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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-04-04
Updated:
2026-07-07
Words:
60,567
Chapters:
22/?
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93
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250
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10
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6,126

Quinto Andar

Summary:

Uma mudança barulhenta e um gato mal humorado.

Chapter 1: Meu mundo tá fechado pra visitação

Notes:

oiiii! boa leitura! :)

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

7h45 da manhã, sábado


 

  O barulho que vinha do corredor mais parecia vir de uma zona de guerra do que de uma simples mudança. As regras eram claras, sem mudanças antes das nove horas da manhã, mas, aparentemente, o novo vizinho tinha decidido ignorar qualquer resquício de civilização e cordialidade quando decidiu se mudar às sete e quarenta e cinco da manhã de um sábado, nem chegou e já acabou com qualquer chance de uma boa convivência, pensou Eduarda, ainda desorientada pela maneira abrupta que foi acordada em pleno sábado de manhã.

  Na reta final da faculdade de direito, aproveitava qualquer oportunidade de descanso e esse fim de semana, em específico, seria um cenário perfeito, tinha acabado de entregar os últimos trabalhos do período e concluído os estágios obrigatórios, portanto, completamente sem pendências até, pelo menos, a próxima semana, seus planos eram passar esse fim de semana reclusa e dormir até quando acordasse ou até que Bóris decidisse que ela deveria acordar, planos esse que foram interrompidos antes mesmo das oito da manhã pela simulação de apocalipse vinda do corredor. Grunhiu e colocou um travesseiro no rosto, naquele momento xingou as próximas três ou quatro gerações da fonte do barulho, o novo vizinho. 

  Bóris, ao perceber a movimentação, levantou, bocejou e caminhou preguiçosamente até perto da mulher. – Tá cedo, né, filho? - Disse Eduarda fazendo carinho na cabeça do gato que parecia tão confuso quanto ela mesma. – Uma falta de respei- Antes que pudesse terminar de verbalizar a indignação, a campainha toca, assustando o gato e a própria Eduarda. Não é possível, pensou a ruiva, já levantando sem a menor paciência. Nem se preocupou em ajeitar o cabelo ou trocar de roupa, o infeliz que tocava companhias às quinze para oito da manhã não merecia civilidade. 

  – Ai, meu Deus! Me desculpa, - Antes mesmo de abrir a porta, a morena já estava se desculpando - bati sem querer na sua campainha. - Eduarda havia encontrado o causador, ou melhor, causadora da desordem da sua manhã de sábado, estava de cara com ela nesse momento, focalizando os olhos verdes e alegres demais para o horário, o sorriso fácil e um pedido de desculpas que não ia devolver suas horas de sono perdidas. – É que eu tô me mudando pro apartamento da frente, mudança dá trabalho, desculpa o incômodo, de verdade. - A morena disse de maneira sincera mas Eduarda, e o gato sentado entre seus pés e o batente da porta, não se importavam muito com a sinceridade do pedido de desculpas. – Não te avisaram que mudança só depois das nove? - Ela disse, soando ríspida demais, fosse a rouquidão da manhã ou toda a situação. – Ah, mas é que eu não tenho tanta coisa, quis acabar logo com o transtorno. - A morena tentou se justificar mas Eduarda a interrompeu. – Tá lá no manual do condômino, você provavelmente recebeu quando assinou o contrato, se não leu, deveria. - E fechou a porta na cara da morena, que ficou parada por alguns segundos mas não se deixou abalar, voltou a focar em sua mudança.

  Seguiu para a cozinha, Bóris a seguindo a passo lento. Como já tinha acordado, iria começar o dia e tentar esquecer o incidente, o que provavelmente seria difícil, visto que o barulho continuava porta afora.

   Tomou um café simples ao lado do gato, que tentava de todo modo roubar um pedaço do ovo mexido de seu prato, mesmo já tendo tomado seu próprio café. Vestiu uma blusa colada, própria para exercício físico, calças leggings e seu tênis de corrida e decidiu dar uma caminhada pelo bairro mesmo, aproveitaria para passar no mercado e comprar algumas coisas para o fim de semana, depois de semanas intensas onde praticamente viveu no prédio de direito da USP e voltou para casa apenas para dormir, precisava repor alguns mantimentos.

  Saindo de seu apartamento, a porta do apartamento em frente estava escancarada, aproveitou o corredor momentaneamente vazio e deu uma olhada para dentro do imóvel que tinha a mesma configuração do seu próprio apartamento mas um cenário de caixas, plástico bolha e algumas embalagens espalhados pela sala do local. Sem sinal da morena, ótimo, pensou Eduarda, durante o café tinha chegado a conclusão que tinha sido um pouco grossa com a nova vizinha e não queria ter que encontrar ela naquele momento, estava um pouco envergonhada da sua versão de uma hora atrás, por mais que culpasse a mulher, decidiu que não era justo dar boas vindas dessa maneira. Até que encontrasse uma maneira de se desculpar, manteria distância. 

  Caminhou dois quilômetros, passou no mercado, comparou preços de amaciante, decidiu que iria levar o mais cheiroso sem se importar com o preço, ponderou o que poderia comer na janta, decidiu que era um problema para a Eduarda do futuro, passou no corredor de itens para pets e colocou três pacotes de sachê de atum no carrinho, fez uma nota mental de explicar para Bóris que só tinham atum no mercado e não salmão, que era o que ele costumava comer e voltou para casa com duas sacolas em cada mão. 

  Quando as portas do elevador se abriram, o corredor já estava em ordem e o silêncio reinava novamente. Enquanto buscava a chave da sua porta na ecobag que carregava, notou um papel dobrado em seu tapete de boas-vindas, que não dizia boas-vindas e sim a frase I hope you like cats em letras garrafais, se abaixou para pegar o papel e percebeu que se tratava de um bilhete, uma caligrafia bonitinha e redonda, letra de professora, pensou Eduarda. 

 

Oiii, peço desculpas pelo barulho e pelo transtorno de mais cedo. Já terminei a mudança, juro que sou uma ótima (e silenciosa) vizinha.

Lorena. :) 

 

  Entrou no apartamento equilibrando as sacolas e o bilhete na mão, colocou as sacolas no balcão e focou no bilhete, não se deixou levar. Revirou os olhos para o bilhete e o jogou no balcão junto, focada em guardar as compras. – Sabe, Bóris, as regras existem por um motivo, e quando você decide se mudar pra um lugar que é técnico público, o mínimo que você precisa é entender o básico das normas de convivência do lugar e não fazer besteira e ficar deixando bilhetinhos bonitinhos nas portas dos outros. - O gato, que subiu no balcão com o objetivo de fuçar as compras, foi a vítima do monólogo de Eduarda. – O ato até que foi bonitinho mas se eu só aceitar e dar por desculpada, ela nunca vai aprender. - Falava enquanto abria os armários e a geladeira para guardar os itens. – E é por isso, Bóris, que eu não vou falar nada. Bem vinda, Lorena. 

 

Notes:

@stnninglyhauntd pra quem quiser me seguir na rede social do falecido passarinho