Work Text:
1980.
Consta nas velhas alvenarias que a prática de ato obsceno em lugar público imputa a pena de detenção.
Para os caras da lei, é a forma ubíqua de coerção psicológica e moral, que na prática se prova ineficiente e descartável.
Ora, ninguém se atenta para isso senão por tédio, por xeretagem.
À julgar, o homem médio não sai de casa pensando que vai cometer um crime; na verdade ele o faz por ignorância, insensatez, impulso.
Não é no crime que ele pensa quando se encaminha para seu casulo, não é no montante na pena, mas é apenas o prazer, o desejo visceral que move o homem às veredas do pecado e da promiscuidade.
Que leigo liga para o Código Penal e suas leis estúpidas? …Que se foda.
Pés no chão, cigarro torrando, olhar unifocal. A determinação e a ânsia borbulham no estômago desde agora.
Às 1h da madrugada não há alma que reste em canto como o metrô. Almas castas, digo das pessoas que vivem de dia, não estão por lá. Porque a noite pertence aos garotos risonhos, às prostitutas traiçoeiras, aos ratos e miseráveis desajustados.
E a noite também pertence aos libertinos, aos boêmios, aos curiosos, aos que velam na escuridão prece ao diabo; envoltos da subversão dos valores da vida acima dos túneis.
Três rapazes fumam e se olham com sorrisos folgados julgando o caubói com as mãos no bolso, queimando um cigarro na boca, unifocal. Eles riem entre si, com o ruivo captando sua atenção.
O olhar é rápido como um flash mas demorado o suficiente para atribuir significado. Com um aceno e dois estalos de dedos, o ruivo vira a cabeça e os dois outros rapazes compreendem o código, permanecendo na mesma posição de pernas dobradas e cigarro na boca.
O ruivo passa pelo aviso, entra pela porta, flagra o homem alto e brega de costas para o mictório. Descartando palavras ele vai consultar o que o patife quer em seu usual modus operandi: zíper da calça aberto, sexo descortinado, urinando.
Não demora muito o loiro balança o pau com a carranca na cara. Ele balança de novo e põe a mão vaga na cintura.
Suas intenções são certas, muito claras por sinal.
O garoto franzino de fios ruivos olha de soslaio para o homem que o sonda e anseia. Com um pequeno sorriso torto, ele ousa se aproximar e checar o caipira.
Bronze dando cor aos antebraços fortes, esfíngicos músculos na camisa xadrez azul. Mandíbula marcada pela fileira de pêlos faciais que se alinham das costeletas e bigode, nariz côncavo, furo na orelha direita, cabelo loiro e aparado, olhos em um tom meio azul- celeste, blue-jeans… O ruivo não sabe dizer, mas deduz que ele tem uns 35-40 anos, e é antiquado.
Eles se vêem e o estranho macho se aproxima do outro, colando seus ombros. O olhar agora é intenso, demorado, uma conversa telepática que dura uns dois minutos; um diálogo necessário.
Um minuto depois de apreciar a espessura do pau e acenar, a mão dele investe na semi ereção do ruivo que desvia o olhar e fecha os olhos, sentindo a sensível excitação ao toque.
Seu nome? Não é preciso.
Sexualidade? Espontânea.
De onde vem? Não importa.
Idade? …O necessário para arriscar.
E a motivação: Sexo e exclusivamente sexo.
Este é o contexto que alguns chamariam de “salas de chá” anos atrás, o desprezível “bangalô” dos londrinos; mas é apenas uma espécie popular de cruising em banheiros públicos – que em termos chulos alguns já denominam como “banheirão", coisa da macharada.
Entrar em um ponto de cruising é sinônimo de sexo fácil, impessoal e desprendido. Para paquerar basta um olhar, sem nada dizer.
Que homem não quer isso?
De minuto a minuto o loiro alto espreita a entrada, sem sombra de proximidade. A mão segue em um punho ritmado no outro, em si, e o rapaz ruivo suspira, arfa, mais e mais imerso no tesão, na adrenalina, no perigo, no desconhecido.
Parecia ser só punheta compartilhada, mas as coisas se encaminham para outro ramo. Depois que o ruivo desvia os olhos lá de fora, a masturbação encerra e ele torna a olhar para o homem que solta um suspiro, amassando a bagana no cigarro no topo do mictório.
Aquele homem parece analisar os traços débeis do garoto aos seus 27 anos, claramente algum jovem de rua cheirador de cola. O cabelo ruivo descontrolado dá-lhe um toque selvagem picante, adornando o rosto imberbe e pálido, magro e cheio de veias visíveis. Roqueiro arruaceiro, menino-problema. Seus olhos são de um tom avelã caramelizado e enrustidos por bolsas de pele combalidas; das orbes miúdas a malícia habita até as vértebras.
Enquanto ele observa com um olhar que beira a inquietação, o ruivo abre um sorriso pequeno e gesticula sugestivamente com a boca e língua como quem diz: quer um boquete?
Em regra, a prática não tem interações verbais porque isso pode quebrar o clima, gerando o desconforto nas partes. O envolvimento não ultrapassa a camada superficial da carne, não atinge o lado emocional, o que, em certo ponto, não gera consequência senão a efemeridade orgásmica do qual todos buscam. Sexo sem compromisso, sexo por satisfação de desejos desvairados e oblíquos, em que a fantasia implícita se liberta no mais puro suco da pornografia explícita.
No calor do momento, ainda que haja dúvidas flutuantes, eles adentram no reservatório imundo, sentindo a proximidade de alguém. Eles ficam quietos à espreita de qualquer movimentação comprometedora. Os corações pulsam até por cima dos tecidos.
Quando o bizarro some, a excitação sobe. O loiro o salpica com beijos molhados fazendo menção de selar os lábios finos, mas nunca o alcança. Os dedos ásperos adentram por baixo da camisa do rapaz pálido, causando-lhe arrepios frios na linha da coluna que se espalham no baixo ventre.
A carícia é boa e os aquece o suficiente para que o roqueiro cabeludo se ponha de joelhos para o homem, que novamente abre a braguilha para expor o sexo. Faminto, o ruivo o devora com sua carne esponjosa e quente, resvalando a glande no céu espinhoso da boca.
O loiro por outro lado se mantém de pé, esfregando as madeixas crespas como um bicho de estimação. Depois, ele estoca, uma… cinco… quinze vezes sem parar, fazendo o ruivo engatar e cuspir aos engasgos. O pau volta a sacolejar dentro dele até o pingo gelatinoso grudar na língua alheia e ele sugar a fenda com sabor.
Isso arranca um quase gemido do homem misterioso.
Outra vez o olhar confessa por eles o que nunca poderia ser dito lá fora. O ruivo se põe de pé e limpa a boca, abaixando as calças a altura dos joelhos de forma crua e sem pudor.
Os dois homens acariciam o pênis um do outro, trocando beijos mínimos para manter a boca ativa e o tesão ardente. O cara bronzeado sente como seu parceiro noturno estremece, franze algumas expressões, puxa o ar com força e cantarola quase inaudível.
Por iniciativa própria, o rapaz se vira de costas e exibe a bunda branca com pontinhos… O homem ri nasalado notando como cada pinta parece formar uma constelação.
Na expectativa, o ruivo se remexe, olhando para ele por cima do ombro no instante em que ele tem a decência de usar camisinha. Algumas pessoas transitam pelo banheiro, conversam, desconfiam, cochicham e saem, o que nada impede eles de prosseguirem com o ato fugaz.
A pele pálida do ruivo fricciona no jeans do homem e ele sente o choque gélido da fivela do cinto frouxo nas covinhas de Vênus. Ele se arrepia um pouco mas se mantém imóvel, de pés separados, sentindo cada centímetro que perfura o interior como um míssil. Ele tem um pau grosso, desconcertante… delirante.
Quando os quadris se movem, o ruivo morde o beiço e solta um suspiro pesado pela boca, já se sentindo sem fôlego para suportar. Dar o cu não é fácil, mas é gostoso, e é por isso que ele pediu para ser fodido, para estar a mercê de um prazer anônimo e novo, para preencher um lado hedonista que mata aquela intrínseca fome primitiva de provar sabores proibidos… Ou quiçá pela posse momentânea, para sentir vários toques, vários corpos, vários paus, sem denominar algum.
É intenso, embora o barulho deva ser o mínimo. Ele enfia fundo, abrindo suas bandas para salivar em seu buraco e esfolar o caralho nele, socando em sua recôndita bolha de prazer. O ruivo está colado à parede, de olhos fechados para sentir as cócegas pujantes do ventre. Revirado às mutações, a carne treme, solava e o esporro jorra no ladrilho encardido; as pernas se torcem e os dedos arranham os cantos da porta; ofegos controlados.
O homem, no entanto, não goza, mas fica surpreso pelo modo tão encantador e erótico com o qual fê-lo desfazer. A visão é tão tentadora que ele se mantém latejante e o punho segue a lepidez do coração indomável, segurando o olhar predatório e nunca, nunca, fugitivo de sua vista.
Olho no olho.
Sexo pelo sexo.
Satisfação por satisfação.
Tudo em sigilo.
E por fim um sorriso que seria para nunca…
Só que é este mesmo sorriso que anos mais tarde James terá visto, com olhos multicolores e cabelo de fogo, cheio de vida e cheio de desejos ímpares que só ele entende quando apanha no olhar e na rouquidão nasal deixada no ar – há alguns passos na saída de um bar:
“Vem aqui comigo”
Seduzido, o caipira loiro vai, agora na esperança de saber seu nome.
