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Encontre-me nas escamas do seu coração

Summary:

Juvia salva um dragão de morrer no mar, no entanto ele pensa que ela está envolvida no ataque que sumiu com seu pai, o rei dos dragões, e a leva para sua base como forma de investigá-la, do contrário uma guerra entre seus grupos começaria. Não vê outra alternativa a não ser colaborar, porém percebe que algo muito maior e perigoso está acontecendo e que poderia destruir a todos.
Juvia precisa correr contra o tempo - e contra o maldito príncipe Natsu - para impedir que o pior aconteça, mas se vê confusa diante do chamado que sua alma ressoa próximo a ele, que parece igualmente perdido entre o ódio e algo... dourado. Se algo menos ele a escutasse uma vez antes de decidir que ela era uma gênia do mal...

Notes:

Oi Oi Oi! Depois de meses escrevendo e surtando com esses dois pestinhas que eu amo tanto, eu finalmente consegui concluir! A história é um pouco diferente do que estou acostumada a escrever, então deixarei alguns alertas, por favor leiam porque pode conter algum gatilho.

ALERTAS: Essa história contém descrições gráficas de violência, discriminação de raça, gênero e sexualidade, incitação a extermínio de raça, abuso psicológico infantil, traumas de abandono, cenas gráficas de sexo envolvendo rituais de sangue e apreciação temporária de dor, idealizações suicidas, temas políticos e crise de ansiedade.

Tentei deixar tudo o mais delicado e responsável possível, sem romantização alguma porém com senso de não causar choque em quem lê.

Chapter 1: O dragão dos olhos dourados

Chapter Text

A sensação de conseguir passar despercebida por todos era maravilhosa. Juvia nadava furtivamente entre os corais próximos a entrada do Recanto e olhava para trás, conferindo se ninguém a tinha notado, de fato. Seu coração pulava em adrenalina pura, impulsionando suas passadas com a cauda na água, a levando para bem longe, no mar aberto.

Seus braços dançavam entre as bolhas que saiam pelos túneis de calcificadas, tão belas e poderosas, preenchendo o caminho até os Corais do Fim, aonde apenas Aquarius e as sereias anciãs iam. Sempre quis descobrir o que tinha lá, além de todo o terror que as lendas aquáticas – e dracônicas nos últimos séculos -, diziam. Até porque nem sequer acreditava nelas, para ser sincera.

Naquela manhã em específico, Juvia seguia o chamado estranho e familiar que vibrava em sua alma e, por motivo, puxava-a justamente em direção à zona proibida. Aquilo a perseguia há tempos, talvez desde que chegou ao Recanto, e parecia particularmente forte dessa vez, como um grito bem debaixo de seu tórax, empurrando-a até a beira.

Chegar perto daqueles pilares tão antigo quanto à existência da vida na Terra era um crime aquático. Diversas estratégias de proteção circundavam o perímetro para evitar invasões. Desde gêiseres até minas terrestres humanas. Não era inconsequente de arriscar chegar mais perto do que conhecia o limite.

Mas era que aquele chamado coçando dentro de sua pele. Por que parecia apontar para tão perto dali?

Olhou em volta das grandes vinhas de algas e pilhas de areias. Peixes e crustáceos andando para todos os lados em um trânsito que só eles entendiam. Raios de sol cortando a água em feixes que dançavam. E, então, os Corais, majestosos e imponentes, como enormes torres de mármore com textura esponjosa e áspera. Bolhas indo até a superfície sem pressa alguma.

Parecia apenas mais um dia comum. Qual era a diferença?

Juvia apertou os olhos, tentando observar melhor o que via no canto esquerdo de sua visão, perto das colinas de pedras que seguiam até longe do horizonte. Conhecia aquele trecho como as escamas de sua cauda. Adorava ficar sentada ali observando de um ponto seguro quando não queria interagir com ninguém do Recanto.

E tinha algo afundando até as pedras. Parecia... alguém.

Não... Devia ser um dos lixos que os humanos arremessavam. Era tão comum naquela era que nem se dava mais o trabalho de se zangar. Decidiu que era um bom motivo de se estar ali, caso fosse pega. Estaria apenas seguindo os protocolos de limpeza do mar. Sorte, sorte.

Arregalou os olhos quando a mancha começou a ter sentido conforme se aproximava, nadando o mais rápido que conseguia. Ignorou a queimação de câimbra no final de sua cauda, remando os braços com mais esforço, até alcançar o que agora via ser um ser vivo.

Cabelos rosados, pele com escamas alaranjadas, garras nos lugares das mãos.

Um dragão.

Assim que tocou seus dedos no casaco manchado de sangue do jovem inconsciente, ouviu uma explosão não muito longe de onde estavam. E mais uma. E outra. Bolas de canhão afundavam a metros dali, imensas, pesadas e perigosas. Pelas águas! Estava acontecendo uma guerra?!

O dragão parecia muito ferido. Sangue por todo rosto, braço com um roxo que com certeza era uma luxação, no mínimo, e arranhões por toda parte. Seu oxigênio devia estar baixíssimo, nem mesmo bolhas saiam por sua boca. Juvia precisava conseguir levá-lo a superfície em segurança.

Segurou seu braço e foi o puxando para o mais longe das bombas. Não estavam longe de terra firme. Não sabia se era uma boa opção, porém acreditava que fosse melhor que apenas subir naquele caos.

Um brilho passou por cima de suas cabeças assim que emergiram d’água, como um cometa, indo em direção ao sul, estourando no ar como fogos de artifício. Era estranho que não visse de onde vinham os ataques. Ninguém há quilômetros em todas as direções. Será que estavam em movimento? Ou talvez muito acima do nível das nuvens.

Bom, não reclamaria se isso significasse que estava segura.

Conseguiu puxar o jovem pelos braços, arrastando-o pela areia assim que sua cauda se transformou em pernas. Se desse sorte, estavam em uma das praias que humanos não frequentavam. As paredes de pedras dos dois lados, como portões, lhe davam essa esperança. Nem uma alma, apenas palmeiras e areia.

A falta de lixo dizia muito.

Sentia a água por todo o corpo do garoto.

Analisou melhor seu rosto. Ele parecia ter mais ou menos sua idade. Seu peito não se mexia, e ela tinha pouco tempo.

Respirou fundo. Não fazia aquilo há meses, e nem sabia se ainda conseguia. O que faria com um corpo? Aquarius a mataria, de certo.

Fechou os olhos e se concentrou em encontrar o rastro de água invasora, pousando sua mão por cima do tórax imóvel. Cada canto preenchido, afogando toda célula que encontrava. Podia concertar, claro. Só não sabia se aquilo daria certo. Fechou o punho, como se segurasse todo o líquido e, em um puxão em direção a sua boca, Juvia arrancou tudo de uma vez. O som que fez foi horrível, porém, de repente, o jovem tossiu e virou o corpo para o lado, cuspindo tudo o que ficou para trás, tomando ar em goladas ofegantes e desesperadas. Ufa. Respirava.

Nada de castigos por achar coisas estranhas no mar aberto. Viva para Juvia!

— Pronto, pronto – deu tapinhas em suas costas, tentando dar algum tipo de suporte emocional – Passou, passou. Você tá vivo.

Aquele cara era enorme, pelas deusas. Sua mão parecia uma conchinha perto daquelas omoplatas. Dragões sempre foram grandes assim? Parando para olhar melhor, ele era lindo. Seu rosto parecia ter sido pintado por aqueles humanos artísticos incríveis. O cabelo rosa era engraçado, com certeza, mas tudo encaixava de forma tão... naturalmente bonita. Fazia sentido ser rosa.

Talvez estivesse impressionada demais por ser o primeiro dragão que via pessoalmente, apesar de estarem tão próximos do Recanto. Ou talvez fosse o efeito colateral depois de usar magia quando não treinava para aguentar fazer aquilo. Sua cabeça pareceu virar um redemoinho na água depois de alguns instantes. Ela precisava voltar para casa antes que enfraquecesse mais. Não se lembrava de que estivesse tão fraca. Credo.

Soltou um suspiro surpresa ao ver que os ferimentos do dragão começavam a se curar sozinhos. Claro, auto cura era algo que eles faziam. Sortudos. Queria ter esse tipo de habilidade. Mais útil que controlar a água – e quase morrer de enjoo depois disso.

Tá que era totalmente sua culpa pela segunda parte, mas não admitiria.

Quando seus olhos se encontraram, a sereia não pode deixar de se assustar, quase hipnotizada pelas íris douradas do dragão, como ouro, que a encaravam furiosamente, queimando como se fossem o Sol.

— Quem é você? – rugiu ele, se erguendo em um movimento rápido, jogando areia para todo lado e fazendo Juvia cair sentada.

— J- Juvia é Juvia – tentou sorrir, hesitante.

Ela se ergueu, limpando a areia em suas pernas. O dragão a sua frente analisava cada movimento que ela fazia, desconfiado como se estivesse olhando um alienígena.

— Fala de si mesma? – o tom murmurado era desinteressado, mesmo as sobrancelhas franzidas.

Foi a vez de ela parecer emburrada, imitando sua cara e cruzando os braços.

— E qual o problema nisso?

O rosado olhou a sua volta, tentando se localizar. Deu-lhe as costas, ignorando seus protestos. Juvia tentou andar em sua direção, mas a tontura aumentava cada vez mais, e sentia que desmaiaria a qualquer momento. Nunca usara tanta magia de uma vez só. Os dois caminharam até beira mar, o vento trazendo o cheiro da pólvora que não podia ser vista de canto algum. Mesmo o mar estando calmo, algo indicava o caos não muito longe.

A azulada se perguntava se aquele garoto viera daquela guerra. O pensamento lhe causou calafrios. Dava para ver que ele sabia de algo, olhando o céu como se procurasse alguma familiaridade.

— Você tá bem? – perguntou depois de minutos de em silêncio. O dragão encarava o horizonte azul concentrado até demais – Juvia o encontrou afundando ali – apontou a leste de onde estavam – O que tá aconte-

Seu pescoço foi agarrado antes de atingir o chão em um baque surdo, a dor irradiando de suas costas e lhe tirando o ar. Quando conseguiu abrir os olhos, o dragão estava por cima de seu corpo, as duas mãos apertando sua garganta.

Sereia.

Suas mãos tentavam alcançar as que a sufocavam, em um instinto. Seus olhos pareciam querer saltar de órbita enquanto encaravam o rosado completamente em choque. Sons desconexos saiam de sua boca, em uma tentativa falha de implorar para que parasse.

Ela ia morrer? Assim, sem mais nem menos?

Caramba, que azar. Não devia ter saído da cama naquela manhã. Bem que sabia que o pressentimento podia ser ruim. O chamado podia ser da morte.

Que tola.

O dourado nos olhos do dragão brilhou mais forte antes que a soltasse, enquanto arquejava de dor, levando as mãos ao próprio peito, como se tivesse sido atingido por algo invisível.

O ar voltou como um balde d’água fria, e ela tomou goles e mais goles. Pensou rápido em sair debaixo do maluco, se arrastando pela areia enquanto ele soltava muxoxos de dor, o que era estranho, pois ela não tinha feito nada. Será que estava doente? Ataques cardíacos aconteciam em dragões?

Sua consciência se esvaziava diante da fraqueza mágica e física. A água a chamava, e Juvia implorava mentalmente que desse tempo. Seus cotovelos reclamavam diante da textura áspera da areia, assim como seus joelhos, porém o gelado da umidade era bem-vindo. Estava quase com metade do corpo molhado quando sentiu seu tornozelo ser puxado, a arrastando para a areia novamente. Gritou, cravando os dedos na areia, sentindo a ardência na pele, mas era inútil qualquer tentativa de não ser levada.

— SOLTA! – implorou – NÃO! SOLTA JUVIA, SEU DOIDO!

Ela desferiu chutes, acertando o pulso do dragão, e conseguindo guinar até o mar novamente, seu corpo quase sem controle próprio, tropeçando nos próprios pés e sentindo a tontura aumentar a cada instante.

O que estava acontecendo? Era muito rápido para que ela processasse. Por que estava sendo atacada? Morrer ia doer? Ela podia aceitar desde que não doesse.

Seus olhos já não enxergavam além dos pontos pretos na visão, e tentou se atirar na água ao sentir que já estava acima dos joelhos. Não tinha forças sequer para transformar sua cauda de volta. Só precisava nadar até não ser mais vista pelo dragão.

O senso de direção parecia ter pifado, e queria desesperadamente se lembrar de onde estavam as cavernas de pedra que ficavam ao leste, próximo de onde encontrou o rosado. Tinha esperanças que ele não entrasse na água para segui-la, e tão submersa quando aquelas cavernas seria difícil pegá-la em sua área, não sendo um ser aquático.

Assim que sua cauda surgiu, sentiu seu corpo leve.

O sono que a atingiu era forte demais para combater. Sua magia a tinha desgastado até a última gosta.

Sua audição captou a água se movendo mais atrás, em passos largos e pesados em sua direção.

*****

O som baixo e constante de um motor não era de todo ruim, porém começava a soar desconfortável diante de tanta confusão mental.

Juvia abriu os olhos e se viu no escuro. Estava na água, mas não no mar. Tentou esticar o braço para se lançar em um nado e acabou atingindo a testa em uma parede invisível logo a sua frente. Sua mão tocou com receio, era um vidro. Tateou todo o entorno, tentando decifrar o tamanho de sua cela.

Estava presa em uma caixa de vidro não maior que seu corpo.

O som vinha de suas costas. Um... filtro. De aquário.

A antiga sensação de claustrofobia a atingiu. Era impossível ficar calma diante daquilo. Suas mãos tentaram empurrar o vidro a sua frente sem sucesso. Olhou para cima, tentando fazer a visão de acostumar com a escuridão, mas nada mudava. Onde quer que estivesse, estava longe do oceano. Sentia isso.

Seu coração disparou quando o pânico lhe tomou conta. O corpo tremendo frente ao desconhecido. O arrependimento a consumia, pensando como Aquarius estava certa em dizer que um dia aquelas fugas dariam errado de algum jeito e Juvia sofreria uma punição muito maior do que qualquer castigo no Recanto. Daria tudo para ser obrigada a organizar os livros da biblioteca naquele instante.

Seus pensamentos catastróficos iam aumentando de gravidade com os segundos, sumindo com seu fôlego ao parecer que a caixa a sua volta diminuía. Não queria voltar a sentir aquilo. As lembranças dos momentos em que antecediam o mar. O antes de acordar no Recanto. Não. Era doloroso demais. Precisava se acalmar.

O grito lhe escapou antes mesmo que notasse, assustando-se com a luz forte sendo ligada com um estrondo. Parecia que tinha a colocado diante do Sol. Era impossível abrir os olhos e, mesmo fechados, ardiam com a claridade. Tampou o rosto com o braço, mas o toque do vidro a lembrava que não tinha espaço algo.

A essa altura, hiperventilava.

— Com a luz, ela não será capaz de hipnotizar ninguém – ouviu uma voz a poucos metros.

Hipnotizar? Juvia não fazia isso.

— Seu nome é Juvia, correto? – questionou outra voz, mais grave e arrogante.

A voz não alcançava sua boca. Tudo parecia errado. Seu corpo. Sua mente. Suas dores. Aquela luz. Aquelas vozes. A caixa.

— Responda. Seu nome é Juvia?

Tinha que ser um pesadelo, pensou. Sim. Acordaria suada e rindo da própria tolice. Ou talvez uma pegadinha de Brandish na qual ficaria zangada por lhe perturbar tantas vezes. Não tinha como aquele desespero todo ser real. Era cruel demais. Doía demais.

Sua testa tocou o vidro ao sentir as forças se esvaindo como gelo derretendo no calor. O peito chiava, o ar não entrava oxigênio de verdade, insuficiente para o medo. Queria poder se afogar com a água e acabar logo com aquele sofrimento. Soluços a davam ânsia, pulando em seu corpo mais e mais brutos. Um aviso agudo sonoro começou a soar distante, e incomodava ao ponto de querer fugir dali.

Chorar piorava tudo, mas era tudo que conseguia fazer, transbordando em meio ao estado de choque e horror, sem saber mais o que fazer para conseguir controlar o próprio corpo. Deplorável e constrangedor.

— Controle-se – ordenou a voz arrogante, o som parecendo se aproximar – Se não colaborar, as coisas ficarão piores.

Os lamentos se tornaram quase gritos de súplica, e Juvia sentiu que estava prestes a vomitar. Não algo em seu estômago, mas algo em seu âmago, que implorava para explodir.

E foi isso que fez.

Diante do terror, a sereia gritou a plenos pulmões, empurrando o vidro a sua frente com as mãos, estilhaçando a placa como se fosse feita de papel. O aquário se rompeu por inteiro, vazando água e cacos por todo lado, empurrando a azulada para fora em um jato.

Novamente, sua consciência a traiu, sumindo quando deveria fugir.

*****

—... rante um tempo.

A voz era suave, quase infantil. Juvia pensou que tivesse morrido e ia conhecer as fadas do além. Escutava sinos no fundo da mente, uma nuvem tampando tudo o que sentia, como se tivesse sido sedada. Parecia lenta, mesmo antes de abrir os olhos. Suas pálpebras pesavam como se não dormisse há semanas. Seus braços e pernas doíam e pinicavam, mas ao menos estava deitada em um local confortável e macio.

Nada de aquários. Nada de falta de ar.

Apenas a confusão de onde estava e o que sentia.

Seus olhos não doeram com a claridade, pois o ambiente que estava, ao contrário do que pensava, tinha tons sóbrios e confortáveis. Um teto cor verde musgo, assim como paredes, que seguiam com ripas de madeira da metade inferior para baixo. O cheiro de anticéptico atingiu seu nariz ao ver um algodão se aproximar de seu rosto.

A figura que o segurava era uma jovem de cabelos azuis escuros e olhos castanhos que soavam muito gentis.

— Olá, Juvia – cumprimentou, sorrindo educadamente antes de tocar em sua bochecha com o algodão gelado, fazendo a sereia chiar de desconforto – É só um arranhão superficial, vai sarar logo.

Wendy – alertou outra voz, grave, fora de seu campo de vista.

— Qual é! – repreendeu a jovem, voltando a se erguer – Ela tá desnorteada e indefesa. Claramente não é uma ameaça.

— Isso é o que ela quer que você pense – retrucou.

A garota, Wendy, bufou, jogando o algodão fora e se sentando em sua cadeira próximo a cama onde Juvia deitava. A sereia pensava em como aquela segunda voz soava estranhamente familiar. Um arrepio percorreu sua coluna com a lembrança do rosto terrível do dragão rosado apertando seu pescoço até a morte.

Virou a cabeça na direção que temia, e encontrou os olhos dourados a encarando atentamente. O suspiro amedrontado veio junto de um salto na cama, tentando ficar o mais longe possível do monstro. Isso o fez reagir de imediato, pronto para saltar em ataque. Wendy o impediu, empurrando seu peito de volta para a cama ao lado, onde ele se sentava inicialmente, e foi em amparo à sereia caída sentada no chão ao lado da cama.

— Calma! Foi só um susto – tentou, segurando suas mãos lentamente, para não assustá-la mais – Ele não vai te atacar, né Natsu? – virou o rosto, encarando o rosado com uma expressão nada boa.

A sereia sentiu repuxões em suas pernas, e viu manchas de sangue aumentando em suas coxas, por baixo das bandagens que enrolavam sua pele. O que estava acontecendo?

— As feridas se abriram, tá tudo bem. Vem, vamos limpar isso – murmurou Wendy, ajudando-a se levantar e voltar a se sentar na cama.

Olhou em volta, alheia a dor e ao olhar fulminante do dragão ao seu lado. Estavam em uma enfermaria, mesmo que soasse como uma floresta dentro de um salão, com tantas vinhas e plantas pelas paredes e teto. A mistura entre o moderno inox e o rústico da natureza estranhamente funcionavam ali.

As camas estavam vazias, assim como todo o local, apenas os três entre as camas no meio de dezenas. O silêncio era confortável, assim como o cheiro. Em outro universo, Juvia poderia voltar a dormir ali tranquilamente diante de tanto conforto.

Se não fosse a presença daquele demônio.

Natsu, ela disse, não?

O nome não lhe era estranho, porém nada vinha a sua mente vazia naquele momento. Sentia-se calma até demais, tranquila até os ossos. Apesar disso, não conseguia formular frases ou sequer sentir vontade de reagir além do susto que teve. A apatia soava como a melhor sensação que já experimentou. O choque após todo caos. Lembrava-se de todas as vezes que passou por algo igual.

— Eu vou te explicar tudinho, tá bom? – Wendy sentou-se ao seu lado, desenfaixando sua coxa direita com cuidado – Você acabou tendo uma crise e estourou a caixa de vidro – seu jeito era tão delicado e calmo que a sereia se viu embalada por sua voz - Não era para ter sido levada para lá, mas esses idiotas são assim – murmurou – Suas pernas acabaram cheias de cacos de vidro. Talvez não consiga se transformar por um tempo, mas elas ficarão bem – olhou em seus olhos – Eu não sabia que sereias conseguiam ter pernas.

A azulada mais velha apenas lhe encarou de volta, sem dizer nada, não conseguindo manter o contato visual por muito tempo. Era cansativo e intimidante.  Não sentia vontade de falar, e não entendia o que a impedia, mas era bom ficar daquele jeito. Distraiu-se de seus pensamentos quando notou algumas escamas azuladas na pele de Wendy.

Uma dragonesa.

Será que estava na Clareira dos Dragões? Não soava bem com a descrição que conhecia do lugar. Tão perto, porém tão longe do Recanto das Sereias. Aquarius costumava dizer como era irritante que tivessem que ser vizinhas justo dos barulhentos.

Não parecia barulhento como diziam. Na verdade, era semelhante à Estufa das Fadas, entretanto não faria sentido dragões levarem uma sereia para lá, então descartou a ideia.

Sentiu sua mão ser erguida levemente, mas não deu atenção, atenta demais aos detalhes a sua volta. Ouvia a conversa entre os dois presentes como um som de fundo, indiferente. Não importava. Ela era uma intrusa, não? Não fazia diferença participar ou não. Aquele dragão bobo deixava isso bastante claro.

— Juvia? – a voz de Wendy a trouxe de volta – Você deve estar em um... estado de contenção de danos, vamos dizer assim, mas está tudo bem, tá? Está segura e não vai acontecer nada. Você está na Clareira dos Dragões. Eu sou Wendy Marvel e esse é Natsu Dragneel – olhou em seu relógio de pulso – Agora são cinco e quarenta da tarde.

Como os nomes do príncipe e princesa dos dragões.

Que engraçado.

— Ela não tá falando. Por que ela não tá falando? – resmungou Natsu.

— Ela passou por um momento de muitas emoções, agora o cérebro dela tá evitando gastar energia. É assim que ela funciona. Atipicidade.

— Tipo o Jellal.

— É.

— Como pode me garantir que ela não está fingindo ou é uma ameaça?

— Aí que tá. Não posso – a dragonesa riu diante da indignação do rosado – Mas estou lhe dando um voto de confiança. Vocês machucaram ela, Natsu, e ela não agrediu ninguém até o momento, além de autodefesa – inclinou a cabeça, confusa - Por que seria uma ameaça?

— Porque é uma sereia – retrucou entredentes – Se esqueceu do que eu acabei de relatar pra você? Aqueles ataques vinham do mar também. Podem ter sido elas.

Wendy suspirou, parecendo cansada. Deu batidinhas na mão de Juvia e a orientou a voltar se deitar. A sereia seguiu sem questionar ou hesitar, exausta mesmo após ficar inconsciente por tanto tempo.

Aqueles lençóis eram tão macios e confortáveis que queria muito voltar a dormir. Quem sabe voltasse ao normal amanhã. Precisava ir para casa. Aquarius ficaria furiosa quando soubesse onde se meteu.

— Eu convoquei uma reunião com a rainha das sereias. Precisamos de explicações – ouviu Natsu dizer antes de apagar pela terceira vez naquele dia.

Aquarius a mataria.

Talvez ser morta enforcada pelo dragão não tivesse sido uma má ideia, afinal.