Chapter Text
“Gostaria que o Cão de Caça estivesse aqui” pensou Sansa arrumando-se para o casamento de Joffrey e Margaery. Não conseguia parar de pensar na noite da batalha, Sandor Clegane viera aos seus aposentos para levá-la da cidade, mas Sansa recusou. Perguntava-se se teria feito bem e em onde estaria agora se tivesse tido a coragem de partir. Havia escondido o manto branco e manchado de sangue do Cão de Caça em uma arca, por baixo de suas sedas de verão. Não saberia dizer por que o guardava, havia murmúrios pelo castelo de que a covardia do Cão de Caça tinha sido a causa da quase morte do marido. Apenas Sansa conhecia o segredo, o único medo por trás de seu rosto queimado. O fogo. Naquela noite, o mundo ardia em tons de escarlate, e cinzas, e sangue, e morte... “Sou uma tola por ter esses pensamentos”, ela pensou que provavelmente teriam sido capturados e suas cabeças estariam agora em espigões no alto da muralha de Maegor. Se tivessem conseguido, certamente ele já teria feito as coisas mais odiosas, Sansa nem podia imaginar. “Pelo menos aqui, casada com Lorde Tyrion estou protegida, e o melhor, ele não me toca.” Em Porto Real era uma cativa desde o dia da prisão do pai, sendo-lhe permitido muito pouco nos anos que se seguiram. Seus dias desde o casamento com Tyrion resumiam-se a andar pelo grande salão, visitar o septo e encontrar Sor Dontos junto ao Jardim Sagrado, mas frequentemente mantinha-se em seu quarto, onde seu marido nunca estava e raramente se encontravam à noite. Normalmente ele voltava muito depois que ela havia dormido, ou ele achava que sim. Trocavam algumas palavras amigáveis e polidas, afinal “a arma de uma dama é a sua cortesia” e assim Sansa sobrevivia, um dia de cada vez.
Sor Dontos lhe avisara que a fuga de Porto Real seria no dia do casamento do Rei, mas não tinha dado detalhes ou mesmo combinado um sinal para que ela soubesse quando deveria agir. Havia recebido um bilhete por baixo da porta assim que Tyrion saíra do quarto pela manhã “se quiser ir para casa, vá ao bosque sagrado durante o casamento”. Isso a preocupava mais que tudo, as chances desta manobra dar errado eram enormes e ela ainda não sabia quem era o benfeitor misterioso.
Já estava pronta quando seu marido entrou no quarto, colocou o vestido que a Rainha enviou e a rede de pedras escuras que Sor Dontos insistiu para que usasse especialmente nesta noite.
- Está pronta minha Senhora? Tyrion perguntou ainda arrumando sua capa, a mesma parecia ter sido feita sob medida, mas ainda tinha alguma coisa de desajustada ao tamanho dele. Quando olhou para Sansa parecia inebriado com tanta beleza, ela se tornara uma mulher casada, mas ainda conservava a doçura e inocência naquele covil de monstros.
- Estou - Respondeu percebendo o olhar desejoso dele – estou bonita meu senhor?
- A mais bela dama desta corte, mas não diga a Joffrey que disse isso ou nossas cabeças estarão no alto da muralha ainda antes do jantar.
Ela riu para ele sem graça, ainda que fosse muito gentil e polido, era um Lannister e apesar de suas diferenças com a irmã e o pai, ela sentia que não podia confiar nele, não como amigo ou confidente.
No caminho para o septo pensou no pai e na mãe, em como o seu casamento tinha sido um arranjo de conveniência e não de amor. Mesmo assim eles haviam encontrado um meio, acreditava que se amavam, eram confidentes e se respeitavam. Lembrava que o pai era sempre carinhoso e tinha uma palavra de afeto e a mãe era gentil e leal, fazia-lhe todas as vontades.
Quando chegaram ao septo não pode deixar de notar a força e o poderio de Jardim de Cima, as mulheres estavam todas enfeitadas em flores douradas e sedas finas, os homens estavam em seus melhores veludos e ricos adornos de gibão. Cersei, porém reluzia em tons de carmim e dourado, certamente a mulher mais bonita que já vira, mas não mais do que Margaery.
A cerimônia foi breve, graças aos Deuses, se tudo corresse bem, antes do nascer da lua estaria longe do castelo e dos Lannister. Tinha certa culpa em deixar Tyrion para trás, ele decididamente não era igual a seu pai e irmãos. Tenho que ser corajosa, corajosa, corajosa. Repetia para si mesma como um mantra.
O banquete era sem dúvida uma demonstração de riqueza, os Tyrell fizeram questão de expor todo o requinte de Jardim de Cima. Apesar de estar atenta aos acontecimentos, tudo mudou muito rápido, num minuto estava aturando a humilhação de Joffrey para consigo e seu marido e no outro a confusão e o terror instalaram-se diante de seus olhos.
- Senhora, é melhor retirar-se – disse Shae, sacudindo-a pelos ombros, tirando-a de seu torpor.
Sansa pôs-se em pé mecanicamente e saiu, aparentemente sem que ninguém notasse, visto que todos rodeavam o Rei que jazia no chão do grande salão tossindo e arranhando a pele de seu pescoço.
Quando se viu livre dos olhos curiosos, começou a correr. Correu pelos pátios e passagens até chegar ao jardim sagrado. Quando parou ao lado da árvore coração estava com a respiração pesada. Lembrou-se da continuação do bilhete que recebera esta manhã. Use roupas escuras e quentes.
Olhou em volta para se assegurar de que não havia ninguém, despiu-se e tirou debaixo de um banco de pedra as vestes que trouxera de Winterfell, escuras e quentes. Havia deixado também meias, botas e um saco com moedas, que pediu ao marido sob o pretexto de comprar um vestido novo, poções e unguentos retirados do armarinho da senhora Tanda e as pequenas joias nortenhas dadas por seu pai, todas com o símbolo do lobo gigante. Seu destino era incerto e queria estar preparada para tudo.
Vestiu-se o mais rápido que conseguiu e soltou os cabelos da rede.
- Doce Jonquil, seu Florian está aqui – Ela reconheceu a voz, estava bêbado como sempre – que bom que conseguiu vir minha doce criança, temos de nos apressar.
- Para onde vamos?
- Apenas siga-me em silêncio e verá. Sor Dontos começou a descer as escadarias que davam para o pátio interno da Fortaleza de Maegor, onde frequentemente fingia ver Joffrey e seu cão treinarem, na verdade a única coisa em que podia pensar era na segurança de seu lar.
Amarrando a pequena bolsa a sua cintura e pegando a sua capa verde escura, teve tempo apenas de enfiar o vestido de festa e a rede de cabelo dentro de um tronco oco de uma das árvores do bosque. Saiu atrás do bobo depressa.
Atravessaram o pátio e entraram por uma porta escondida no muro lateral, algo que ela nunca tinha reparado, apesar de já ter passado por ali diversas vezes. A abertura era coberta por plantas que pendiam de dentro das pedras parecendo uma imensa cabeleira que às vezes dava uma florzinha branca que chamavam morbidamente de flor esqueleto por ficar quase transparente em contato com a chuva.
Quando se viu do outro lado, estava fora das muralhas da fortaleza, se desse um passo adiante cairia num precipício. O sol já estava se pondo e sem luz seria impossível esgueirar-se pelo caminho estreito que se abria à sua direita.
- Escute-me bem agora. Você vai descer por este caminho até o final. Antes de chegar ao portão nosso amigo estará esperando-a - Sor Dontos sussurrou para ela.
- Não sei se consigo. É muito estreito e como vou reconhecer este homem misterioso? - Ela choramingou.
- Seja corajosa agora minha pequena Jonquil, vá, vá depressa! - Tentou dar-lhe um beijo, mas Sansa foi mais rápida e virou o rosto a tempo de sentir apenas um bafo de vinho na bochecha.
- Adeus Sor Dontos e obrigada por ser meu amigo. Meu único amigo, pensou pondo-se em marcha.
Andou o mais rápido que pode, mas suas pernas estavam trêmulas e teve medo de que elas a traíssem. Seja corajosa sua tola, seja uma Stark. Havia uma curva para a direita onde a espiral se transformava num caminho largo cheio de pilares espaçados na muralha. Estarei exposta quando chegar ao final deste caminho e não há ninguém esperando - pensou.
Quando ia entrar em pânico, viu um cavalo à distância, era uma besta negra e enorme, parecia equipado para uma guerra, ou uma longa jornada – pensou. Começou a correr na direção dele, quando chegou bem perto diminuiu o ritmo, não queria assustá-lo e arriscar ser pega em fuga. Justamente quando ela se preparava para abordar o animal sentiu um puxão em sua cintura, mãos enormes sugaram-na para a escuridão atrás de um pilar. Quando conseguiu olhar para cima, quase não pode acreditar no que via. Percebeu que estava salva, finalmente ficaria bem.
