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Aquelas memórias cinzentas ainda o rodeavam, como um fantasma esquecido no tempo preso em um loop sem fim. Chovia fortemente naquele dia, parecia que os céus estavam chorando de dor por aquele menino que não poderia derramar nenhuma lágrima sequer. A doce criança de sete anos era nomeada o novo Príncipe Herdeiro da Tailândia, tomando o lugar do seu irmão mais velho que tinha se perdido dentro da própria mente. Kimham Theerapanyakul não teve tempo de se despedir dos seus brinquedos, para dar enfim à uma rotina de treinamento massivo. Ele não era mais o segundo príncipe da família real, ele não era mais uma criança com a suas próprias escolhas. Não! Kim foi forçado a crescer, a evoluir e ser aquilo que o seu título exigia. Kim não pertencia a ele, pertencia a realeza com o todo o seu peso, dor e grandeza. Kinham era apenas uma criança inocente quando teve o seu destino condenado a sangue, fogo e lágrimas.
Os tempos se passaram que nem os ventos frios do Palácio e os espíritos que por ali andavam. A criança que era gentil, dócil e sorridente, passou para um adulto astuto, inteligente e privado de qualquer emoções. As que restou eram direcionadas ao seu irmão mais velho, que em momentos de lucidez, enchia Kim de carinho e calor humano. A relação com o seu pai era regada de miséria, frieza e desprezo ressentido. Os dois somente se viam quando eram obrigados pelo parlamento em reuniões exaustantes e eventos que a família real foi obrigada a participar. Por mais preparado que estivesse para assumir o cargo, ele não ansiava por isso. Mesmo que não desejasse ser o futuro rei da Tailândia, Kimhan se preocupava com o seu povo e prezava o melhor para eles. Protegeria o seu irmão com a própria vida e todos que estivessem sob os seus cuidados. Korn não era um ser humano, e uma criatura maléfica muito mais baixa que um demônio faminto por almas, aos olhos de Kim, um monarca que possuía ambição de tornar a Tailândia uma potência única e tomou forçadamente terras e reinos como pertence a coroa. Qualquer relutância, era uma ameaça de uma guerra. Um rei que não se preocupava com nada — além dos próprios interesses — que deixou o seu filho mais velho enlouquecer e chorar sangue com a morte brutal da sua mãe, afinal foi ele que a matou, e Tankhun testemunhou isso. Por mais preparado que estivesse para governar, Kim não sentia que seria rei um dia. No fundo na sua mente, ele ainda era o segundo príncipe que brincava pelo Palácio e recebia doces beijos de sua mãe, todavia o céu caiu com a morte dela, a perda da realidade de Tankhun ao assistir a sua mãe ser degolada; e Kim ser o novo príncipe herdeiro. Tudo isso em menos de vinte e quatro horas.
Quando o céu caiu novamente foi quando Kinham quase deu início à uma guerra para se casar com Porchay. O rei não queria que seu filho se casasse com o filho de uma jardineira, alguém sem posses, sem títulos e sangue real. Kim simplesmente não se importou com nada disso, o príncipe ameaçou fazer o céu cair, raios caírem, as montanhas desabaram e os mares secaram quem ousasse ser contra a sua união com Chay. Mesmo com o desprezo, as maldições rogadas e a ira do seu pai, Kimhan casou-se com Porchay, tendo apenas a presença de Tankhun, a mãe de Chay e alguns soldados que cuidavam da segurança do seu irmão. Além de ganhar um título como príncipe consorte, riquezas e poder. Chay venceu algo melhor, ter o coração de Kim, assim como o seu pertencia a ele. Um mês depois, o mundo inteiro soube que o futuro rei da Tailândia estava casado.
Eles seguiam as suas vidas, até o céu cair novamente. O casal estava em uma casa privada em uma ilha em comemoração de um ano de casamento, quando Chan, o conselheiro real do seu pai, chegou com inúmeras pessoas do parlamento. Kimhan se encontrava na cozinha fazendo um bolo para Porchay, o seu marido estava no jardim regando as suas flores quando o conselheiro veio até ele. Notando a movimentação ao lado de fora e pensando que poderia ser uma ameaça, Kim sacou a sua arma e estava pronto para matar quem ousasse fazer mal à Porchay. Entretanto, as suas orbes caíram em uma realidade que o mesmo não estava preparado. No momento que viu Chay com os lábios trêmulos, os olhos lacrimejados e a maneira que o seu olhar implorava pelo abraço quente de Kim, ele sentiu algo. Chan apenas caminhou sem dizer uma palavra ao príncipe, e caiu de joelhos em reverência e obediência ao mais novo.
— Vida longa, a sua majestade real, o rei Kimhan Theerapanyaku!
Kim não teve nenhuma reação ao momento, até sentir o calor da mão de Chay na sua mão. Aquilo não poderia ser verdade, o seu pai não poderia… poderia? Não, com certeza era uma dos seus jogos de xadrez para que ele deixasse Chay, usando uma morte falsa. Sabia que Korn faria qualquer coisa, já que o mesmo era contra o seu casamento, por mais que estivesse validado pela realeza. Entretanto, vê Chan de joelhos no chão, causando uma sensação horrível nele. O seu pai iria tão longe assim? Iria?
— Majestade, eu sei que o senhor pensa sobre isso, mas é a pura verdade. O protocolo já se deu início…
Kim apenas riu sem humor algum.
— Eu não acredito que o meu pai iria tão longe assim. Iniciando um protocolo de séculos de tradição, apenas por não aceitar o meu casamento? Nossos ancestrais devem estar rindo de desgosto por tudo isso. Depois sou eu, o príncipe mimado.
Chay olhou para o seu companheiro, sabia que Kim estava entrando em estado de negação, afinal era o primeiro estágio de luto. Chan que se encontrava presente, desde que ele foi nomeado príncipe herdeiro possuía o mesmo pensamento do consorte.
— Majestade, toda a família real já foi informada. Todos estão se dirigindo ao palácio principal. Devemos pegar o primeiro avião imediatamente…
— Eu não irei para nenhum lugar! Não vou cair nos joguinhos meticulosos do rei! Você me entendeu, bem? — Os olhos de Kim eram vermelhos, as suas palavras espinhosas.
— Kim, por favor, ouça… — Chay disse com a sua voz calma e melodiosa.
— Meu doce anjo, é apenas uma armadilha do meu pai para nos separar.
— E se for verdade, Kim? E se o rei estiver… — Chay não conseguiu terminar a frase.
— Ele não está, meu doce anjo — assegurou.
— Não temos como não saber, Khun Chan não viria de tão longe assim. Por que não vamos? Se for como disse, a gente volta para cá e continuamos a nossa vida, e eu estarei aqui com você. Porém se for verdade, eu ainda vou estar com você, meu príncipe. Mesmo que o céu caia, eu vou estar segurando a sua mão, pois somos mais fortes juntos — declarou o rapaz com o olhar meigo para o seu marido.
— Eu te amo tanto, Chay — Kim beijou a sua testa e Chay se aconchegou no seu abraço.
— Eu te amo tanto, Kim. Vamos, estou com saudades de Tankhun. E se for verdade mesmo, ele vai precisar de nós.
Kim soltou um suspiro cansado dos lábios.
— Está bem. Chan, comece os preparativos da nossa volta.
— Sim, Majestade.
Kimhan adentrou na sua residência com Chay ao seu lado. Seja o que for, ele está preparado, pois ele tem o seu amado companheiro consigo.
[...]
Parecia que até mesmo o tempo conspirava em favor do seu pai, pois estava nublado com um misto de melancolia e solidão pelas almas perdidas. Assim que vestiram os trajes de cerimônias da morte de um monarca, onde ambos tem que está de preto da cabeça aos pés, Kim e Chay desembarcam na capital da Tailândia. Diversos guardas vestiam preto e faziam a sua escolta até o palácio. Quando mais se aproximava de sua casa, mais aquele pensamento que pode ser verdade vinha na sua mente. Será mesmo que…. Não! Era apenas uma artimanha do seu pai, e Kim daria um basta nisso. O casal desceu do carro, onde vários jornalistas do mundo inteiro aguardavam a sua chegada, as bandeiras se encontravam abaixadas e todo redor da casa era enfeitado de preto. Kim não se importava com a mídia, pois cresceu cercada dela, mas Chay não. O jovem se assustava com aqueles flashes e ficava em pânico quando diversos repórteres e paparazzi ficaram o seguindo atrás de qualquer informação da realeza. Escoltados pela melhor segurança do rei, o casal entrou no Palácio.
Todos os membros da família real se encontravam no palácio, trajando roupas pretas, o grito do silêncio era o único som a ser ouvido, e Kim sentia aquela coceira incômoda na sua garganta. Enquanto caminhava com Chay ao seu lado, todos o saudavam com uma reverência quieta. Pareciam almas perdidas que não sabiam o ruma depois que morriam, e Kim sentia daquela forma. Viu os seus primos, Vegas e Macau. A dupla possuía um olhar de desinteresse, e não mostravam nenhum sinal de tristeza, até porque não se importavam com ninguém daquela família. Ao lado de Vegas, se encontrava o esposo dele, Pete. Que por sinal era chefe dos guardas reais que cuidavam do seu irmão. Ao vê-lo, Kim apenas perguntou uma coisa:
— Cadê o meu irmão? — perguntou com a sua voz gélida.
— Majestade, a Sua Alteza Real, Tankhun, ele…
— Fale de uma vez!
— Não é porque você se tornou rei que tem direito de falar assim com o meu marido! — falou Vegas com a sua voz ferina. Por mais que fosse um príncipe real e tivesse títulos, ele nunca se importou em mostrar respeito ao seu tio e primo. E caso mexesse com Macau e Pete, a situação não ficava nada bem.
— Eu não sou rei, Vegas! É apenas…
A sua fala morreu, quando o seu primo, Macau, o virou de frente para o salão. Entrando pelos portões pesados de mármore, Tankhun trajava as suas vestes pretas e um véu que caía sobre o seu corpo. O seu irmão mais velho caminhava como uma folha perdida pelo vento. Alguém coberto pela tristeza, que implorava por consolo do seu luto. A cena se assemelhava a uma flor murcha que lutava contra uma tempestade feroz no mar. Ninguém ousou dizer nada, apenas os passos arrastando do príncipe eram ouvidos pelo salão. Kim sentia o seu coração bater mais rápido, a sensação de desespero tomando cada parte de seu corpo e a sua alma quebrada implorava que tudo fosse uma mentira, um pesadelo perdido que de que não conseguia acordar.
Com mãos unidas sobre o seu peito, Tankhun caiu de joelhos no chão. O seu olhar era focado em Kim, como se fosse uma canção silenciosa de desculpas. Ele reconheceu Kim, como o seu soberano e rei, acima dos seus laços de sangue.
O céu caiu para Kim.
O céu caiu com a morte de Korn.
O céu caiu afirmando que ele era o novo rei da Tailândia.
O céu caiu sobre os seus pensamentos e sentimentos.
O céu caiu sobre ele.
O céu caiu, e Kim viu pela primeira vez em anos que era rei, e nada podia o salvar daquilo.
O céu caiu, e Kim derramou uma lágrima solidária após anos trancafiado.
O céu caiu, e Kim sentia o peso da coroa sobre a sua cabeça.
Oh Deus! Salve o novo rei da Tailândia!
