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Vermelho, é tudo vermelho.
O céu, o sol parado a horas na mesma posição, e até suas próprias roupas estão tingidas com a cor. Pela primeira vez no que parece uma eternidade, tem vermelho nas roupas de Badboyhalo novamente.
Mas é sangue. E não é dele, ele não sangra nesse tom, não mais. É dos seus amigos, dos seus companheiros da ilha, agora inimigos naquele campo de batalha, que Bad matou, inúmeras vezes, tudo pela vitória, tudo pelas crianças.
Ele tinha se tornado um monstro por elas, sido inescrupuloso, mostrado uma face de si mesmo que não poderia ser esquecida tão cedo pelos outros. Não havia tempo para arrependimento.
No horizonte, enquanto se aproxima da base do seu time, voltando da sua caçada, ele consegue distinguir uma silhueta esperando. O sorriso de Forever é impossível de ser esquecido. Como ele ainda conseguia sorrir da mesma forma na situação que se encontravam, Bad não sabia. Talvez o tempo no Nether tenha o dessensibilizado para a crueldade em geral.
— Bem vindo de volta, Bad.
Forever o recepciona, andando até ele sem hesitação, mesmo com seus traços demoníacos impossíveis de serem ignorados — os chifres mais longos, as garras, os dentes, até sua altura e porte haviam aumentado —, mesmo com o sangue dos seus amigos impregnado nele, o loiro segura seu rosto com as mãos, as mesmas mãos que o mataram há poucos dias atrás, quando ainda eram de times diferentes, as mãos capazes de todo tipo de invenção e artimanha, também eram as mãos que agora o acariciavam com o maior carinho do mundo. Os olhos cheios de preocupação e zelo, ainda que cansados, não haviam mudado para com ele, ainda continua sendo o (seu) Badboyhalo que ama. Monstro ou não.
Bad se entrega ao toque sem protesto, é suave e caloroso, era o mais perto de se desligar da realidade que conseguia naquele lugar. Logo o contato se transforma num abraço, o demônio cobre o elfo com sua estatura praticamente, descansando o queixo sobre a sua cabeça.
Ah, agora ele também estava sujo de sangue. Mas a Sua Flor não parecia realmente ligar.
— Você fez um bom trabalho hoje, Bad, muito bem.
Ele era bom demais para ser verdade, Bad pensou. Será que Forever sabia do tamanho poder que as suas palavras tinham sobre si? Que haviam borboletas no seu estômago após ele ver o seu lado mais violento e desesperado e o elogiar por isso? Parecia um sonho, doentio, porém ainda um sonho. Forever se desvencilhou e juntou suas mãos enquanto o levava para dentro da base.
O silêncio denunciava que os outros membros de Soulfire se encontravam em sono profundo, provavelmente não seriam capazes de acordar até o outro dia, o cansaço pesava até os ossos a esse ponto da competição. Eram só eles dois acordados, Forever tinha esperado por ele, apenas por ele.
Fazendo o mínimo de barulho, os dois guardaram suas armas e equipamentos, enquanto Bad tentava tirar o máximo de sangue seco de suas roupas (em vão), Forever se aproxima mais uma vez com algo em mãos.
Com agilidade, ele trata o seu braço marcado por grande ferida aberta, que Bad sequer tinha notado ou sentido dor até o momento, perdido na adrenalina e depois tomado pela exaustão, ocupado demais para se preocupar consigo mesmo. Trazia uma sensação boa ser cuidado assim por alguém como ele, que prezava tanto por quem amava e derramava paixão em todo ato, todo passo que dava, e agora mesmo, Forever contempla seu trabalho após enfaixado.
— Melhor?
— Sim, obrigado, Forever.
Era impossível não sorrir na presença contagiante dele, e Bad assim o fez quando o agradeceu. Por um rápido momento, pôde ver um brilho em seus olhos que não estava presente desde o sumiço dos ovos. O de se sentir útil.
Até Forever se encontrava irremediavelmente quebrado sem eles, e da sua maneira, lutando por eles. Nas escuras, nos bastidores, coletando itens e entregando sua parte das missões. Forçando-se a levantar e continuar de pé mesmo com a infecção desconhecida que tomava seu braço, coberto desde que voltou do Nether. Ele se recusava a falar sobre isso, era óbvio, no entanto.
Essa hora de descanso também era merecidamente dele. Foi a vez de Bad arrastá-lo até onde dormiam.
Não era segredo para ninguém ali a esse ponto, mesmo que dissessem que haviam juntado as camas para ganhar mais espaço, ou para aproveitar a troca de calor durante as noites mais frias, todos sabiam a real razão.
Deitados abraçados ali, Bad tinha a mão sobre o cabelo atualmente curto de Forever, passeava os dedos entre as pontas ainda mal cortadas, mas lindo de toda maneira. O loiro tinha a cabeça sobre o seu peito e cantarolava baixinho algo, num tom melancólico.
Oh, era saudades. Ele lembrava da palavra. De alguma forma, antes de dormir era o momento que Forever mais parecia inconsolável, o peso do dia finalmente o alcançava e Sua Flor parecia murchar.
Era tudo por seus filhos, mas e se fosse em vão mais uma vez? E se não conseguirem nenhuma resposta com isso, nem vê-los outra vez, só mais dor e sofrimento? (Assim como a ida ao nether. Tudo em vão.) Badboy quase consegue ouvir os seus pensamentos porque eram os mesmos que tinha, ocasionalmente. Ele não se permitia ser parado por eles, não mais.
O demônio aperta o abraço, não para machucar, para assegurar que Forever seja ancorado de volta naquele momento. Que ele não está sozinho, e que ele está seguro com ele. Meu meu meu.
— Vamos ganhar amanhã. Por eles.
Ele sussurra na escuridão, o rosto de Forever se move o suficiente para ser possível ver uma lágrima solitária rolar.
— Por eles.
Ele repete, trêmulo, fechando os olhos. O amanhã poderia não chegar, o elfo sabia bem disso, tudo poderia dar errado mais uma vez, mas só agora, só agora ele queria ter esperança e sonhar com ela esta noite.
Eventualmente, a sua respiração fica mais sutil e é assim que o demônio sabe que ele dormiu.
— Boa noite.
Ele deixa um beijo no topo da sua cabeça, nem tudo tinha que ser infernal no purgatório. Ainda havia espaço para o amor, às vezes. Quando os dois não estavam brigando por cada mínima inconveniência, isso é.
Ele não se importava de guardar esses bons momentos a sete chaves na sua memória. E talvez repeti-la quando voltassem à ilha com seus filhos. Vivos e seguros. Todas as pessoas que ama bem de novo.
Por fim, Badboyhalo fecha os olhos e espera conseguir descansar também.
Afinal, o dia de amanhã estará cheio de corpos novamente.
