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Frankly, Mr. Harit (PT-BR)

Summary:

Namping nunca pertenceu a lugar algum — então aprendeu cedo a tomar o que lhe era negado. Criado no coração do tráfico, filho de uma prostituta, ele transformou desprezo em arma e ironia em couraça. Gay, irônico e perigoso demais para ser ignorado, subiu na hierarquia de uma organização que o tolerava apenas enquanto ele fosse útil.
Quando o poder muda de mãos, Namping deixa de ser peça indispensável e passa a ser uma ameaça viva. E ameaças, naquele mundo, não são afastadas — são eliminadas.
Ele responde com violência calculada, sangue derramado e uma guerra que não poupa aliados nem inocentes.
No meio do caos, surge Keng — um homem que deveria ter sido apenas uma noite esquecível. Um erro sem nome que se transforma em desejo, risco e uma ligação perigosa demais para ser rompida.
Entre traições, controle, ambição e escolhas irreversíveis, Namping descobre que alguns destinos não pedem redenção.
Eles exigem domínio.
There is a light that never goes out. W

Chapter Text

1. Still Ill - POV Namping
Eu observo o outro lado da rua e faço um sinal para Tle aguardar. Eles ainda não haviam percebido nossa presença — perfeito. Nada naquela noite podia dar errado. No mundo em que vivemos, não é incomum que pessoas tentem expandir seus negócios, especialmente em regiões como aquela, onde o fluxo nunca cessa e clubes permanecem cheios dia e noite. Movimento constante significa dinheiro.
E dinheiro é o que nos move.
O anormal era a audácia de Julius, líder do grupo que observávamos, ao tentar invadir e dominar meu território.
Estávamos ali havia quase duas horas. Tle aguardava apenas a minha autorização para iniciarmos o ataque. Mesmo em carros diferentes, era fácil perceber a inquietação dos homens. Ainda assim, todos sabiam que tudo acontecia no meu tempo — e conheciam bem as consequências de agir antes disso. Ser um dos quatro Capo do grupo Costa concedia esse tipo de autoridade. As histórias que me deram esse título circulavam rápido demais para serem ignoradas.
Eu era o único da minha geração ali. Os outros três Capos eram mais velhos, homens que estavam no grupo desde antes de eu nascer. Eu e o Don tínhamos algo em comum: não confiávamos facilmente. E como confiar? Alguns escolhem essa vida. Outros, como eu, apenas nunca conheceram outra.
Sou filho de uma das garotas do Don. Nasci e cresci aqui. Minha mãe, Fai, era prostituta em uma das casas do grupo. A regra sempre foi clara: todas pertenciam ao Don. Tocar em uma delas era declarar guerra. O que antes servia como proteção, hoje existia apenas como intimidação. Serviço é serviço, independentemente do que seja.
Isso eu aprendi cedo.
Fai veio de outro país para tentar a vida aqui. Não dominava o português, mas entendia números como ninguém. Não terminou o ensino básico, mas sustentou a casa com cálculos e contabilidade. Marcos, o gerente, permitiu que ela ajudasse durante a gravidez. Foi assim que ela se manteve. Eu não fui desejado — ela me chamava de karma — mas também não fui descartado.
Nasci entre aquelas mulheres. Muitas não lembro o nome. Só Fai permaneceu. Foi ela quem me chamou de Namping, disse que significava rio. Queria que minha vida fluísse. Cresci pequeno, delicado, tratado como boneca — e nunca me importei. Marcos foi o mais próximo de um pai. Foi ele quem me registrou e cuidou de mim na infância.
Ele e minha mãe tinham algum tipo de acordo. Até meus dez anos, tive algo que poderia ser chamado de infância normal. Frequentava a escola do bairro e, no máximo, ajudava a organizar o alojamento. Na época eu não entendia por que minha mãe trabalhava tanto na contabilidade quanto atendendo clientes. Hoje sei: era para pagar a minha parte da despesa. Marcos podia ser bom para nós, mas nada naquela vida era de graça.
Aos doze, minha mãe adoeceu. Passei a trabalhar mais no clube. Virei garoto de recados, o entregador oficial de Marcos. Foi nessas corridas que descobri que nossa vida só parecia suportável porque havia alguém filtrando o pior para mim. Em outras casas, as coisas eram muito mais cruéis.
Fai sempre dizia: quem vê demais, sabe demais — e paga mais caro. Ela morreu um ano depois. Toda vez que penso nela, lembro dessas frases prontas. Se eu tivesse ouvido com mais atenção, teria evitado muita coisa. Nunca soube onde enterraram seu corpo. Um dia estava ali. No outro, não.
Com a chegada de Lúcio, um dos soldados do grupo, tudo mudou.
Ele me olhava como os clientes olhavam para as garotas. Marcos percebeu. Reclamava que eu não “virava homem”, mas nunca questionou o quanto eu aprendia rápido. Repetia que a maçã não cai longe da árvore. Virei seu pupilo. Aprendi o necessário para sobreviver.
No meu aniversário de quatorze anos, entendi que o mundo que eu conhecia era, para o resto das pessoas, o fim da linha. Que todos ali eram considerados escória. Marcos e Sofia resolveram me dar um presente diferente e me levaram ao shopping.
Ali fomos olhados com desprezo, como se nosso dinheiro valesse menos. Sofia, sempre orgulhosa da vida que escolheu, não deixou passar. Com fúria nos olhos, me disse:
— Prince, nunca deixe ninguém decidir quem você é ou onde você deve estar. Se tentarem passar por cima de você, passe por cima deles primeiro. Ou você toma o que quer, ou o mundo toma de você. Nessa vida, é sempre você por você.
Ela sempre me chamou de Prince. Dizia que eu era o príncipe mais bonito daquele bordel. Foi com ela que me descobri gay, que entendi meu corpo, minha liberdade.
Eu não era inocente. Sabia que não sentia atração por mulheres. Mas não entendia o que era poder. Sofia também não tinha mais ninguém. Mesmo com quase quatorze anos de diferença, virou minha melhor amiga.
Foi conversando com ela que entendi que Marcos me mantinha longe de Lúcio por proteção. Ele reclamava do meu estilo, mas enquanto eu cumprisse meu papel, nada fazia além de reclamar. Dizia que aquele estilo ainda me causaria problemas.
A noite em que tudo mudou é impossível de esquecer.
Marcos precisou de mim para uma entrega. O soldado que me aguardava não era o combinado. Era Lúcio.
O sorriso dele deixou claro que aquilo havia sido planejado. O que eu havia evitado por dois anos finalmente me encontrou.
Encurralado naquele quarto, armado apenas com um canivete, entendi que era tudo ou nada. Lúcio gostava de violência. Principalmente contra meninos.
Quando ele veio para cima de mim, tirei forças de onde não sei e o ataquei. Cinco facadas. Nenhuma fatal.
O segurança entrou. A faca de Lúcio estava agora na garganta dele. Ameacei cortar. Lúcio ria, mandava o homem me atacar, dizia que eu não teria coragem.
Minhas mãos tremeram. Eles perceberam. E, mesmo assim, eu cortei.
Foi a primeira vez — de muitas — que tirei uma vida para tomar o que era meu.
Depois disso, Namping deixou de existir para o mundo. Prince tomou seu lugar.
O grupo tem regras. Eu paguei pelo que fiz. Tudo o que Marcos me ensinou me salvou.
Foi então que Marcelo, um dos Capos, percebeu algo em mim.
Com quinze anos, tornei-me soldado de Marcelo. Não apenas matava. Controlava pontos. Aumentava lucros.
Foi nessa época que conheci Tle — filho de Marcelo. Hacker, apostador, imprudente. O pai achava que ele precisava “virar homem”. Colocou-o para trabalhar comigo. Provavelmente se arrependeu.
Nossa parceria floresceu. Tle roubava dados. Eu executava operações.
Aos dezessete, havia triplicado meu território. Alguns me chamavam de Knife. Eu preferia Prince.
Foi aos dezoito que conheci o Don, Marcelo Castro. Depois de um serviço bem-feito, fui convidado para um jantar e tive a oportunidade de conhecer todos os Capos. Jet estava lá.
Cheguei de terno rosa. O desconforto foi geral. Marcelo apenas observou.
Aos vinte e três, virei Capo. Hoje, aos vinte e seis, controlo oitenta por cento da lavagem de dinheiro do grupo.
E ainda assim, preciso lidar com homens como Julius.
Perdido em memórias, quase não percebo quando Oto avisa que ele chegou. Julius anda como se fosse dono do lugar. Um sorriso escapa de mim.
Estalo os dedos e aceno para Tle.
— Que tipo de chefe chega às onze da noite pra contagem? — ele pergunta.
— O tipo que quer morrer no horário mais lucrativo — respondo.
Julius debocha. Não me atinge. Nunca atingiu.
Minha faca corta sua garganta antes que ele termine a frase.
— Os da entrada podem viver. O resto, não.
Saio sem olhar para trás. No carro, noto o sangue no cropped.
— Eu avisei — Tle comenta.
— Avisou — concordo.
Roupas se perdem. Pessoas também.
Mas o controle…
o controle eu nunca devolvo.