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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-01-17
Words:
4,600
Chapters:
1/1
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5
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17
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135

Pequenas Ofensas

Summary:

Dois poderosos cavalheiros se envolvem em uma disputa apaixonada pelo coração da cobiçada senhorita da família Firmino, Maria do Socorro. No entanto, à medida que o jogo de sedução se intensifica, ambos descobrem que o verdadeiro prêmio nunca foi ela.

Notes:

Essa história, inicialmente, foi publicada no Wattpad com o mesmo título no perfil MonroeAuthor. Decidi, então, expandir para esta plataforma também ;) Espero que gostem!

Work Text:

É uma verdade universalmente conhecida que um homem de grande fortuna deve estar, certamente, em busca de uma esposa... ou mais ou menos isso.

Da família de seis irmãs da Senhora Firmino, era a filha mais velha, Maria do Socorro, que atraia a atenção de toda a pequena cidade Pingo de Mel. Suas outras irmãs, tão lindas quanto aptas e bem educadas, frequentemente, apesar dos esforços, eram deixadas de lado, o que as torna, naturalmente, indignas de atenção especial até mesmo nesta narrativa.

A fama de Maria, no entanto, não teve seu mérito apenas por causa da sua beleza sublime, com seus longos cabelos loiros, olhos verdes e lábios cheios, características as quais somadas com a riqueza do pai, naturalmente atrairiam os solteirões interessados em um casamento duplamente vantajoso, ou mesmo por ser prendada, com habilidades distintas de costura e de pintura aperfeiçoadas em rotinas rigorosas que substituíam o ócio de moças de sua classe social, e, sim, pelo constante e espirituoso combate entre os seus dois maiores pretendentes conhecidos.

O primeiro entre eles era o respeitável e deslumbrante oficial Martin Argen Hernandez, único filho homem do grande comerciante estrangeiro Pietro e, portanto, o único herdeiro de uma fortuna invejável, da qual sua irmã, pelas regras do século, receberia pouco ou quase nada. Pietro era conhecido, principalmente, pelo espantoso número de empregados os quais era capaz de manter em suas vastas terras, extravagante estilo de vida que, com efeito, era um sintoma hereditário passado de pai para filho.

Martin Hernandez tinha não uma, mas três carruagens próprias, e morava em uma enorme casa no campo com um total impressionante de uma dúzia de empregados apenas para suas próprias necessidades. Sobre sua aparência, é dito que era capaz de arrancar suspiros até mesmo da jovem mais fechada e dada à discursos contra casamentos. Adornando o caráter, o profissionalismo, acompanhava-o uma beleza etérea, angelical, com cabelos dourados e uma alvura na pele que assemelhava-se a um belo lírio de floragem recente.

Não menos impressionante, o segundo pretendente não ficava atrás nem em termos de aparência, tampouco de riqueza. Luciano Brasil, em todos os quesitos, era um combatente digno.

Sob a exuberante pele cor de ébano e cabelos escuros, fervia um homem de negócios ambicioso que era conhecido por fazer seus melhores acordos em campos de tiro ao ar livre. Era tão exigente em seu ofício quanto aos próprios luxos e desejos, e não media esforços para nenhum dos dois. Ao passo que Hernandez exalava um tipo pureza que convida como plumas arrastando na pele, tal como asas de uma cotovia se arrastam sobre a água plácida, Brasil parecia um tipo de armadilha que não oferecia aviso a quem se metesse com ela. Era, exatamente, o tipo que faria uma moça sensata refletir antes de ousar se oferecer à sua vista, mas que a faria ir mesmo assim, mesmo contra os protestos e conselhos mais sábios de uma mãe, atraida pelo seu sorriso e pela lábia que quebrava até mesmo as mais sólidas barreiras de intransigências.

Muito já é evidente, portanto, que as divergências entre os dois pretendentes não paravam apenas nas aparências. Suas ocupações, maneirismos, profissões e até mesmo vidas íntimas eram absolutamente opostas uma da outra.

Se por um lado temos Martin, querido conhecido de senhoras mais velhas, que era preso às conveniências e às restrições do século, respeitoso à doutrina religiosa e cuidadoso com o nome da própria família, do outro temos Luciano, conhecido pela sua completa depravação e rico demais para se importar, que usava, com confiança, o próprio nome e fortuna para desviar as atenções da sua má conduta moral.

Martin Hernandez foi o primeiro pretendente a se colocar no jogo. O seu interesse por Maria foi recebido com tanta naturalidade que a notícia ferveu por uma só semana antes que sucumbisse e desse lugar à outra nova fofoca mais escandalosa.

Muitas pessoas já apostaram naquele casal desde a festa religiosa do Sagrado Coração. Martin e Maria passaram bastante tempo juntos, e no dia seguinte foi só o que foi comentado por todos os cantos, afinal, em termos de aparência e posses, um atendia ao outro em um encaixe abençoado por Deus antes mesmo do matrimônio.

Luciano é que não estava nos planos de ninguém, nem mesmo da senhora da casa ou a própria Maria, que ficaram tão perplexas com a visita repentina do rapagão numa tarde nublada no meio da semana, bem vestido e com um grande buquê de flores e presentes em mãos, que, de início, mal souberam agir.

***

Começou-se, então, uma disputa que em pouco tempo ficou grande demais para que ficasse visível apenas dentro da casa da Senhora Firmino.

O que antes começou com sutís violações que Martin, muito bem orientado, entendeu serem ofensas de um rival que entrou em jogo sem intenção de manter a disputa pacífica, pois Luciano, já no começo, passou a deliberadamente desrespeitar os horários das visitas, começou a ficar evidente a todos os olhos quando os três passaram a sempre aparecer juntos num mesmo ambiente, pois Martin, embora fosse um homem sensato, não tomava desrespeito sem, pelo menos, devolver na mesma moeda.

Se no início todos começaram torcendo por Martin, que naturalmente parecia o pretendente mais apropriado para uma moça como Maria, as opiniões começaram a oscilar em pouco tempo.

As senhoras mais velhas se posicionaram firmemente à favor de Martin, que, na opinião delas, seria o tipo de marido ideal que conseguiria conciliar sem dificuldades o trabalho e as obrigações religiosas com as delicadezas domésticas que se espera de um marido sensível às necessidades de sua esposa. Os homens, por outro lado, se entusiasmavam mais com Luciano, que, com sua fama de firmeza e ''modos de homem'', acreditavam que era exatamente o tipo de homem capaz de comandar uma casa e colocá-la nos eixos, pois, além de rico, tinha um pulso firme, características essas que a delicadeza de Martin, acreditavam eles, arruinava.

Era comum ver os três caminhando juntos em tardes ensolaradas no mês de agosto. Maria, com seu lindo e distinto guarda-chuva de renda grossa e branca, vestido longo, luvas brancas de renda delicada e seios metidos em um decote que escondia os preciosos montes com castidade, e os dois cavalheiros ao seu lado, igualmente bem vestidos com roupas impressionantes com detalhes em ouro, parecendo travar uma disputa discreta que colocava em jogo a riqueza e senso de moda melhor.

Diferentemente do que todos pensavam, Martin não detestava Luciano apenas por ele se meter na sua conquista à senhorita da casa Firmino. Foi, principalmente, depois de uma conversa espirituosa que tiveram longe da vista de todo mundo, lá no início, quando o loiro ficou perturbado com súbito interesse do cavalheiro da família Brasil na senhorita que, antes, ele nunca tinha sequer o ouvido mencionar sobre.

— Veja, meu caro... – Luciano o disse. — Amor não me interessa. Já o provei tantas vezes que tornou-se insosso e desinteressante. Para mim, mulheres são todas iguais e, por isso, venero todas igualmente. A senhorita Firmino não é exceção. Eu a amo como igualmente amo todas as suas outras cinco irmãs e todas as lindas moças da sociedade, no entanto, começo a reconhecer que estou em idade de me casar. Diante de todas essas rosas bonitas que brotam docemente diante de meus olhos, a senhorita Firmino é a que tem a haste mais brilhante, de ouro, e é por isso que é a mulher ideal para mim.

Martin ficou tão aflito com as palavras que apalpou instintivamente a cintura atrás de sua pistola antes de questionar com fervor de exigência:

— Quer casamento com a senhorita por dinheiro?

— Efetivamente.

— Mas eu a amo! É a mais bela moça que já vi!

— Não é problema meu. – Luciano, que não parecia ter nada atrás dos seus olhos quando falou aquilo, abriu um sorriso desagradável. — É a senhorita quem vai decidir.

Só que Martin estava errado quando pensou que naquele dia só ele conseguiu entender mais sobre o caráter de Luciano.

Luciano, que era astuto como uma serpente, entendeu perfeitamente que, para ter vantagem sobre o loiro, precisava perturbá-lo para quebrar a sua fachada de santo e, assim, dedicou-se a não somente a fisgar o coração de Maria como, também, a quebrar o do seu rival.

Todos os dias, nos passeios à três, puxava-o de lado e sussurrava os mais absurdos comentários sobre a moça e, com prazer, se deliciava com a forma como o rosto do loiro ficava vermelho e sua expressão torcia de crua fúria. Na mesma proporção que era detestável com Martin, contudo, era amável com a senhorita, e essa dissimulação descarada, e até mesmo ofensiva, irritava o loiro tanto que assistí-lo se conter era infinitamente mais prazeroso para Luciano que ouvir as futilidades que vinham dos lábios de Maria.

O dia que as coisas escalaram para um nível que ceifou de uma vez qualquer rastro de civilidade que ainda podia existir entre eles não ficou conhecido por ninguém além dos dois e, pelo menos, três criados de confiança de Luciano.

Não satisfeito com os comentários repugnantes sobre a moça que era fonte do afeto do loiro, Luciano fora visto em uma taberna com outra mulher, ameaçando não apenas a própria reputação, mas também a de Maria, que viraria motivo de zombaria caso a notícia se espalhasse, e poderia torná-la vítima fatal de uma farsa de amor descoberta. Cego de ódio, Martin invadiu a propriedade de Luciano e decidiu o enfrentar diretamente.

Chegou lá como um touro buscando o pano vermelho para atacar e encontrou Luciano na varanda de pedra de seu extenso jardim, recarregando uma espingarda de caça enquanto ele e seus companheiros se divertiam atingindo alvos posicionados à certa distância.

Martin, que foi ao local armado com sua pistola, que também era companheira fiel, apontou, sem pensar além do seu ódio, a arma na direção do seu rival e, em resposta, três canos de espingardas foram apontados em sua direção prontamente pelos companheiros do outro.

Houve uma troca ardente de olhares entre os cavalheiros, que não saberiam dizer por quanto tempo durou. De um lado, faíscas de mágoa, repugnância e raiva jorravam furiosamente dos olhos de Martin e, do outro, um tipo de sadismo perverso exalava de Luciano em ondas, que diante da vantagem absoluta, abriu uma curva suja, desafiando o outro a fazer alguma coisa.

Martin, vermelho como um ferro aquecido tempo demais, a respiração ofegante de um animal, ficou logo consciente da desvantagem e abaixou a arma. Nesse momento, sem se importar o mínimo o que uma atitude como aquela refletia no seu caráter, Luciano ergueu a própria espingarda e apontou para o loiro, aguçando a visão em sua direção.

Martin ficou paralisado sob a mira de quatro armas, diante do seu rival indigno que havia apenas esperado sua desvantagem absoluta para se aproveitar dele. Se atirasse, Luciano poderia alegar legítma defesa, tendo em vista que o loiro quem invadiu sua propriedade e o ameaçou primeiro, e Martin, sendo um oficial, estava consciente.

Luciano engatilhou a arma, ajustou melhor a mira e o som estridente de disparo ecoou pelo campo, acordando bruscamente os pássaros dos seus descansos nas árvores e fazendo-os se espalhar no céu azulado para se salvarem.

O loiro soltou o ar, trêmulo, aterrorizado.

Virou o rosto e, ao seu lado, viu um pequeno rastro de fumaça saíndo do tronco de uma árvore que estava perto de onde estava.

Diante do seu horor, Luciano riu e Martin, por fim, deu-se por vencido.

Mas prometeu a si mesmo que não deixaria as coisas ficarem como estavam.

***

A disputa entre os dois homens ficou mais acirrada.

O loiro tentou persuadir a mãe da senhorita a recusar para sempre os avanços de Luciano, entretanto, todos seus argumentos eram vencidos por outros e todas as suas denúncias da má conduta alheia eram entendidas como um ataque de um rival à outro, o que tornou inútil falar a verdade.

No dia de passeios à barco no grande lago no centro da cidade, o conhecido triângulo amoroso estava lá à vista de todos, atraindo atenção de curiosos sem nem ao menos se esforçar.

Ouviam-se comentários de senhoras interessadas em casamentos, de senhores interessados em fortuna e das moças que lamentavam que a atenção de dois homens tão bonitos e cheios de posses estivessem em uma só senhorita que sequer parecia dar-lhes o reconhecimento que mereciam, constatação essa que parecia não ser apenas das mais novas.

Muito já se comentava sobre a evidente indiferença da senhorita da família Firmino sobre seus pretendentes. Não parecia ter preferência maior sobre um ou outro, usufruia-os igualmente, sem parecer disposta a livrar-se de nenhum.

O ponto é que Maria realmente não tinha planos de se desfazer de nenhum dos dois. Com estratégias e pretextos sutís, encorajava a competitividade entre eles e, com prazer, aceitava suas atenções como uma deusa paparicada por súditos.

Se com uma mão oferecia, com a outra tirava, e fazia o mesmo jogo com os dois, ora favorecendo um, enraivecendo o outro, ora agindo com atitudes completamente contraditórias. Gostava da disputa, de colocá-los um diante do outro como galos de briga para disputar pelo prêmio maior: seu coração.

Justamente por ser o prêmio da disputa acalorada, agia como um. Retorcia, esticava e irritava os concorrentes de propósito como uma deusa que tinha o poder de derrubar um prisoneiro com o polegar, fazia isso na mesma medida que os agraciava com o sutil deslumbre da doce perspectiva do futuro do ganhador e, assim, com cinismo, agindo como tola e fingindo não notar que era constantemente subestimada pelos dois, mantinha-os sob controle.

Observou-os de perto por semanas e, na verdade, sentia que nenhum dos dois a amava de verdade. Se de um lado, Martin parecia obcecado pela sua aparência, Luciano não escondia seu interesse inteiramente financeiro naquela disputa, e essa hipótese só se confirmou mais quando as disputas entre os dois homens aumentou e ela virou personagem secundária numa história na qual ela deveria ser a protagonista.

No dia do passeio de barco, era o dia de agraciar Martin com suas atenções essenciais e colocar Luciano de lado apenas o suficiente para que ficasse aborrecido, mas não muito para o fazer ir embora. Tudo corria bem, mas, ela notava, a tensão entre os dois cavalheiros estava maior que nunca.

Em certo momento, o acordo de mútua indiferença, no qual os dois não reconheciam um ao outro, foi rompido quando Luciano, impaciente, parou o barco no meio do lago e Maria, como sempre, assistia tudo com um quê de vaidade recompensada, protegida do sol, e abanava o rosto com um leque adornado por plumas.

Luciano, que já tinha feito muito até então, exigiu que Martin continuasse no trecho de volta e começou, então, uma discussão fervente que chamou a atenção de todos que estavam ao redor e que se esforçavam em cuidar da própria vida mesmo próximos de uma fonte tão rica de fofoca para o resto do mês.

O loiro, para o choque de todos que o reconheciam pela sua paz plácida de espírito, agarrou furiosamente um dos remos quando brandou:

— Certo! Irei me comprometer a levar a senhorita de volta, mas minha gentileza não se estende a você!

E, em seguida, derrubou Luciano dentro da água com solavanco que fez todo o barco balançar quando o atingiu com o remo, e concluiu, mesquinho:

— Volte nadando!

Luciano, é claro, nunca deixaria barato.

***

Martin Hernandez ameaçou publicamente processar Luciano Brasil depois de chegar na frente do seu prédio de trabalho e encontrar uma montanha de dois metros de esterco bloqueando a entrada.

A perturbação pública foi tanta que, para fazer a limpeza, colocaram faixas no local para afastar as pessoas. Por toda a cidade já estar ciente da competição entre os dois, o mérito de Luciano foi devidamente dado e a humilhação ao loiro, absoluta.

Só que Luciano havia esquecido de um detalhe: Martin também tinha meios para lutar contra ele. Sendo um oficial, as caças ilegais que aconteciam na propriedade Brasil, antes ignoradas pela justiça comprada, agora tinha alguém com sede de vingança no comando.

Martin mandou uma procuração no dia que uma negociação importante acontecia na mansão Brasil e que, há muito, era comentada e esperada. Além de legalmente poder processar Luciano pela caça ilegal, multou os seus parceiros de negócios importantes que, indignados, foram embora antes mesmo de ouvir alguma explicação do moreno, que mal escondia o ódio borbulhando de baixo da pele diante do sorriso de vitória absoluta do loiro.

Essas pequenas ofensas foram se acumulando no decorrer do tempo de tal modo que um já esperava pelo outro com algo novo debaixo da manga para devolver com uma moeda mais cara. O jogo agora sabia ser jogado e ambos os jogadores sabiam que ganharia quem fosse mais resistente, porém nunca passou pela cabeça de nenhum deles quem poderia desistir primeiro.

***

O cumprimento entre os dois cavalheiros foi, naturalmente, frio. Um breve movimento com a cabeça, sem reconhecimento com palavras, e só.

A reunião na casa da senhora Beaumont estava quente e, com a chuva do lado de fora, o lado de dentro estava abafado. Todas as moças e senhoras abanavam-se com seus leques, se assoprando discretamente, enquanto os cavalheiros agitavam as próprias roupas para fazer o ar circular pelos próprios corpos.

O filho mais novo da senhora pôs-se à postos no piano e, em resposta, a quentura foi esquecida e o entusiasmo se espalhou pelo salão. Luciano e Martin olhavam ao redor, ambos naturalmente firmados a cada lado de Maria, e, embora não soubessem, concordavam em pelo menos uma coisa: detestavam eventos como aqueles.

A senhorita Maria cumprimentava quem passava com sorrisos alegres e, orgulhosamente, apresentava os cavalheiros que, notava ela, se esforçavam em retribuir não por interesse, mas por única e exclusiva vontade de agradá-la para disputar quem causaria melhor impressão.

Interessados pelos cavalheiros há tempos, os conhecidos de Maria, diante da chance de conhecê-los, não poupava-os de suas curiosidades que, grande parte, beiravam à inconveniências. Luciano, que só tinha paciência até certo ponto, ficou com a cara fechada mais rápido que o outro e, embora tentasse retribuir os sorrisos das senhoras tagarelas que vinha falar-lhe e a infantilidade das moças, eram sorrisos travados demais para parecer genuínos, apesar de encantadores o suficiente para causar impressão. Martin, por outro lado, embora parecesse drenado pela monotonia, mantinha no rosto uma curva convidativa e, para o agrado da senhorita, era cortês e espirituoso sem esforço.

Quando as quadrilhas começaram, a maior questão era saber a quem a senhorita Maria daria a honra da primeira dança. Contudo, contrariando até mesmo os cavalheiros, a senhorita disse que estava cansada e que preferia assistir.

— Estive em pé há tanto tempo que estou com bolhas nos pés! Irei sentar e assistir a primeira quadrilha. Quem sabe, na próxima, não me junto à diversão?

Mas ela não tinha planos de se juntar às quadrilhas. Tinha em mente o seu maior ato de humilhação aos cavalheiros para endossar sua soberania sobre eles diante da sociedade e, cínica, ofereceu:

— Oh, mas não desperdicem a noite de vocês por minha causa! Vão, vão! Se juntem à quadrilha. Podem ver que estamos em falta de moças, mas isso não quer dizer que os dois cavalheiros não possam acompanhar um ao outro. Ora! Ora! Que caras são essas?! É tão absurdo assim? Meu pai e meu primo já dançaram juntos em diversas ocasiões! Uma recusa dos cavalheiros ofende a mim diretamente. Insisto que se divirtam juntos!

Luciano e Martin, contrariados, trocaram olhares rápidos e se encolheram em mútuo desgosto.

— Fora de questão, senhorita. – Luciano firmou, inflexível. — Todos os meus respeito aos seus familiares, mas tenho pouco, ou quase nada, estima pelo cavalheiro Hernandez. Sou incapaz de acompanhá-lo.

E o loiro, com suas mechas douradas que brilhavam sob a luz, endossou:

— Compartilho da mesma opinião.

— Veja só! Como me ofendem! – Maria agarrou no tecido denso do vestido em emoção intensa, apertando-o entre os dedos. — Se não pela estima um pelo outro, insisto que façam por mim! Não sabem como me fariam feliz vê-los dando-se bem um com outro pela primeira vez! Nas últimas semanas estive pacientemente aguentando suas constantes discussões e já estou cansada de vê-los brigando como gato e rato! Como me aborrecem!

Ao passo que Martin sentiu o rosto esquentar com a acusação, mortificado com a má conduta apontada, Luciano fechou os olhos e suspirou, tentando conter-se.

Brasil olhou para Maria por longos segundos, sentindo desdém pela moça. Tinha ciência dos dos seus jogos há um tempo e, como Martin, embora com mais fervor, começava a ficar mais do que impaciente pela indecisão dela.

Luciano via através da superfície ingênua e reconhecia a malícia nas atitudes dela, o que, de certo modo, o fez respeitá-la. Maria gostava de brincar com os dois e se fazia de tonta quando sua dissimulação ameaçava ficar muito evidente, no entanto, por ter um objetivo – fortuna – para atingir, como ela, Luciano frequentemente se fazia de idiota.

— Certo. Tudo bem.

Quando as palavras irromperam sua audição, os olhos de Luciano, horrorizados, se cravaram em Martin como flechas de ataque.

Diante da falta, Martin se remexeu com desconforto, mas não perdeu a firmeza em sua voz.

— Estou disposto a atender o pedido da moça. Eu a amo a esse ponto.

Luciano bufou uma risada desdenhosa, a atenção fixa no loiro com incredulidade.

Era um desafio? Agora mediriam o amor que tinham por Maria daquela forma?

Para o desprazer de Martin, Luciano estava mais do que acostumado em ficar sob os olhares críticos das pessoas do que ele. Uma dança com outro cavalheiro, embora fosse virar motivos de zombaria em um ambiente como o que estavam, não era algo com o que não fosse familiar.

Com um movimento breve com a cabeça, apontou para o salão e, juntos, desafiando-se mutualmente em uma guerra que acontecia no silêncio, se posicionaram um diante do outro, na fileira de casais.

Luciano, pela vantagem de ter avançado primeiro, conseguiu um lugar na fileira dos rapazes e sorriu com zombaria quando o loiro, sem graça, se posicionou do lado esquerdo, onde ficavam as moças. Um instante de confusão geral se estabeleceu no ambiente, seguidos de comentários sussurrados ansiosamente de um lado e de outro que os dois tentavam avidamente ignorar, no entanto, fosse por constrangimento geral ou não, logo o som de piano começou a ressoar e os pares começaram a se agitar.

Havia uma intensidade tão grande de sentimentos em ebulição que o contato visual inquebrável era a forma que os dois rivais encontraram de atacar um ao outro com discrição em um lugar tão poluído por vozes, presenças e movimentos. A disputa entre os dois sempre foi particular, sem interferência, e o meio que tinham para se afirmarem era impôr sobre o outro a própria presença.

Numa volta um ao redor do outro, os corpos próximos, a luta por soberania refletia nas torções sutís dos rostos e a significação nos olhares. Não escapava-os, porém, o cheiro um do outro. O toque quente das palmas uma na outra, aquecendo-se, e os detalhes que eram conhecidos por todos, mas avidamente ignorados e forçosamente não reconhecidos, agorava não tinha como ignorar.

Luciano achava Martin atraente desde o dia que ele invadiu a sua propriedade.

Com os dourados cabelos desgrenhados, o rosto vermelho e a linha de suor na testa, naquele dia, não era o santo imaculado que ele viu na sua frente, mas o mais próximo que chegou de ver o erotismo personificado e, desde então, seus olhos ficavam mais no loiro do que na senhorita por quem disputava.

Martin, por outro lado, teve sua primeira impressão carnal sobre Luciano no dia que o derrubou no lago. Reparou, sem conseguir evitar, na pele por baixo da camisa branca quando Luciano tirou colete encharcado e fez uma legião de meninas gritarem de alegria, e, muito mais secretamente, no relevo montanhoso fazendo uma descarada dobra na calça molhada.

Odiavam um ao outro. Mas odiavam-se por camadas.

O repúdio que sentiam era, mais do que desejo de competir para ganhar, uma forma de afastar os desejos secretos que passaram sentir e que ocultavam, com frequência, desprezando um ao outro. Enojavam-se forçosamente sem ter noção alguma que a distância que tentavam colocar entre eles só fazia aquela vibração de imã entre os dois ficar mais violenta, pois não é segredo algum que é muito mais fácil perder o controle diante de algo desejado à longo prazo, e alguma hora o magnetísmo puxa sem mais esperar permissão.

Como diria Kushner, o amor é a infinita mutabilidade do mundo e é inevitável desabrochar de seus opostos. O oposto de Martin era Luciano e virse-versa, odiavam-se tão intensamente que um sentimento como aquele logo invadia a familiaridade normalmente encontrada no amor e, de repente, não se distinguiam mais.

Um era o rival do outro e, portanto, fiés às suas maneiras particulares, censuradas, mas inevitáveis.

Com a proximidade da dança, porém, parte do desejo reprimido vazava pelas bordas sem que pudessem fazer nada contra. Os nervos enviavam-lhes impulsos incontroláveis que fazia, sem permissão, os olhos atraírem-se para os lábios alheios, ansiando a ofensa, o desafio e, mais secretamente, o toque. Odiavam-se e, do ódio, afundavam no olhar alheio como cativos inconscientes que caminham para se prender.

O caráter de Luciano havia sido formado para Martin antes mesmo de ele o conhecer de verdade. Quanto mais próximo ficava dele na quadrilha, quanto mais intenso seu olhar odioso ficava cravado no seu, mais lembrava-se dos rumores, da má reputação e de, pessoalmente, ter verificado a veracidade de cada um deles. O preconceito de suas opiniões começaram a ser alimentadas há muito mais tempo do que se espera, e o tornava cego a qualquer outra coisa que não fosse alimento para elas.

Luciano, por outro lado, julgava-se tão superior a Martin que mesmo a aparente perfeição nos modos e aparência do loiro não fazia sua opinião vacilar. Mais que qualquer coisa, achava Martin falso. Via sob aquela fachada delicada um lobo com pele de cordeiro e, sendo ele um lobo vestido de lobo que agia como lobo, Luciano tinha um orgulho expansivo da própria existência por ser fiel e honesta a ela.

Intensas vibrações e arrepios puxaram e repuxaram sob as peles dos dois cavalheiros no último momento da dança. Uma última volta em torno um do outro, cautelosa, cada qual com uma palma na cintura do outro, forçados a ficar bastante próximos por causa dos outros casais se apertando no salão, tão próximos que Luciano sentiu no nariz o doce cheiro da pele do rival chegar à ponta da língua e o fazer salivar, agitou ainda mais os segredos dentro deles como pássaros medrosos dentro de uma caixa e os inquietou.

Perturbados, mas instintentes em prestar fidelidade ao ódio pelo outro, afastaram-se quando as palmas anunciaram que a quadrilha se encerrou e, desconectados com todo o resto, receosamente se juntaram às palmas para o pianista quando finalmente quebraram o contato visual.

Maria, que diferente dos outros na reunião, não dispersara sua atenção alegre para os demais casais que se divertiram na quadrilha e focou sua atenção fielmente em seus dois ratinhos de laboratório, mais sensível aos sentimentos alheios do que aos seus próprios, notou o clima estranho entre os dois cavalheiros do meio para o final da dança.

Surgiu-lhe outra ideia.

Talvez não precisasse escolher um dos cavalheiros para se casar, tampouco fomentar o ódio entre eles para justificar ainda mais a sua suposta indecisão. A solução para evitar o casamento era mais fácil e só o que a surpreendia era que não tivesse pensado naquilo antes.

Mas, também, quem diria que o segredo de sua vida pacífica e solitária estaria na junção de um casal tão improvável?