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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-04-09
Updated:
2026-06-09
Words:
36,385
Chapters:
11/?
Comments:
14
Kudos:
89
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10
Hits:
2,742

BackStage

Summary:

A Juquinha vive sob os holofotes. A Lorena prefere o silêncio das páginas de um livro.

Quando um concerto em São Paulo as coloca frente a frente nos bastidores, o encontro começa como um simples jogo de sedução entre duas mulheres habituadas a não se envolver demasiado.

Mas segredos são difíceis de manter quando um dos lados vive diante de milhões de pessoas.

Entre rumores, fotografias roubadas e sentimentos que nenhuma das duas planeava ter, o que começou como um lance discreto pode tornar-se algo muito mais perigoso.

Algumas histórias começam no palco.

A delas começa no backstage.

Chapter 1: Capítulo 1

Chapter Text

A Lorena estava em pé diante da turma, completamente imóvel.

O silêncio que se instalara na sala não era o silêncio habitual de uma aula a começar, mas algo mais denso, mais inquieto, como se todos os alunos ali presentes estivessem à espera de que alguma coisa acontecesse a qualquer instante. Ela mantinha-se direita, com os braços relaxados ao longo do corpo e o olhar pousado sobre a turma à sua frente, sem pressa, sem qualquer sinal de irritação, mas com uma firmeza tranquila que parecia ocupar todo o espaço da sala.

Nenhum aluno falava.

Alguns mantinham os olhos fixos nela, outros fingiam olhar para os cadernos ainda em branco sobre as mesas, mas todos estavam conscientes da mesma coisa: aquela mulher jovem que estava diante deles não tinha reagido da forma que esperavam.

Minutos antes, quando a Lorena entrara na sala pela primeira vez, o ambiente tinha sido completamente diferente.

Era a primeira aula daqueles alunos no primeiro ano do ensino médio, e a sala ainda estava cheia da agitação nervosa típica de quem acabara de entrar numa escola nova. Mochilas abertas no chão, cadeiras a arrastar, vozes sobrepostas em conversas animadas e um certo entusiasmo caótico que parecia vibrar no ar. Alguns alunos tentavam parecer confiantes, outros olhavam em redor como se ainda estivessem a tentar perceber onde se encaixavam naquele novo mundo.

Quando a porta se abriu e a Lorena entrou, poucos repararam imediatamente.

Ela caminhara até à frente da sala com passos tranquilos, pousando a pasta sobre a mesa do professor antes de se virar para a turma. Foi nesse momento que um pequeno grupo de rapazes, sentado na última fila, reparou nela e trocou olhares rápidos entre si. A professora era jovem, muito mais jovem do que esperavam, e isso bastou para que o entusiasmo provocador típico da idade despertasse imediatamente.

Um deles comentou alguma coisa em voz baixa, arrancando risos abafados dos colegas. Outro inclinou-se para trás na cadeira, exagerando o gesto como se estivesse a assistir a um espetáculo particularmente divertido. O barulho aumentou ligeiramente naquela parte da sala, não o suficiente para chamar a atenção de todos, mas o bastante para deixar claro que estavam a testar limites.

Quando os olhos da Lorena se voltaram para eles, o sorriso de desafio ainda estava estampado no rosto de um dos rapazes.

- Se sentem. - Disse ela.

A voz foi calma, controlada, quase serena.

Os três rapazes olharam uns para os outros, claramente à espera de mais. Talvez um discurso sobre respeito. Talvez uma bronca. Talvez aquela tentativa um pouco desesperada de autoridade que tantos professores jovens faziam quando queriam provar que estavam no comando da sala.

Mas a Lorena não disse mais nada.

Limitou-se a ficar onde estava.

Em silêncio.

Sem levantar a voz, sem repetir a ordem, sem demonstrar qualquer pressa em retomar a aula.

F oi precisamente essa reação inesperada que começou a transformar o ambiente da sala. A ausência de confronto retirou-lhes o palco que estavam a tentar criar. O murmúrio que antes preenchia o espaço começou lentamente a desaparecer, à medida que outros alunos se apercebiam do que estava a acontecer e voltavam a atenção para a frente da sala. O som das conversas foi diminuindo, primeiro aqui e ali, depois quase por completo, até restar apenas o silêncio estranho que agora envolvia toda a turma.

Os rapazes na última fila foram os últimos a sentir o peso dele.

Um deles mexeu-se na cadeira, desconfortável. Outro desviou o olhar para a mesa, como se subitamente tivesse encontrado grande interesse no padrão da madeira. O terceiro acabou por suspirar antes de se sentar de forma mais composta, gesto que os outros dois acabaram por imitar poucos segundos depois.

Foi nesse momento que a Lorena os observou pela última vez.

Não havia triunfo no olhar dela, nem qualquer satisfação em ter vencido aquele pequeno confronto. Apenas uma calma firme, quase indiferente, como se aquilo tivesse sido apenas um detalhe irrelevante num dia que ainda estava a começar.

Quando teve a certeza de que a sala estava finalmente em silêncio, deixou que o olhar percorresse o resto da turma, demorando-se um pouco mais em alguns rostos curiosos que a observavam com atenção renovada.

Só então falou.

- Bom dia.

A voz espalhou-se pela sala com uma naturalidade tranquila que contrastava com a tensão que ainda pairava no ar.

- Eu sou a professora Lorena.

As apresentações típicas do primeiro dia acabaram por decorrer com tranquilidade. A Lorena ouviu cada aluno com atenção, memorizando nomes, rostos e pequenas pistas sobre as personalidades que teria diante de si ao longo do ano. Percebia já que aquela provavelmente seria uma turma inquieta, talvez até difícil, mas isso nunca a intimidara; sabia que, para muitos daqueles jovens, aquela sala podia ser um dos poucos lugares onde encontravam atenção verdadeira, e fazia questão de que ali encontrassem orientação, não mais um problema.

O resto da aula passou sem sobressaltos. Como naquela manhã tinha apenas aquele tempo com a turma, o período terminou depressa entre explicações iniciais e pequenos comentários dos alunos que ainda se iam habituando ao novo ritmo da escola.

Quando o toque anunciou a hora de almoço, a Lorena arrumou calmamente os papéis na pasta e saiu para o corredor já cheio do burburinho dos alunos que se espalhavam pela escola, atravessando aquele movimento habitual até chegar à sala dos professores.

Assim que abriu a porta, o ambiente mudou. O espaço era mais tranquilo, marcado pelo cheiro familiar de comida aquecida e pelo som constante do micro-ondas a trabalhar, intercalado com conversas baixas entre colegas espalhados pelas mesas.

Foi então que os seus olhos encontraram imediatamente duas figuras que conhecia demasiado bem.

Perto do micro-ondas, de pé enquanto esperavam que os almoços aquecessem, estavam a Maggie e a Vivi.

A Maggie gesticulava enquanto falava, claramente no meio de alguma história animada, enquanto a Vivi, encostada ao balcão, a ouvia com um sorriso tranquilo que parecia quase permanente no seu rosto. O micro-ondas zumbia atrás delas, rodando lentamente um recipiente de vidro de onde começava a escapar o cheiro de comida acabada de aquecer.

A cena tinha algo de profundamente familiar.

Aquelas pausas de almoço, aquelas conversas atravessadas entre histórias, provocações e risos, já faziam parte de uma rotina antiga entre elas.

Assim que a Lorena entrou na sala dos professores, as duas levantaram os olhos quase ao mesmo tempo.

A Maggie abriu imediatamente um sorriso largo.

- Finalmente. - Disse, abrindo os braços antes de lhe dar um abraço rápido, natural.

A Vivi observou a cena com o mesmo sorriso tranquilo, apoiada no balcão enquanto o aroma de comida aquecida continuava a espalhar-se pelo ar e as vozes baixas de outros professores preenchiam o espaço.

A sala tinha a atmosfera típica da hora de almoço: conversas dispersas entre mesas, talheres a bater ocasionalmente contra recipientes de plástico e a luz branca que entrava pelas janelas a refletir-se nas superfícies claras.

Quando Maggie se afastou do abraço, o brilho animado no olhar denunciava imediatamente que ela tinha alguma coisa em mente.

- Ainda bem que você chegou. - Disse, apoiando o cotovelo no balcão enquanto olhava para a amiga com expectativa. - Eu tenho um convite pra te fazer.

A Lorena pousou a pasta numa das mesas e aproximou-se delas, ainda com o corpo ligeiramente relaxado depois da aula da manhã, enquanto retirava a marmita da mala.

- Isso raramente termina bem. - Comentou, com um leve sorriso.

A Maggie ignorou o aviso com naturalidade e continuou, visivelmente entusiasmada.

- Sexta-feira vai ter um show aqui na cidade. A cantora é de São Paulo, a gente cresceu juntas, tipo amigas de infância mesmo, e até hoje a gente se fala bastante. Ela me mandou cinco ingressos VIP, com acesso ao backstage e tudo.

Ao lado dela, a Vivi levantou as sobrancelhas com um ar genuinamente impressionado.

- Cinco?

- Na verdade, ela me convidou e eu perguntei se podia levar o meu grupo de amigos. Expliquei que são quase família e ela concordou. – Explicou a Maggie com orgulho.

Depois voltou o olhar para a Lorena, como se aquilo fosse um convite impossível de recusar.

- Já falei com o Leo e a Vivi, que concordam, o Junior obviamente também vai, então você vai com a gente.

A reação da Lorena não correspondeu minimamente à expectativa.

Enquanto a Maggie terminava de explicar, ainda animada, a Lorena limitou-se a abrir a marmita com a mesma tranquilidade despreocupada que mantinha desde que tinha entrado na sala. O cheiro leve do almoço escapou no ar assim que levantou a tampa, misturando-se com os aromas que já preenchiam o espaço, arroz aquecido, molho de tomate, legumes salteados, tudo envolvido pelo zumbido constante do micro-ondas que alguém tinha acabado de libertar.

Sem pressa, colocou o recipiente lá dentro e carregou no botão, deixando que a caixa começasse a rodar lentamente atrás do vidro opaco enquanto o aparelho emitia o seu som grave e contínuo. Só então respondeu, com uma serenidade quase distraída, como se a questão não tivesse qualquer peso real.

- Não posso.

A reação da Maggie foi imediata. O entusiasmo no rosto dela transformou-se num franzir de sobrancelhas carregado de incredulidade.

- Como assim não pode?

A Lorena manteve-se encostada ao balcão, os braços pousados de forma relaxada, observando o movimento hipnótico da marmita a girar no interior do micro-ondas.

- Já tenho planos pra sexta-feira.

Ao lado delas, a Vivi cruzou os braços com curiosidade, inclinando ligeiramente a cabeça.

- Que planos?

O sorriso que surgiu no canto da boca da Lorena foi pequeno, mas carregado de um ar divertido que denunciava que a situação lhe parecia bastante mais simples do que às amigas.

- Vou sair. - Explicou, com naturalidade. - Com uma loira que tá claramente caidinha por mim.

A gargalhada curta da Maggie escapou antes que ela conseguisse evitar.

- Você tá recusando ingresso VIP pra um show por causa de um engate?

A Lorena deu de ombros, ainda tranquila, como se aquilo fosse perfeitamente lógico.

- Há semanas que estou dando em cima dessa garota. - Respondeu. - E sinceramente não acho que trocar isso por um show pop seja uma decisão muito inteligente.

A Maggie ficou a observá-la por um instante, com o olhar conhecedor de quem já sabia perfeitamente como funcionava a mente da melhor amiga, mas ainda assim parecia pouco convencida.

- Você nem sabe quem é a cantora.

- Não preciso saber.

A Vivi, que até então tinha assistido à conversa em silêncio, divertindo-se com a previsibilidade daquela discussão, acabou por intervir com um sorriso curioso.

- É a Eduarda Fragoso.

A Lorena virou ligeiramente a cabeça.

- Não conheço.

- Conhece sim. - Disse a Vivi, já a pegar no telemóvel. Desbloqueou o ecrã com rapidez e abriu o Spotify, deixando que uma das músicas começasse a tocar em volume baixo. A melodia encheu o pequeno espaço entre elas com uma batida pop suave e uma voz feminina clara que parecia familiar demais para ser completamente nova.

A Lorena ouviu alguns segundos, reconhecendo a canção quase imediatamente.

- Ok, já ouvi algumas músicas dela no rádio. - Admitiu, embora o tom continuasse indiferente. - Continuo sem querer ir no show.

A Maggie estreitou os olhos, como se estivesse prestes a usar o argumento final.

- Ela é assumidamente lésbica.

A sobrancelha da Lorena arqueou-se ligeiramente, mas manteve-se em silêncio.

A Maggie aproximou-se ainda um pouco mais, agora com um brilho malicioso no olhar.

- E o público vai estar cheio de mulheres sáficas.

A Vivi riu-se baixinho ao lado dela, abanando a cabeça.

- Muitas delas provavelmente bem interessantes.

A Maggie inclinou a cabeça, observando a amiga com atenção enquanto o micro-ondas continuava a rodar atrás delas e o aroma do almoço aquecido se espalhava lentamente pela sala.

- Eu tenho quase certeza que mais de uma vai ficar interessada em você. - Continuou, com um sorriso provocador. - Já pensou na quantidade de contatos que você pode conseguir nesse concerto?

Por um momento, a Lorena manteve o olhar fixo no micro-ondas, onde a marmita continuava a girar lentamente enquanto o cheiro do almoço começava a espalhar-se pelo ar. Parecia ponderar a informação com uma seriedade quase exagerada, como se estivesse realmente a pesar todos os argumentos.

- Tá bom.

A Maggie ergueu as mãos num gesto vitorioso.

- Eu sabia.

A Lorena abanou ligeiramente a cabeça, enquanto o micro-ondas apitava atrás dela.

- Espero sinceramente que esse show valha a pena.