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Natsu nem sabia por onde começar sem soar estranho, mas foi o suficiente para ter total atenção de Juvia. Estava se arrependendo amargamente de pensar que era uma boa ideia. O que diacho conseguiria com tudo aquilo, aliás? Não conhecia os próprios sentimentos e estava partindo para uma ofensiva. Era só... que ele sentia que precisava tentar, de alguma forma.
Talvez ainda fosse muito imaturo e pensasse que estivesse perdendo ao ver que Gajeel estava praticamente casado com Levy – e prestes a ser pai! -, e que Laxus já dera a entender que algo estava acontecendo em sua vida – apesar de não revelar com quem.
Podia admitir que se sentisse um perdedor, ao menos. Mas não cairia sem lutar. E Juvia era sua única esperança. Ele só não sabia explicar como invadir o apartamento da maga d’água poderia incentivá-la a ser sua aliada. Mas ela não tê-lo chutado já era um excelente começo.
— Eu quero... ahn... – suas mãos se embolavam ao tentar gesticular algo ingesticulável. Respirou fundo e tentou de novo – Como eu... posso conquistar a Lucy sem parecer um esquisito?
— Ah...? – um sorriso escapou dos lábios, sentada a sua frente.
— É sério.
— Não! – chacoalhou a cabeça - Juvia quis dizer, sim, Juvia sabe que é sério. Juvia só está contente porque Natsu-san parece sério, de verdade – pareceu confusa – Juvia fica mais do que feliz em ajudar, mas... Por que Juvia?
— Bom... Levy comentaria com Gajeel, o que é péssimo. Erza seria um desastre – começou a enumerar em sua mão – Mira riria da minha cara, se não fizer pior e me denunciar pra Lucy – bufou emburrado – Wendy está ocupada demais.
— Faz sentido – a voz da garota não conseguiu esconder a certa decepção de saber que não era nem a terceira opção. Natsu se sentiu o pior canalha do universo, que besteira era dizer isso, estava tão nervoso que nem pensava direito no que dizia.
— Pra ser sincero, você foi a primeira pessoa que me surgiu em mente – aquilo pareceu concertar o erro – Eu só não quis vir direto a você por falta de proximidade mesmo – deu de ombros -, mas acho que é a melhor nesse assunto.
— Acha mesmo? – riu – Juvia sente que não tem sucesso há muito tempo.
— Só porque o Gray é um babaca.
Tinha algo que ela escondia, Natsu sabia. Seus olhos entregaram certa tristeza que a acompanhava não daquele dia, mas de mais de semanas. Sentia cada vez menos a presença dela na Guilda. Era difícil ignorar sua ausência quando a garota transformava sua visita em um espetáculo. Talvez, lá no fundo, Natsu tivesse surgido em sua casa por curiosidade também, porém nunca admitiria isso em voz alta, claro. Eles eram apenas colegas e não teria justificativa.
Ficava sem jeito de dizer que a achava muito corajosa. Admitir para todos sobre seus sentimentos era algo que Natsu admirava em uma pessoa, e ela fazia questão de dizer em voz alta quão apaixonada era, mesmo que Gray fosse um total tapado e a afastasse em muitos momentos. Certamente aprenderia algo com sua dedicação. Foi um motivo mais aceitável para correr até seu apartamento quando sentiu seu coração acelerar de ansiedade novamente.
— Você parece bem decidido.
Juvia o encarava com o queixo sobre a mão, bebericando o chá como se estivesse escutando uma história interessante. As bochechas do rosado esquentaram e ele se perguntou se estava mesmo convicto. Sua mente o empurrava para a beira do precipício e algo soava errado, mas não tinha o que fazer, certo? A vida funcionava assim.
Ali no apartamento de Juvia, sentado em seu chão sob o tapete felpudo, encostado em um dos sofás verdes e olhando seu chá sobre a mesa de centro, Natsu tentou se convencer que estava pronto. Era a primeira vez em semanas que admitia que precisasse de ajuda para esse assunto. E que não se sentia perdido. Ao surgir no meio de sua casa, e ela não soar surpresa, soube que era a decisão certa.
— Vamos do início, então – começou ela, pegando seu caderno e lápis – Natsu-san e Lucy-san já são próximos, não deve ser difícil – entre anotações, ela pareceu pensativa - Você só precisa criar um clima.
— Um clima.
— É! Algo como... – mordeu a ponta do lápis – Do que ela gosta?
Apesar de parecer uma pergunta fácil, Natsu se perdeu. Lucy gostava de romances. Certo. Mas o que mais? Flores? Doces? Uma vez ele a ouvira dizer para Levy que tinha comprado um perfume incrível, mas qual era? Que tipo de cheiro?
Aliás, sendo mais básico, qual era sua cor favorita?
Por sua expressão desesperada, Juvia notou o que acontecia. Algo não estava batendo, mas tentou manter a postura de mediadora. Atribuiu isso ao fato de Natsu ser um garoto e, normalmente, eles não prestam atenção mesmo. Normal. Ainda mais os da Fairy Tail, que mais pensavam em brigas e competições do que qualquer outro assunto.
— Do que Natsu-san gosta em Lucy-san? – tentou outra abordagem, torcendo para conseguir qualquer detalhezinho que a ajudasse.
O silêncio começou a soar desconfortável. Natsu gosta de Lucy, não? Claro que gosta! É sua melhor amiga. Que pergunta. Mas não é isso que ela quis dizer.
Caramba, quando foi que isso passou a ser complicado?
Juvia franziu a testa, o encarando quase com pena. Não tinha nada de errado não saber responder àquelas perguntas. Amor é algo subjetivo e complexo; No entanto, alguém apaixonado saberia dizer ao menos uma coisa, não? Os boatos sobre Natsu não ter noção de nada pareciam ser verdade.
— Natsu-san, você por aca-
— É a Lucy. Eu adoro ela.
— Certo. Você adora ela. Mas, por acaso, você sabe o que é estar apaixonado? Como é amar alguém romanticamente?
Os dois ficaram se encarando pelo que pareceram horas. As mãos cruzadas na frente do rosto, sérios como se fosse uma questão de vida ou morte. Estavam entre uma completa apaixonada e um completo tapado.
Céus, ele não era tão diferente do cabeça oca de Gray, era?
Juvia não entendia o que se passava com ele. O comum para conquistar alguém requer que você ao menos tenha sentimentos por aquela pessoa. Se não, qual é o sentido de todo esforço para ganhar a atenção dess- Espera.
Juvia passou a julgá-lo descaradamente.
— Natsu-san está apostando algo?
— O quê?
— É bem a cara dos meninos apostarem quem conquista Lucy-san primeiro.
— O quê?! Não! Eu não tô fazendo isso.
— Então tá tentando conseguir algo dela.
— Também não! Por que não posso namorar ela?
— Natsu-san, a gente só namora quem nós amamos e queremos do nosso lado para dar e receber carinho. Qual sentido de querê-la se não sabe nem o que sente?
Ele então desistiu, escorregando seu corpo e desabando no chão. Juvia tinha razão. Não tem sentido tentar conquistar Lucy quando nem ao menos sabe o que é amar. É só esse senso de... de algo que ele não sabe explicar, lhe dizendo que é hora de se relacionar mais sério com alguém. Estavam com vinte e poucos anos, e ele não fazia ideia do que estava acontecendo.
— Juvia não vai julgar Natsu-san – ela se aproximou de seu lado, surgindo em seu campo de visão – Pode ser sincero.
— Promete?
— Juvia promete – e lhe mostrou seu dedinho, exibindo um sorriso quase infantil no qual Natsu achou engraçado, mas enganchou seu dedo no da azulada.
Ele se ergueu e apoiou as mãos no chão atrás de si, enquanto Juvia dava um pouco de espaço, descansando um cotovelo na mesa de centro. Parecia conformado, o que era cômico, mesmo que a maga tentasse não rir. Dava para notar que era um assunto que estava lhe causando mais ansiedade do que deixava transparecer. Talvez ele estivesse amadurecendo e não soubesse lidar com isso.
— Parece que todo mundo sabe o que está fazendo, e eu, não – murmurou, emburrado.
— E acha que isso tem a ver com um relacionamento?
— É porque as pessoas estão cada vez mais se juntando – arregalou os olhos subitamente – O Gajeel vai até ser pai! Tem noção disso? A vida tá passando e eu sinto que estou ficando para trás.
— Essa é uma sensação normal, Natsu-san – sorriu – Cada um tem seu tempo certo. Não é porque Gajeel vai ser pai que significa que você precisa correr pra se casar com Lucy-san – ela não resistiu a uma pequena risada – Se quiser, mesmo assim, Juvia não tem problemas em te ajudar, porém precisa começar do início início. Aprender o que é amar alguém romanticamente.
Natsu precisou de alguns instantes para refletir. Fazia mais sentido. Se fosse se colocar em uma posição mais confortável, pensar apenas na própria trajetória, sem comparações, seria melhor – e adequado também. Nossa. Era tão óbvio. E não pensou antes. Que Mavis abençoasse Juvia.
— Acha que é possível eu aprender como ser romântico e conquistar a Lucy ao mesmo tempo?
— Claro! Por que não seria?
Bom, ela sabia sobre o que dizia, então não poderia discordar. Respirou fundo e a encarou decidido, de verdade. Juvia bateu palminhas, empolgada e voltou a pegar seu caderno e lápis. Dessa vez, não precisou perguntar nada, apenas anotou vários tópicos que vinham em mente. Natsu precisava aprender sobre seus próprios sentimentos, e isso seria mais divertido do que somente juntá-lo a Lucy.
Os dois começaram então a enumerar o que fazia o amor ser amor. Era engraçado, mesmo que complexo. Juvia achava que gostar de praia era fundamental. Natsu não aceitaria alguém que não gostasse de dividir um sanduíche completo do restaurante do centro. Juvia dizia que se lembrar de datas não significa necessariamente se importar, e Natsu concordava. Natsu pensava que amar precisava sempre estar pensando na pessoa, mas Juvia lhe disse que não era tão literal assim.
— Talvez você já goste de Lucy-san, e precise apenas mudar a perspectiva – concluiu depois de todo o debate.
A essa altura, os dois estavam deitados no chão, lado a lado, com metade do corpo debaixo da mesa de centro e apreciando o tapete felpudo em suas costas. O sol ia se pondo do outro lado das janelas.
— Como? – Natsu virou o rosto, observando o perfil pálido da maga.
— Você já se importa com ela. E claramente daria sua vida pra fazê-la feliz, não? – ela o imitou, encarando os olhos ônix, concentrada.
— Sim.
— Então. Basta enxergar ela como alguém que você queira ter um tipo diferente de convivência. Pensar nela como... sua parceira – bocejou – Dragon Slayers têm isso, não tem? Gajeel disse algo assim pra Juvia.
— Tem, mas não é tão simples assim. Encontrar seu parceiro às vezes nunca acontece. Gajeel só foi muito sortudo.
— E, mesmo assim, a Lucy-san pode ser sua namorada?
— Bom, sim – deu de ombros - Não tem problema você se relacionar com quem não é seu parceiro se não souber quem é seu parceiro.
— E se souber?
— Aí a conexão desperta.
— Como?
— É uma boa pergunta. Igneel só me disse que eu saberia quando a hora chegasse – aprofundou sua voz em um tom teatral, causando risadas em Juvia.
— Deve ser o mesmo que se apaixonar.
— Se for como você tá me dizendo, é por aí.
E ficaram em silêncio. Não foi ruim dessa vez. Às vezes, o pé inquieto de Natsu encostava-se ao de Juvia, que apenas encarava o teto branco e pensava nas melhores alternativas para conseguir juntar aquele casal. Tinha quase certeza do sucesso do plano, já que Lucy parecia ter indícios de gostar de Natsu romanticamente, o que poderia facilitar tudo o que faltava na compreensão dele.
Parando para pensar, Juvia tinha muita coisa para fazer. Precisava conhecer como Lucy era, o que gostava e que tipo de relacionamento ela tinha como meta. Que tipo de namorado queria. Além de vender a imagem de Natsu como seu par. Não era difícil, e isso ocuparia boa parte de sua rotina, o que era bom até. Estava se sentindo tão deslocada ultimamente, algo assim surgira no momento perfeito.
A distração perfeita para não pensar no inevitável.
— Juvia tem um bom pressentimento, Natsu-san – e riu animada, fazendo Natsu sorrir com sua empolgação.
*****
Acordou com a disposição que havia desaparecido de seu corpo nos últimos tempos. E isso era ótimo. Ela tinha um plano muito claro em mente: criar a situação ideal para que Natsu conseguisse conquistar o coração da maga celestial. Só precisava passar um tempo com ela. E isso significava que precisava ir para Guilda. E encontrar todo mundo.
E isso significava encontrar Gray também.
Juvia não quis comentar com Natsu o que se passava entre ela e o mago de gelo, mas ele disse que, em troca por ajudá-lo, faria propaganda positiva dela para ele. Não que fosse ajudar Juvia em algo, já que ela e Gray estavam bem afastados ultimamente. Não entendia o que tinha feito de errado, porém ele quase nem a olhava, muito menos lhe dava brechas para conversas simples. Tinha quase certeza que suas chances com ele tinham chegado ao zero.
Se fosse para encarar o pior, que encarasse de cabeça erguida e com ânimo para algo. Apareceria na Guilda para fazer alguém feliz, então ela não se importaria em ter que bater de frente com sua tristeza e coração partido.
— Bom dia, Mira-san!
— Bom dia, Juvia! Você parece muito feliz hoje – a albina sorriu do balcão.
— Juvia tem grandes planos para hoje! Você sabe se a Lucy-san já chegou? – sentou-se no banco do bar e observou rapidamente o pavilhão da Guilda. Era muito cedo, então poucas pessoas estavam espalhadas pelas mesas.
— Ainda não. Acredito que só vá aparecer depois do almoço. Ela e Levy foram ver a inauguração de uma confeitaria lá no centro.
Foi como uma lâmpada acendendo na cabeça de Juvia.
— Mira-san, você sabe dizer a Juvia que tipo de encontro a Lucy-san gosta?
— Que tipo de pergunta é essa? – a Strauss arqueou uma sobrancelha.
Natsu tinha dito que Mira não era confiável, não tinha? Juvia precisou pensar em algo muito rápido antes que a maga albina tirasse conclusões precipitadas. E não tinha muitas opções. Algo seguro. Algo verossímil.
— J- Juvia quer... ir em um encontro com Gray-sama, mas não sabe para onde... – murmurou, sentindo o rosto esquentando. Era ridículo. A única escapatória. Justamente o que queria fugir – E Lucy-san parece ser bem romântica. Juvia queria sugestões.
— Um encontro com Gray?! – Mira pareceu tão chocada que Juvia chegou a se sentir ligeiramente ofendida. Qual era o problema?
—... Sim – retrucou, não escondendo o desagrado na reação da colega.
— B- Bom, ela sempre fala sobre um restaurante de comidas marítimas na quinta avenida, sabe? Aquele na frente da praça da árvore.
Quinta avenida... Perto da praça da árvore...? Juvia tentava se lembrar, porém nada que lhe soasse familiar. Não era de andar muito por aí no centro da cidade, já que vivia mais para o outro lado e, quando ia para uma missão, normalmente só atravessava de trem. Como podia estar há tantos anos na Guilda e nem ao menos saber onde ficavam os lugares da cidade?
O barulho da porta da Guilda se abrindo a tirou dos pensamentos. Um grupo de membros chegou como uma onda. Barulho e confusão se instauraram como de costume, e Juvia percebeu que era hora de sumir. Levantou da banqueta, e tentou se esquivar de toda multidão. Nunca tivera uma estadia tão curta na Guilda. Pelo menos desta vez não estava fugindo do gelo não mágico de Gray. Descobriria isso depois. Tinha prioridades agora, e não deixaria sua mente a atrapalhar.
Não conseguiria respostas se ficasse na Guilda até Lucy aparecer. Precisaria recalcular sua rota. Se a Lucy não vinha até ela, ela ia até Lucy,
Não fazia ideia de onde era a tal confeitaria, mas não deveria ser difícil, já que uma inauguração certamente estaria cheia de pessoas em volta. Holofotes. Megafones. Confetes. Esse tipo de coisa.
A cidade estava calma, e Juvia pode conhecer pontos que não fazia ideia que existiam, como uma padaria e um boticário. Uma floricultura que definitivamente recomendaria para Natsu caso Lucy gostasse de flores. Juvia particularmente não gostava – a não ser por lavandas, talvez -, mas achava o gesto bonito. Parando para pensar, Lucy parecia ser do tipo bem tradicional de romântica. Jantar a luz de velas e esse tipo de coisa. Flores deviam ser fundamentais para ela.
Enquanto olhava para um buquê muito charmoso, viu um cliente saindo da loja. Não precisava olhar para o rosto para reconhecer o jeito único de Gray caminhar. Quando seus olhos se encontraram, ambos pareceram surpresos demais com a presença do outro. Juvia pensou em correr. Ela podia ter esperanças que estava indo comprar flores para deixar no túmulo de um ente querido? Sua intuição não concordava. Mas não custava guardar um pouco de esperança desiludida.
— Juvia... – ele começou, em um tom defensivo, assim que se aproximou da maga, congelada no mesmo lugar.
—Ah, Gray-sama! Como vai? – tentou sorrir, mas sentiu que estava falhando miseravelmente. Por que ele a olhava daquele jeito, como se sentisse pena?
Ela podia esperar que ele estivesse encomendando flores para seu aniversário que estava próximo? Seu coração até errou uma batida quando se agarrou na ideia. Gray saiu de mãos vazias, então só podia ser uma encomenda, não é?
— Estava me seguindo?
— O quê? Não! Claro que não! – apressou-se em responder – Juvia está procurando Lucy-san. Mira-san disse para Juvia que ela está na nova confeitaria que inaugurou hoje.
— Entendi.
— Gray-sama gosta de doces? – arriscou, apenas para testar se ele manteria a conversa viva ou a deixaria falando sozinha, como das últimas vezes.
— Gosto de alguns, não muito doce – Bingo!
— Tipo... uma torta de maçã?
O garoto balançou a cabeça, pensativo. Juvia sorriu inconscientemente. Era uma boa ideia, se parasse para analisar o cenário. Uma tortinha de maçã faria com que Gray voltasse a falar com ela como antes. Tinha certeza disso.
— É, pode ser. Não é tão doce assim – concordou, por fim.
— Que bom! Então Juvia vai comprar uma para Gray-sama assim que puder! – riu, animada – Até mais tarde, Gray-sama! –e saltitou por onde deveria ir, ignorando Gray lhe chamando.
De repente, se sentia flutuante. Só queria que ele voltasse a falar com ela, não precisava ser recíproco. Já era um progresso.
Seus pensamentos floridos foram substituídos por confusão ao ouvir um grande falatório conforme foi se aproximando da avenida onde a suposta confeitaria estava. Um homem vestido de cozinheiro andava de um lado para o outro em cima de um palco improvisado na frente da tal loja. Ele falava algo no megafone, atiçando toda clientela em volta.
Juvia se viu sendo arrastada por um grupo de pessoas que corria avenida acima, e ela no meio do caminho. Seu coração disparou e procurou uma saída, aparentemente impossível. Algo sobre promoção, bolo de morango e chantili soando em seus ouvidos. Por que tanta empolgação por uma sobremesa?!
Não foi difícil encontrar Lucy e Levy. Estavam em um canto mais tranquilo, com Levy protegendo a barriga e Lucy mantendo a frente da amiga. Assim que conseguiu se desvencilhar das pessoas, correu até elas, aliviada por não que ficar no meio das pessoas mais frenéticas. Agradecia a gravidez de Levy, pois as conhecia suficientemente para saber que seriam as primeiras na frente do palco.
— Juvia! – Levy pareceu radiante ao vê-la.
— Veio tentar conseguir um bolo de morango também? – perguntou Lucy, rindo da confusão que se formava na frente do palco mais a frente.
— Ah, não, não! – riu, sentindo-se subitamente exausta com tanta movimentação – Juvia veio passear um pouco e acabou sendo arrastada até aqui – respirou, tentando recuperar o fôlego - Juvia não sabia que gostavam tanto assim de doces.
— Ah, eu adoro! – exclamou Lucy.
— Sério? Quais tipos Lucy-san mais gosta?
Foi como acender um fósforo no palheiro, Juvia pensou, segurando o sorriso maléfico que quis surgir ao ver Lucy começar um longo discurso sobre suas preferências gastronômicas. Anotava mentalmente todos os pontos importantes que precisava repassar para Natsu. Doces de amora eram seus favoritos. Sorvete de baunilha com calda de chocolate. Tortinhas de morango e milk-shake de framboesa. Ela conseguiu uma lista imensa. E foi dando corda a loira, perguntando sobre o que mais gostava de comer em um jantar. O que almoçava e quais eram suas alergias. Frutos do mar, como Mira lhe dissera, e sem alergia alguma – o que era ótimo.
Levy encarava as duas com uma sobrancelha arqueada em desconfiança. Juvia parecia muito interessada, de um jeito que a maga d´água nunca demonstrara. De certo tinha algo se passando ali, mas preferiu se abster. Talvez fosse coisa de sua cabeça, afinal Juvia poderia apenas se aproximar mais delas, o que era natural que fosse por meio desse tipo de assunto. Era só que sua intuição lhe apontava algo muito óbvio, só não conseguia enxergar com exatidão o quê.
Em menos de trinta minutos de conversa, Juvia tinha praticamente um banquete de informações. Não só sobre comida. Conseguiu juntar toda energia social e perguntar sobre as mais diversas coisas para Lucy – e incluiu Levy na conversa, pois poderia soar desrespeitoso e não queria deixá-la chateada. Ao menos, não gostaria que a deixassem de lado em uma conversa, então fez questão.
A multidão foi se dissipando conforme a loja disponibilizava a entrada de mais pessoas. As três aguardaram bastante para que conseguissem um momento mais calmo e sem pressa. Juvia pensou em comprar algo para Gray, além das tortinhas de maçã. As gôndolas tinham tantas opções incríveis e fofas que era difícil escolher de cara.
Não tirava a atenção do que Lucy escolhia. A maga celestial parecia certa de que levaria bolinhos de chocolate amargo e trufas. Era uma boa escolha. Natsu poderia lhe presentar com uma cestinha com algo parecido. E flores em tom magenta, suas favoritas. Com uma pitada de perfume com toques amadeirados! Era isso! Perfeito.
— Juvia.
Virou assustada para Levy, que estava estática do seu lado, como se estivesse ali há um tempo. Tentou não demonstrar a surpresa, contudo falhou miseravelmente. Levy a encarava não de um jeito incriminador, mas era por aí, o que fez com que Juvia sentisse frio na barriga. Não tinha boas lembranças de situações semelhantes. Tentou pensar em todas as alternativas que levariam Levy a ter aquela abordagem e nada veio em mente. Estava encrencada, tinha certeza disso.
— S- Sim?
— Por que parece tão interessada na rotina da Lu-chan assim?
— O quê? Como assim?
— Você sabe – deu de ombros. Ela parecia estar ficando impaciente, o que foi deixando Juvia cada vez mais agitada. Precisava respirar fundo – Queria saber o que ela gosta e não gosta. Parece muito repentino.
— Ah... – Juvia abaixou a cabeça, sentindo as bochechas esquentarem – É que a Juvia... – sua mente tentava formular algo rápido. Como de repente tinha se tornado uma mentirosa, que horror. Mas era necessário! Não podia deixar Natsu na mão! Era por uma causa nobre! – J- Juvia tem se sentido muito... deslocada das pessoas depois de tudo que a Guilda passou, então... então Juvia tem perguntado esse tipo de coisa pra... – O quê, céus, O quê?! – pra... desenvolver novos hobbies ou gostos, sabe? – ela permaneceu olhando para o chão, brincando com a manga da blusa branca.
— E por que a Lu-chan?
Droga! Seria muito estranho sair correndo e se atirar na fonte mais próxima e fingir que é só água até ela se esquecer disso?
— P- Porque Juvia admira muito Lucy-san. Ela é uma pessoa incrível – murmurou, finalmente olhando para Levy, antes de dar uma espiada onde Lucy estava – M- Mas não diz isso pra ela, por favor! Ela ainda é Rival do Amor de Juvia.
Isso pareceu convencê-la, já que sorriu satisfeita. Levy lhe deu uma batidinha no ombro e se afastou da maga d’água. Ufa... Juvia precisaria fazer teatro com Erza qualquer dia desses. Não que ela estivesse mentindo, realmente admirava Lucy, mas não era para tanto. Tinha seus próprios gostos e estava mais do que feliz em continuar como era.
Será que era uma pessoa ruim por isso? Não sentia que isso fosse ruim de fazer.
Tentou não pensar muito. No fim, optou por comprar algumas tortinhas de maçã e algumas de chocolate. Esperava que Natsu gostasse de doces.
*****
— Tem certeza?
— Sim! Ela é do tipo mais tradicional de romântica, como Juvia pensava – garantiu – Não deve ser difícil. Basta levá-la nesse restaurante.
Os dois comiam suas tortinhas, sentados no chão entre os sofás. Natsu não entendia o porquê de Juvia não se sentar nos estofados, porém conseguia notar que o tapete felpudo realmente era confortável, além de estarem no nível da mesa de centro, onde deixavam seus pratos e xícaras de chá.
— Eu nunca ouvi falar desse lugar – refletiu ele – Ela nunca me falou sobre ele.
— Será que é novo? Ela parece gostar de inaugurações – Juvia riu, bebericando seu chá.
Natsu tinha a testa franzida, o olhar concentrado nas tortinhas restantes em cima da mesa. A maga d´água não entendia o motivo. Depois de ter dito as informações que descobrira naquele dia, o Dragon Slayer ficou pensativo e até calado, o que era atípico dele. Juvia podia admitir que fosse até fofo como ele ficava daquele jeito. Realmente estava empenhado em conseguir vencer o desafio.
— Qual problema, Natsu-san?
— As de chocolate são mais gostosas que as de maçã – a encarou, completamente sério.
Juvia até mesmo parou de mastigar o pedaço que tinha acabado de morder. O silêncio não durou muito, pois as gargalhadas preencheram o ambiente assim que tentou manter o olhar no de Natsu, sem sucesso algum.
— Isso é injusto! – exclamou ela, assim que recuperou o fôlego – Gray-sama prefere as de maçã.
— E aí você também, só por isso?
— Juvia gosta de gostar das mesmas coisas que a pessoa que Juvia ama – ela sorriu, tímida – É o jeito de Juvia demonstrar que se importa.
— Mas...? – ele incentivou, sentindo que tinha um.
— Mas Natsu-san está certo – retrucou, emburrada, enquanto cruzava os braços – As de chocolate são melhores.
— HÁ! – o rosado apontou-lhe o dedo, sorrindo como um maníaco – Ganhei do Gray-sama nessa.
— Humf! – virou o rosto para o lado oposto ao dele – Isso não importa! Gray-sama tem um ótimo gosto.
— Mas a gente tem mais – riu, sarcástico – Vai, admite – lhe cutucou a costela.
— Natsu-san está desviando do real motivo – o encarou – Não gosta de frutos do mar ou algo assim? Por que parece preocupado?
O mago de fogo suspirou. É. Juvia era boa nisso, precisava admitir.
— Eu nunca fui a um encontro. Nem sei por onde começar isso.
Os ombros de Juvia caíram em rendição. Tinha se esquecido de que Natsu estava passando pela primeira experiência de flertar. Acontece que ela tinha se deparado com um problema embaraçoso: ela mesma não sabia o que se fazer em um encontro, pois nunca conseguiu chegar nessa parte com Gray. Só não queria demonstrar isso a Natsu e deixá-lo inseguro, então fez a única coisa que alguém que definitivamente sabe o que é um encontro faria:
— Então Juvia vai levar Natsu-san em um encontro.
O quê?
— O quê?
Talvez o altruísmo de Juvia tenha atingido o teto. Mas nada como pensar mais alto. Pelo amor, né?
