Chapter Text
Arthur levanta em um quarto estranho, seus calcanhares doem, olhando para baixo, logo percebe que isso se dá ao fato de que ambos estão apoiados na cabeceira da cama, uma cama que não é sua, que é pequena demais para o seu corpo. Ele vira para o lado e procura Dante, o ocultista havia passado a dormir em seu quarto desde os ocorridos em suas últimas missões, os pesadelos terríveis do orfanato pegando fogo, ou de sua irmã clamando por sua ajuda, clamando por ser vista, se tornaram mais intensos e frequentes, mas a companhia e apoio que passaram a provir um ao outro se tornou de suma importância para os momentos de desespero nessas mesmas noites. Para o choque do Gaudério, a cama estava vazia, com exceção do mesmo, um outro alguém se quer caberia ao seu lado, seu peitoral era mais largo e ocupava a maioria da cama e seu braço direito estava no mesmo lugar de antes dos acontecidos no santo berço. Sua mente não lhe dá tempo de se alegrar com o fato de ter seu membro de volta, pois sua mente é tomada por um pensamento avassalador.
''Se Dante não está do meu lado, onde ele estaria? Essa nem se quer é minha casa! ''
A realização bate forte no rapaz, ele se atira para fora da cama com certa dificuldade pela pesada armadura que está usando, e cambaleia pela leve tontura por levantar muito rapidamente, escancarando a porta para clamar por seu, agora colega de quarto.
— REMUS!
A voz que sai de sua boca é irreconhecível, e o nome que chama não é o que ele desejava falar, mas rapidamente ele é atendido. Um homem de longos cabelos castanhos e olhos de um verde intenso vira para ele, ele é mais baixo que o mesmo, mas tem uma definição atlética em seu corpo, mesmo sendo tão diferente de quem tinha intenção de chamar, Arthur sabe, era ele que deveria de fato responder ao seu chamado.
— Ai, pra que essa gritaria ''grandão''? A maioria das pessoas mal está acordada direito, sentiu tanta saudade de mim assim?
O comportamento dele parece familiar por mais que não condizente com o de Dante, isso faz com que a ansiedade que estava nutrindo em si se envaia em sua grande maioria, com isso ele passa a se aproximar do moreno que parecia estar cercado de um pequeno grupo de pessoas, participando provavelmente de algum tipo de conversa antes de tornarem sua atenção para o enorme homem na porta aberta. O grupo consistia de uma mulher retinta com grandes cicatrizes no rosto, seus olhos eram de um verde mais frio, automaticamente a reconheceu como ''Amalia'' a mais veloz arqueira de ordo Calamitas, a organização para qual trabalhava e o local que agora lembrava estar. Ao lado da Flecha, uma mulher de cabelos quase branco e sobrancelhas bagunçadas forçava proximidade da mesma, aproveitando da falta de atenção de Amalia para apoiar a mão sobre seu ombro, o que ela prontamente espanta uma vez que seu estado de choque se quebra, Marius a reconhece como Celestine, mas também a reconhece como algo mais, antes que possa se perguntar o que essa sensação tão estranha significava, ele alcança o grupo, sendo prontamente indagado (com motivo) por seu colega, conhecido popularmente como ''O cativante'' (também com bons motivos).
— E aí, pra que esse escândalo todo, hum?
Ele apoia uma mão em suas contas com uma leve carícia, o ato seria lido como amigável se tivesse vindo de qualquer outra pessoa, mas o rosto de Marius queima em vermelho debaixo de seu capacete, o fato de não se lembrar do motivo de seu grito o envergonha mais ainda.
— Sonho… ruim, com fome, a gente tem que comer…!
Inventa, apontando para o grupo ao seu redor no meio da frase, a desculpa parece ser convincente o suficiente para o grupo, que passa a se dirigir ao centro da base, onde poderiam de fato se alimentar.
Na mesa, Marius se senta próximo de Remus, não sabia o porquê, mas sentia um leve desconforto em imaginar que o mesmo pudesse sumir de sua visão, estava acostumado a se apoiar no rapaz para fazer grande parte de suas decisões, era extremamente esperto e sempre sabia a coisa certa a se fazer para conseguir o que era preciso, mas esse não era o motivo dessa angustia, afinal, ele estava ali certo? Ao seu lado, rindo e sendo excessivamente bajulador e melindroso com todos, tocando de leve e criando proximidade com que se dirigia a palavra, como sempre foi, mas uma ansiedade seguia crescendo em seu peito, um sentimento que ele poderia desparecer a qualquer momento, que Marius seria deixado para decidir o que quer que fosse sem nenhuma ajuda, que em breve, ele teria que abdicar dos confortáveis momentos que nutria com seus aliados, os quais ele não exitaria em chamar de ''amigos''.
— Mas aí, já que você e o fortão aí são tããããão próximos e os caralho, cê já deve ter visto o rosto dele, né? O cara acordou gritando seu nome!
Celestine cospe, se atirando para a frente na mesa e fazendo menção de sussurro, mesmo que sem se preocupar em diminuir sua voz enquanto o fazia.
— Não tome ofensa, minha ''querida'' Celestine, mas isso não lhe diz respeito! Nossas intimidades não lhe interessam em nada.
Remus se joga para trás, se afastando de Celestine e apoiando uma mão no braço de Marius.
— O ROSTO É SEGREDO! NINGUÉM VÊ!
Marius exclama a fim de esclarecer que, não, Remus também não havia o visto sem seu capacete.
— Vocês podem parar de gritar um segundo? Já é difícil dormir aqui nessas camas duras, ainda mais quando se tem mais idade e, desse jeito, é quase impossível não ficar com dor de cabeça o dia inteiro.
Gaius reclama, finalmente se fazendo visto por seus colegas.
— Mas olha, você não está tão errada assim, é verdade que eu nunca pude ver quem é o grande guerreiro por de baixo de todas essas placas de metal…
As mãos apoiadas no braço de Marius sobem delicadamente até a área do pescoço de Marius, a qual é uma das poucas que estão cobertas apenas pelo tecido preto de suas roupas, elas o massageiam de leve, fazendo o gigante por debaixo da armadura enrubescer novamente, ansiedade e vergonha dão as mãos dentro do estômago do guerreiro que decide se manter em silêncio, abaixando a cabeça sem engajar a conversa. Remus deixa o braço esquerdo escorregar e cair sobre sua própria perna, e decide mudar o assunto, com um ar quase imperceptível de decepção.
Os aliados de Marius começam a se dispersar após comerem, Amalia passou a grande maioria do tempo em silêncio, apenas trocando algumas palavras com Cascadia esporadicamente, escutando mais do que de fato falando, Celestine, se esforçava para acompanhar a conversa, tentando desesperadamente se inserir nela, mas a calmaria dos temas tornava difícil de manter seu humor explosivo quando ambas se juntavam. Amalia se dirige a outro canto da sede sem ser percebida assim que encerra sua refeição, Celestine se levanta logo depois, percebendo que quem gostaria de atormentar havia desaparecido. Gaius havia se levantado resmungando ruidosamente no meio de sua refeição e não havia voltado desde então, já Faustus que havia chegado após todos, seguia consumindo sua refeição em silêncio, não costumava ter muito interesse na turma salvas algumas palavras trocadas com Amalia e Gaius, os quais ele julgava dignos de seu respeito. Remus termina sua refeição, e, visto que não havia mais ninguém com quem pudesse desenvolver uma conversa que julgasse suficientemente estimulante, se espreguiça de forma espetaculosa e se levanta rapidamente, esticando uma mão a Marius, que havia terminado de comer faz tempo.
— Se você quiser fazer alguma outra coisa ao invés de ficar olhando os outros comerem o dia inteiro, não que eu vá te julgar caso não, devíamos conversar com Veritus sobre nossa missão anterior, eu sei que analisar coisas não é exatamente seu favorito, mas você também tem informações que eu não tenho e seu ponto de vista seria apreciado!
Marius assente com a cabeça e aceita a mão de seu colega, mas ao olhar para a mesma, percebe algo estranho, um suave brilho verde-amarelado irradia de seus dedos. Alarmado, Marius olha o rosto do amigo, os olhos oliva vibram e brilham freneticamente, a expressão indo de calmo para amedrontado enquanto o brilho de suas iris espalham por toda a sua esclerótica, se derramando como lagrimas venenosas pelo seu rosto. A luz verde toca sua pele, a acendendo também, um vermelho intenso toma sua mão da mesma forma que Remus, o lado esquerdo de seu pescoço, que havia sido tocado pelo homem antes, agora queimava, partia? A dor do local se espalha rapidamente por todos os seus membros até que seu parceiro se irrompe em luz por completo, desaparecendo no ar, e antes que pudesse fazer qualquer coisa, o mesmo acontece com ele, explodindo em luz vermelha.
Arthur se arremessa para cima, levando sua mão até o local onde a queimação havia começado anteriormente, mas não sente nada, seu pescoço voltará ao normal e seu outro braço não existia mais, como de costume. Assim que raciocina sobre a situação em que se encontra, analisa o quarto da melhor forma que consegue na penumbra, reconhecendo automaticamente a silhueta de Dante e assim que seus olhos passam a se acostumar com a escuridão, percebe que o mesmo havia sido afetado pelo movimento brusco e o encarava confuso.
— Arthur…? Você tá bem?
Dante encara seu amigo, ainda esperando uma resposta, mas após alguns segundo de silêncio, o olhar de Dante se suaviza assim que ele faz a conexão do que está acontecendo, se aproximando para abraçar o Gaudério sabendo exatamente que estava prestes a ouvir em detalhes sobre o mesmo grupo de gladiadores que, assim como eles, eram agentes da ordem em seu tempo livre. O Ocultista se solta do abraço e sinaliza para esperar, voltando rapidamente com uma caneca de chá quente que Ivete estava preparando para o café da manhã, não costumava ser o favorito de Arthur, mas um café com leite ou achocolatado não seria o ideal para acalmar alguém que teve um pesadelo terrível. A história logo começou a ser contada, e como o esperado, havia uma grande riqueza de detalhes, Dante era o único que sabia da maioria do sonho, o instinto de Arthur de proteger Ivete e Agatha o impedia de detalhar os acontecimentos para as duas, até onde estavam cientes, podia muito bem só ser um resultado do estresse que passara na ordem durante os últimos meses e de uma imaginação muito ativa. Não é como se não achasse que a situação poderia por Dante em perigo também, só tinha certeza que de alguma forma, Dante estava conectado a essas histórias, essa realidade que visitava quase toda noite, então o contava, quase como se esperasse que isso o fizesse ligar algum ponto dormente dentro da cabeça de ambos, como se recontar todas as histórias pudesse acordar algum tipo de memória nele, mas não parecia ser agora que mataria essa estranha coceira dentro de sua alma. Assim que Arthur pareceu se acalmar o suficiente, Dante se levanta e começa a ir em direção à cozinha para que pudessem degustar o café da manhã, que provavelmente já estava pronto agora. Arthur o segue no mesmo momento, já acostumado com a rotina que partilham.
Ao se encaminharem à mesa, Agatha rapidamente se insere na conversa, sabendo perfeitamente do que se trata.
— De novo esses sonhos esquisitos, Arthur? cê tem certeza que não quer que eu peça pro Samuel te colocar em algum aplicativo de relacionamento? Não para de sonhar com cara pelado!
Ela brinca, mas é rapidamente repreendida por Ivete, que a julga pela brincadeira vulgar, dizendo que ela constrangeria seu filho.
— Ele não tá pelado, Agatha! E não tem só ele, eu já te falei, tem a Celestine lá, a Amalia, ooo… é... o velho…
— Gaius Arthur.
Corrige Dante, já tendo decorado grande parte dos detalhes do grupo que costumava protagonizar os sonhos de seu amigo.
— Isso! E eu não tenho interesse em namorar velho gagá, então o que cê tá falando nem faz sentido!
Dante disfarça uma risadinha se sentando a mesa do lado de ambos seus aliados que continuando expandindo o assunto, claro, de forma leve e superficial, nada igual à forma frenética e preocupada que Arthur tinha lhe contando minutos atrás, como se de fato sua vida dependesse de Dante saber o máximo de coisas possível sobre o que aconteceu em seu sonho.
Os dias se passaram e mais e mais os detalhes sobre as aventuras do grupo eram contados a Dante e (em parte) a Agatha e Ivete, com o tempo, os outros membros da ordem passaram a saber uma informação ou outra sobre os sonhos também, alguns nomes eram bem lembrados, Celestine parecia ter amontoado um bom fandom por parte dos dragões metálicos e como consenso geral, Remus era o mais carismático, mas Dante e apenas Dante sabia de como passaram a se desenvolver.
Conforme os sonhos decorreram, as missões da Ordo Calamitas se tornou mais clara, eles buscavam as relíquias, assim como os atuais membros da ordem e diferente deles, os gladiadores em seus sonhos pareciam realmente estar tendo sucesso, duas das quatro haviam sido encontradas, e visto que as informações que tinham sobre as relíquias eram rasas, mesmo sonhos proféticos de uma mente abalada eram mais do que nada, esses somados com as emoções inexplicáveis que sentia durante eles fazia com que, Arthur não achasse absurdo pedir para que pelo menos, Dante tentasse tomar nota do que ocorria em seus sonhos, e assim o fez.
O último sonho de Arthur foi um sonho estranho, todos tinham se juntado para comemorar após conterem a relíquia da energia com a engenhosa ideia de Remus, mas, repentinamente, Arthur foi tomado por um sentimento peculiar, ele não apenas era apenas Marius como na grande parte da grande maioria dos sonhos que tivera até agora, ele tinha total noção, ele era ambos, Arthur era a si mesmo E Marius, se lembrava de tudo que vivera até o momento, mas também se lembrava de sua vida como Arthur, e diferentemente das outras vezes, ele simplesmente acordou, sem luz irradiando, sem fogo, sem calor, sem morte, assim que pisava fora de seu quarto, tudo sumia, e como se tivesse sido ejetado de seu próprio sonho, ele voltava a sua vida real. E desde esse dia, o sonho se repetiu, de novo e de novo, até Arthur simplesmente parar de sonhar, foram semanas do mesmo sonho, até que ele parasse, a decepção em Arthur sempre que acordava era palpável, os lábios se curvavam formando uma carranca quase cômica toda vez, para ele, tinha se tornado uma forma de contribuir com a Ordem, assim como, uma forma de se tornar cada vez mais próximo de Dante, que apesar de não levar os sonhos tão a sério quanto ele, ainda se interessava em seus curiosos sonhos e nas personagens que haviam sido criadas em sua cabeça e por um tempo, foi isso, esse marcou o fim das histórias da Ordo Calamitas e de Marius, o guerreiro. Ou pelo menos, é assim que Arthur via as coisas, para Dante, esse não chegava nem perto de ser o caso, pouco depois dos sonhos de Arthur desaparecerem, estranhos sonhos começaram a habitar o sono do Ocultista e, apesar do apreço que tinha por seu amigo, ele tinha motivos consideráveis para querer mantê-los em segredo…
