe. Ela nem sequer havia dado sua bronca habitual pela forma desleixada como Eduarda estava deitada, como sempre fazia ao alegar os bons modos que lhe ensinara.

- Imaginei, pelo silêncio - suspirou profundamente.

- Vá tomar banho para jantar e depois durma; você está precisando descansar. Se quiser, posso ficar aqui sem problema algum, só preciso avisar seu pai.

- Não, mãe, não precisa. Sério, eu vou ficar bem - respondeu, erguendo a cabeça do colo da mãe. - Vou comer e dormir direitinho, não precisa se preocupar. E obrigada por buscar as garotas e ficar com elas.

- Não precisa me agradecer, meu amor; eu faria tudo por você e por minhas netas.

Já banhada, Eduarda comeu um pouco da janta preparada pela mãe, que depois voltou para casa.

Mais tarde, deitada em sua cama, percebeu que o vazio do quarto durante a madrugada havia se tornado rotineiro nos últimos seis meses, antes mesmo de decidir pedir o divórcio da mulher que amava...